• Rogério Parentoni

Abelhas: pequenos indivíduos, mas com grande atuação funcional ao ecossistema

Por: Larissa Thans Carneiro

Bióloga, Entomóloga, Mestre e Doutoranda em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ


Dentre os vários agentes polinizadores existentes no planeta destacam-se os insetos, por serem abundantes e se ajustarem perfeitamente às diferentes estruturas florais. As abelhas se destacam como polinizadores por serem responsáveis por quase 80% da polinização realizada pela totalidade de insetos que exercem essa tarefa (McGregor, 1976).


O número total de polinizadores é estimado em 40.000 espécies, dentre os quais 25.000 são espécies de abelha (FAO, 2004). No entanto, elas são consideradas os polinizadores mais importantes não apenas pela sua maioria numérica; são também responsáveis pela produção de alimentos para o homem provenientes de 900 das 1.300 espécies vegetais cultivadas no mundo (McGregor, 1976). Além disso, respondem por 75% da polinização necessária às culturas agrícolas (Nabhan & Buchmann, 1997).


O interesse do homem pelas abelhas começou já na pré-história. Em cavernas na Espanha há registros datados de 8.000 anos de pinturas rupestres representando a extração do mel em ninhos encontrados na natureza. Quanto à apicultura, ela surgiu há cerca de 4.500 anos, a julgar pelos os primeiros registros encontrados no Egito (Nature, 2015). Desde então, a apicultura se desenvolveu amplamente ao redor do mundo.


Diferente de outros polinizadores, as abelhas são extremamente eficientes na polinização tanto de plantas cultivadas quanto silvestres, já que os recursos florais dessas plantas (pólen, néctar e óleos) representam suas únicas fontes de alimento ou produtos necessários à sua sobrevivência (Freitas, 1995). As plantas e seus polinizadores evoluíram há milhões de anos por meio de mecanismos de interdependência pelos quais as primeiras necessitam dos polinizadores para transferir o pólen das anteras aos estigmas assegurando assim a polinização, fertilização e produção de sementes. Com isso, exceto nas espécies vegetais polinizadas pelo vento, água e outros mecanismos, a grande maioria das plantas precisa de agentes bióticos para frutificarem.


Espécies de abelhas sociais formam colônias com centenas ou milhares de indivíduos, o que aumenta muito a demanda por alimento. Isso faz com que cada abelha da colônia visite um número muito maior de flores do que normalmente ela (ou outro polinizador) visitaria se tivesse que suprir apenas suas próprias necessidades alimentares individuais. No caso dessas abelhas sociais, cada operária tem que prover alimento para si própria e para as demais operárias que permanecem no ninho efetuando outras tarefas, bem como para as crias em desenvolvimento. Além disso, armazenam recursos alimentares que irão suprir a colônia nos períodos de escassez de alimento no campo (Pinho, 1998). Em algumas espécies, particularmente Apis mellifera L. (Hymenoptera, Apidae), essas reservas de recursos alimentares podem significar a diferença entre a vida e a morte quando as abelhas precisam sobreviver dentro do ninho por até quase seis meses, nos países de clima temperado, às custas de até 40kg de mel (Winston, 1987).


A polinização não é só uma etapa fundamental do processo reprodutivo das plantas, mas acaba sendo também um importante serviço para a manutenção dos ecossistemas. As plantas constituem os produtores primários nos ecossistemas terrestres, sendo diretamente responsáveis por muitas das funções prestadas aos ecossistemas, como: seqüestro de carbono, prevenção da erosão dos solos, fixação de nitrogênio, manutenção dos lençóis freáticos, absorção de gases do efeito estufa, além de fornecerem alimento e habitat para a maioria das formas de vida aquática e terrestre (FAO, 2004).


O valor destes serviços ecossistêmicos em toda a biosfera tem sido estimado em 33 trilhões de dólares por ano (Costanza et al., 1997). Por isso, a existência dos insetos polinizadores, principalmente as abelhas, é imprescindível para a produção e desenvolvimento de diversas culturas agrícolas. Dentre essas culturas destacam-se maçãs, peras, frutas cítricas, melões, kiwis, soja, dentre outros frutos e vegetais (Freitas, 2005a,b).


Atualmente, evidências demonstram que um grande evento de extinção da diversidade biológica está em andamento. A cada década, a Terra está a perder entre 1 a 10% de sua biodiversidade, principalmente devido à extirpação de habitats, invasão de pragas, poluição, superexploração de recursos naturais e doenças (Wilson, 1999). Certos serviços de ecossistemas naturais são tão vitais para as sociedades humanas, que essa ameaça em curso constitui um sério obstáculo para nossa sobrevivência. Esse é um forte motivo pelo qual devemos empreender medidas efetivas para conservação dos polinizadores


Nas atividades agrícolas, desde a década de 70, já é registrada a escassez de polinizadores (Burkle et al., 2013). Essa escassez de polinizadores pode afetar negativamente a produção de culturas e mercados de commodities. Uma análise econômica indicou que os consumidores e produtores de uma mercadoria são afetados pelo déficit de polinizadores, pois o preço das commodities tendem a aumentar e se tornam menos disponíveis devido ao declínio das colheitas (Kevan & Phillips, 2001). Os problemas começam a ficar mais graves com relação à oferta mundial de alimentos, segurança e comércio, por conta do declínio em massa dos polinizadores que não estariam exercendo seu principal serviço ecossistêmico.


O crescente declínio das abelhas, particularmente das A. mellifera, foi nomeado como Desordem do Colapso das Colônias (Colony Collapse Disorder - CCD) para definir essa síndrome que envolve muitos fatores e que afeta as colmeias anualmente, especialmente quando baixo número de fontes alimentares prejudica a sobrevivência das abelhas adultas e imaturas (FAO, 2004).


Acredita-se que um conjunto de vários fatores têm contribuído para o declínio das colônias de abelhas. Tem-se como exemplos desses fatores a poluição do ar, que dificulta as relações simbióticas entre polinizadores e flores. Por mais que os insetos diurnos dependam principalmente da visão para encontrar flores, os poluentes emitidos acabam afetando a produção de substâncias químicas pelas flores para atrair insetos, o que destrói trilhas de perfume vitais para que esses insetos possam localizá-las (McFrederick et al., 2008; Burkle et al., 2013; Fürst et al., 2014). Aromas emitidos a partir de flores de uma planta que podem viajar mais de 800 metros de distância em 1.800 segundos, agora chegam a menos de 200 metros, o que dificulta a capacidade dos polinizadores em localizar fontes de alimento (McFrederick et al., 2008). Outros poluentes presentes no solo e no ambiente em geral, tais como metais pesados, também podem suprimir a imunidade de algumas espécies (Borowska & Pyza, 2011).


Com relação às práticas agrícolas, existem as frequentes pulverizações com produtos químicos que podem envenenar polinizadores ou prejudicar a sua reprodução, eliminar fontes de néctar, destruir as plantas hospedadas por larvas de insetos e prejudicar a nidificação de abelhas (Nabhan; Buchmann, 1997). É provável que o uso crônico de herbicidas cause a perda de plantas e juntamente a isso, conduza os polinizadores ao declínio. Além disso, vários inseticidas não são apenas aplicados em campos agrícolas, mas também em jardins residenciais, áreas de lazer, florestas, pântanos e demais locais cheios de mosquitos ou outros insetos considerados prejudiciais ao homem.


Os inseticidas e agrotóxicos podem ser tóxicos tanto para os insetos em geral, quanto para as abelhas, prejudicando os papéis funcionais que esses animais desempenham no meio ambiente. Estudos demonstram que a exposição a substâncias como o imidacloprid, clotianidina, tiametoxam podem causar perdas de sentido direcional, prejudicam a memória e o metabolismo cerebral e levam à mortalidade de insetos (Bonmatin et al., 1994). Outro fator relevante é que o uso de tais substâncias combinadas com os neonicotinóides e certos fungicidas aumentam ainda mais a toxicidade dos inseticidas, deixando-os em até mil vezes mais tóxicos, mas parece existir certas divergências entre os estudos realizados em laboratório e em campo (Bonmatin et al., 1994; Colin et al., 2004).


