• Agni Araújo Neiva

Armadilhas fotográficas: visibilidade à vida selvagem

Atualizado: Abr 10

Por: Agni Araújo Neiva, Bióloga, formada pela universidade Federal do Tocantins

O registro da vida selvagem, ou seja, da fauna silvestre, é uma ferramenta fundamental na manutenção do meio ambiente equilibrado. Segundo a constituição de 1988, inciso I, define-se o meio ambiente equilibrado como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.” Ainda, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a fauna silvestre presta serviços ecossistêmicos necessários à vida humana, tais como alimento, polinização e dispersão de plantas, regulação do equilíbrio de populações e controle de pragas. Assim, o conhecimento sobre a fauna é essencial para a conservação das espécies e dos habitats onde elas vivem.


Existem metodologias específicas que são empregadas em inventários com fins de conhecer os animais e sua interação com o ecossistema. Estão entre elas a captura e marcação, a colocação de rádio colar, os métodos de observação indireta, como a busca por vestígios (por exemplo, pegadas, fezes e ninhos abandonados) e armadilha de pegadas (camada de areia em local com grande potencial de passagem fauna, com utilização de iscas), assim como de observação direta, que inclui o método de transectos (amostragem conduzida ao longo de linhas ou trilhas) e as armadilhas fotográficas.

As armadilhas fotográficas, acrônimo em inglês Camera Traps, foram inicialmente desenvolvidas e utilizadas por caçadores e aficionados por vida selvagem. George Shiras (1859 - 1942), considerado o pai das fotos de vida selvagem, é o precursor no uso de câmeras com flash para registro noturno. No início, navegava durante a noite com uma lamparina e assim que avistava os animais acionava câmera e flash para capturar a imagem.



George Shiras e seu assistente John Hammer em registro noturno da vida selvagem, em 1893 (Fonte: National Geografic)



Imagem de um Lince capturada por George Shiras, em 1902 (Fonte: National Geografic).


Posteriormente, Shiras montou engenhosa armadilha fotográfica, na qual o flash e a câmera eram amarrados com cordas suspensas e quando perturbadas os disparavam simultaneamente, o que chamou de Flashlight Trapping.



Flashlight Trapping criada por George Shiras (Fonte: National Geografic)



Cervos de cauda branca fotografados com Flashlight Trapping (Fonte: National Geografic)


Atualmente, as armadilhas fotográficas são consideradas ferramentas essenciais em estudos de caracterização faunística, contribuindo para a conservação de algumas espécies. São constituídas, basicamente, por uma câmera combinada com sensores de calor e movimento que permitem a captura de imagens, vídeos e sons. Protegida por uma caixa, são desenvolvidas para suportar a exposição ao sol, chuva e umidade. O flash infravermelho captura imagens noturnas de alta qualidade e não assusta os animais, uma vez que a frequência da luz emitida não é captada pela retina da maioria deles.



Armadilha Fotográfica atual. (Fonte: G1)

Em depoimento, o professor do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que também é membro da Comissão de Coleções Científicas da Sociedade Brasileira de Mastozoologia, Pablo Rodrigues Gonçalves, afirma que a amostragem de fauna através de armadilha fotográfica é um sucesso para as espécies de médio e grande portes da mastofauna (mamíferos). Por ser uma técnica menos invasiva possibilita o levantamento, inventário e a análise comportamental desses animais em seu ambiente natural. Ainda de acordo com o pesquisador, outras vantagens são a praticidade, menor hora de trabalho em campo e maior eficiência. Entretanto, elenca alguns pontos negativos, como a dificuldade na captura de animais de pequeno porte ou daqueles de "sangue frio" (répteis e anfíbios) por não disparar o sensor de movimento da câmera, assim como a difícil identificação em nível de espécie dos quirópteros (morcegos), que passam muito rápido diante das armadilhas. É importante destacar que a maioria das pesquisas realizadas estão voltadas para a ordem Carnívora, em especial a família Felidae, em ambiente de floresta (Maccallum 2012).



