• Luiz Eduardo Macedo-Reis

A chuva de insetos herbívoros no Parque Estadual da Mata Seca – (PEMS) Manga/MG

Atualizado: Abr 6

Luiz Eduardo Macedo Reis

Biólogo, doutor em Ecologia (UFMG), diretor executivo da Maram Projetos Ambientais.


A chuva do broto. Assim alguém chamou a chuva no Parque Estadual da Mata Seca (PEMS) em Manga/MG. Parece que na Mata Seca norte-mineira, chuva tem nome! E, de fato ela é importante pois oferece alívio e indícios de que a seca irá acabar.


As florestas tropicais secas, conhecidas como Matas Secas ocorrem fragmentadas onde a falta de água provocada por um período de seca prolongado, induz a estratégia fenológica de abortar folhas e produzir sementes na maioria das plantas. Uma perda foliar incrível pode ser observada entre o verão e o inverno nas florestas da região (Pezzini et al., 2014). O PEMS é uma unidade de conservação palco de várias investigações biológicas que funcionam como ferramentas de auxílio nas decisões de manejo e conservação deste ecossistema. Lá é possível ver a floresta mudar de cor para o verde devido a ação da umidade do atlântico (Fig 1), e observar uma troca biológica que se compara a troca que ocorre na paisagem de verão e do inverno com gelo nas regiões temperadas. A atividade animal na Mata Seca é sazonal. As populações dos insetos que habitam florestas secas são criticamente afetadas pela falta de folhas nas plantas com redução nas populações dos insetos neste ecossistema (Novais et al., 2018). Portanto, a intensidade da seca determina a distribuição de muitas espécies e atua como um importante filtro ambiental.













Fig 1: Transições da mata seca. Fotos: Cleandson F. Santos



No parque da Mata Seca pesquisadores monitoraram a comunidade de insetos herbívoros durante dois anos, com o auxílio de armadilhas de intercepto de voo modificadas do modelo proposto por René Malaise (Malaise, 1937) e Yves Basset (Basset, 1988). As armadilhas ficaram erguidas no dossel da floresta e as amostras de insetos foram realizadas a cada dois meses (Fig 2). Nelas, as capturas de besouros pertencentes as subfamílias Scolytinae (Fig 3a) e Platypodinae (Fig 3b) foram o foco em um estudo publicado em 2016 que verificou a variação temporal na densidade de espécies e os fatores climáticos responsáveis pela distribuição da comunidade (Macedo-Reis et al., 2016). Estes besouros são classificados em guildas alimentares; os besouros de casca que se alimentam de madeira e os besouros da ambrosia que constroem galerias no tronco das árvores onde cultivam fungos para sua alimentação. Portanto, não ocorre dependência de folhas nas plantas para este grupo que se abriga e se alimenta na madeira.

Fig 2- Armadilha Malaise - Foto: Cassidy Rankine





Fig 3a Platypodinae e Fig 3b Scolytinae - Fotos: Jonathan C. B. Macedo




Os pesquisadores demonstram diferenças na atividade temporal de besouros de casca e de ambrosia. Os fatores climáticos avaliados no estudo indicam sazonalidade na comunidade de besouros da ambrosia e não determinaram a atividade dos besouros de casca. Estes, são fatores relacionados ao cultivo de fungos, o recurso principal dos besouros ambrosia. Por outro lado, a troca temporal de espécies na guilda de besouros de casca foi maior, indicando raridade e a dependência de recursos (madeira) em um estado adequado para colonização ao longo das mudanças temporais nas condições. Além disso, o total de espécies encontradas na guilda de besouros de casca é maior do que a guilda de besouros ambrosia, este resultado é similar ao de outras florestas tropicais secas no mundo e difere das florestas tropicais chuvosas onde ocorre maior conjunto de espécies de besouros da ambrosia.


Os resultados do estudo também sugerem que plantas com folhas senescentes que emitem substâncias atrativas devem determinar a flutuação de besouros da ambrosia nas Matas Secas. De toda forma, o pico de atividade destes besouros ocorreu em condições de pouca chuva, alta umidade e temperatura variando de 20 a 23ºC. Dias nestas condições caracterizam os momentos de transição entre as estações, como é a condição climática no final do período seco na região, entre os meses de agosto e setembro (Macedo-Reis et al., 2016).


Em agosto no PEMS e no mesmo período das amostragens com a malaise, os pesquisadores capturavam ativamente insetos herbívoros de vida livre (sugadores de seiva e mastigadores de folhas (folívoros)) em árvores praticamente secas e sem folhas (o esperado para o período), com o auxílio de um guarda chuva entomológico. Porém, após a conclusão de um pouco mais da metade da meta de árvores a serem amostradas, uma tempestade de dar medo atingiu o local do estudo, molhando a terra de deixar o solo enxarcado, e quebrar muitos dos galhos que estavam já secos nas árvores após as 19 semanas de muito sol, seca e pouca umidade. Esta foi a primeira chuva, a chuva do broto e, seis dias após ficou evidente a transformação para o verde novo (Fotos Transição), e a maior disponibilidade de recurso para os herbívoros de folhas, já que folhas novas são mais nutritivas e tem menor quantidade de defesa comparadas as folhas maduras.


A pesquisa que foi realizada antes e após esta tempestade demonstrou que as plantas amostradas logo depois da chuva abrigavam três vezes mais herbívoros do que as plantas amostradas antes dela (Novais et al., 2019). Provavelmente as alterações climáticas como o aumento da umidade do ar, fotoperíodo e temperatura no final da estação seca (pico da seca) sejam os mecanismos abióticos “pistas climáticas” para a produção de folhas em algumas árvores antes da chuva, por isso alguns herbívoros foram amostrados na seca extrema e, entre estes, provavelmente estão espécies únicas dali.


As pesquisas realizadas com os insetos contribuíram para o entendimento de uma sincronia entre a fenologia nas plantas e o ciclo de vida dos insetos herbívoros na Mata Seca. Provavelmente a maioria das espécies de herbívoros apresentam ciclos de vida altamente ajustados ao ambiente e a chuva é uma sugestão ambiental importante para muitos dos insetos herbívoros em florestas tropicais secas.


Obrigado pela leitura



Referências


Basset, Y., 1988. A composite interception trap for sampling arthropods in tree canopies. Aust. J. Entomol. 27, 213–219. https://doi.org/10.1111/j.1440-6055.1988.tb01527.x

Macedo-Reis, L.E., Novais, S.M.A. de, Monteiro, G.F., Flechtmann, C.A.H., Faria, M.L., Neves, F.S., 2016. Spatio-Temporal Distribution of Bark and Ambrosia Beetles in a Brazilian Tropical Dry Forest. J. Insect Sci. https://doi.org/10.1093/jisesa/iew027

Malaise, R., 1937. A new insect-trap. Entomol. Tidskr. 50.

Novais, S., Macedo-Reis, L.E., Cristobal-Peréz, E.J., Sánchez-Montoya, G., Janda, M., Neves, F., Quesada, M., 2018. Positive effects of the catastrophic Hurricane Patricia on insect communities. Sci. Rep. 8, 15042. https://doi.org/10.1038/s41598-018-33210-7

Novais, S.M.A., Monteiro, G.F., Macedo-Reis, L.E., Leal, C.R.O., Neves, F. de S., 2019. CHANGES IN THE INSECT HERBIVORE FAUNA AFTER THE FIRST RAINS IN A CHANGES IN THE INSECT HERBIVORE FAUNA AFTER THE FIRST RAINS IN A. Oecologia Aust. 23, 381–387. https://doi.org/10.4257/oeco.2019.2302.16

Pezzini, F.F., Ranieri, B.D., Brandão, D.O., Fernandes, G.W., Quesada, M., Espírito-Santo, M.M., Jacobi, C.M., 2014. Changes in tree phenology along natural regeneration in a seasonally dry tropical forest. Plant Biosyst. 148, 1–10. https://doi.org/10.1080/11263504.2013.877530


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