Os pesticidas, agrotóxicos e herbicidas não são os únicos suspeitos do declínio mundial das populações de abelhas. Dentre as causas elencadas para este fenômeno, destacam-se também os patógenos. Vários são os patógenos que as acometem, entre eles bactérias e fungos, como a bactéria Paenibacillus larvae que causa a “Cria pútrida americana”, o ectoparasita Varroa destructor associado com o vírus da asa deformada, causando então a deformação das asas das abelhas e o fungo Ascosphaera apis que causa a doença “Cria giz”. Já o microsporídeo denominado como Nosema spp. é um fungo endoparasita do intestino de abelhas adultas que têm sido largamente encontrados nas colônias de A. mellifera e causa uma doença chamada Nosemose (Silva, 2010). As distribuições dessas patologias, em algumas partes do mundo, bem como no Brasil, são pouco conhecidas, não apenas pela dificuldade da coleta de amostras em um país com grandes dimensões, mas também em virtude da morosidade e elevado custo dos diagnósticos envolvidos.


Outra previsão é a de que as consequências das alterações climáticas, como as mudanças na temperatura e umidade que propiciam as flutuações no amadurecimento e nos períodos de floração, e uma redução global na estação de crescimento das plantas, poderão dificultar a subsistência dos polinizadores (Steltzer & Post, 2009). As alterações que afetam a distribuição de recursos florais em todo espaço e tempo também influenciam a composição das comunidades dos polinizadores. As modificações no meio ambiente, principalmente realizadas pelas ações antrópicas também fazem parte do conjunto de fatores que causam o colapso das colônias das abelhas. A fragmentação e a perda dos habitats são os fatores primários que contribuem para a perda da biodiversidade e para as mudanças nos ecossistemas (Donaldson et al., 2002). Não só a intensificação da agricultura, mas também a urbanização, promovem riscos e ameaças às abelhas e demais espécies animais e vegetais, pois tais atividades modificam os mosaicos das paisagens e na maioria das vezes geram graves impactos nos ecossistemas e em suas comunidades (Defries et al., 2004).

Vários atributos da biologia das abelhas tornam adequados para explorar o papel de fatores locais e da paisagem na persistência de suas populações em sistemas fragmentados. Abelhas forrageiam em locais considerados centrais (por exemplo, no centro de uma área urbana ou rural), com ninhos existentes em tipos de habitats identificáveis, permitindo a exploração do efeito do habitat e da nidificação na sobrevivência e reprodução (Goulson et al., 2012). As abelhas necessitam de diferentes tipos de recursos além dos recursos florais, incluindo substratos e materiais para nidificação. As distribuições desses recursos variam entre os tipos de habitats ao longo do espaço e ao longo do tempo. Assim fatores em nível da paisagem, tais como a quantidade e distribuição de vários tipos de habitats, os recursos que eles contêm, e a conectividade entre os tipos de habitats, podem ser fundamentais para manter as populações de abelhas (Villanueva, 2002).


Tendo em vista o que foi exposto acima, é mais que evidente a importância das abelhas para a manutenção da vida no planeta. Por isso, é extremamente necessário e urgente realizar ações que visem a conservação de suas populações. Atitudes individuais simples, como cultivar plantas em casa, já auxiliam esses pequenos polinizadores. Todavia, ações coletivas têm um maior alcance do ponto de vista da conservação, tais como: proibição de pesticidas e agrotóxicos nocivos, substituindo-os por compostos orgânicos; fomentar as práticas agroecológicas; criar abelhas sem ferrão - espécies como a jataí, iraí, jandaira ou mandaçaia, entre outras, são abelhas dóceis e que podem fazer parte de jardins; e lutar, principalmente, pelo direito a um ambiente sadio.


Preservando as abelhas também preservamos o meio ambiente, garantimos nossos alimentos e, consequentemente, asseguramos nossa existência e das gerações futuras.



Referências


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Burkle, L.A.; Marlin, J.C.; Knight, T.M. Plant-pollinator interactions over 120 years: loss of species, co-occurrence, and function. Science. 2013; 339(6127):1611–1615. doi:10.1126/science.1232728.


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