Onça pintada (Panthera onca). (Fonte: Natureza e Conservação)



Houve um aumento nas pesquisas utilizando armadilhas fotográficas durante os últimos anos. A revisão bibliográfica realizada por MacCallum (2012) revelou que, dos artigos publicados entre 1994 e 2011, cerca de 73% foram publicados depois de 2005. Tal aumento pode ser resultado do maior desempenho das câmeras, com baterias de duração prolongada, transmissão de imagens em tempo real, melhores lentes e preço mais acessível.

Para uma amostragem eficiente, que de fato nos dê um recorte mais realístico do habitat, deve-se levar em conta o espaçamento, a padronização e a quantidade de câmeras, além da quantidade de dias/captura. Outras questões que devem ser consideradas são as metodologias adotadas para análise dos dados coletados. Atualmente, os pesquisadores buscam o desenvolvimento de algoritmos que ajudem a automatizar a análise dos registros fotográficos. Por exemplo, os padrões únicos das manchas de onças-pintadas, que correspondem às nossas impressões digitais, poderão ser identificados e comparados automaticamente por softwares especializados. Com os dados obtidos, os pesquisadores podem estimar a população, ocupação geral (Kauffman et al. 2007), co-ocupação, extensão territorial, habitat selecionado ou distribuição de uma espécie, além de identificar possíveis impactos às populações, assim como o comportamento destas.

No Brasil, existem importantes projetos de conservação que utilizam armadilhas fotográficas. Neste contexto, pode ser citado o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, que monitora e colhe os dados de onças-pintadas (Pantera onca), visando subsidiar estratégias de conservação da espécie no bioma amazônico. Outra instituição, o Onçafari, no pantanal, coleta dados e compila informações aplicando as descobertas a melhores estratégias de conservação das onças-pintadas e lobos-guará.

Em resumo, as armadilhas fotográficas permitem avaliações rápidas e podem ser grandes aliadas na conservação da vida selvagem, em especial, das espécies ameaçadas de extinção (Silveira et al. 2003). O avanço da tecnologia permitirá o aumento do seu uso em um maior número de habitats, táxons e tipos de análises (MacCallum 2012).


Referências Armadilhas fotográficas: recurso importante no estudo de animais selvagens. Onçafire. Disponível em < https://oncafari.org/o-oncafari/objetivos-e-resultados> Acesso em 24 de março de 2021. Câmeras flagram animais ameaçados de extinção no Parque Estadual Sete Passagens. Ministério Público do Estado da Bahia. Disponível em < http://cpu007782.ba.gov.br/noticia/44500 > Acesso em 22 de março de 2021.

Com 'camera trap', pesquisadores criam armadilhas para flagrar animais silvestres remotamente. Disponível em <https://g1.globo.com/natureza/desafio-natureza/noticia/2019/07/10/com-camera-trap-pesquisadores-criam-armadilhas-para-flagrar-animais-silvestres-remotamente.html > Acesso em 25 de março de 2021. Entenda como armadilhas fotográficas podem ajudar na conservação da onça-pintada. Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Disponível em < https://www.mamiraua.org.br/noticias/dia-on%C3%A7a-pintada-armadilhas-fotograficas-conservacao-amazonia> Acesso em 28 de março de 2021. Painel de Conservação da Fauna. Intiruto Chico Mendes de Consevação da Biodiversidade. Disponível em < https://www.icmbio.gov.br/portal/faunabrasileira/painel-de-conservacao-da-fauna- brasileira> Acesso em 20 de março de 2021. MacCallum,Jamie. Changing use of camera traps in mammalian field research: habitats, taxa and study types. Mammal Review, 2012. Meet Grandfather Flash, the Pioneer of Wildlife Photography. National Geographic. Disponível em <https://www.nationalgeographic.com/photography/article/meet-grandfather-flash-the-pioneer-of- wildlife-photography> Acesso em 28 de março de 2021. Kauffman et al. Remote camera-trap methods and analyses reveal impacts of rangeland management on Namibian carnivore communities. Oryx, v. 41, n 1, p. 70-78, 2007. Silveira et al. Camera trap, line transect census and track surveys:a comparative evaluation. Biological Conservation, n 114, p. 351–355 2003.

65 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo