• Ciência em Ação

As Três Biologias

Por Rogério Parentoni Martins


O filósofo francês Jacques Maritain em sua relativamente curta, mas densa obra, A Filosofia da Natureza, abordou a tese sobre a necessidade de se buscar uma complementaridade entre a filosofia e as ciências naturais para se obter conhecimento o mais consistente e real possível sobre a natureza. Apesar de “consistente” e “real” não serem noções de fácil apreensão objetivas, sua reflexão merece atenção por tentar aproximar o conhecimento proporcionado pelas ciências naturais e as reflexões filosóficas sobre a natureza desse conhecimento.


Para tanto, aborda a noção do ser do ponto de vista ontológico. O que seria o ser?. Essa pergunta demanda certa inteligibilidade que só pode ser alcançada por meio da reflexão filosófica. Em contraste, discute a análise empiriológica, matéria das ciências naturais, que através dos sentidos e da interpretação matemática se volta para o observável, na busca do que as expressões qualitativas e quantitativas dos objetos naturais possam relevar sobre sua natureza.


Com respeito à biologia, o citado filósofo identifica três tipos de saber biológico voltados para o conhecimento sobre o organismo vivo: 1. biologia empiriométrica ou físico-matemática; 2. biologia tipológica ou experimental e a terceira, biologia filosófica.


A primeira, que em 1935, segundo Maritain, apenas se esboçava, hoje se constitui em um tipo de abordagem bastante difundida em todas áreas da biologia à qual poderemos genericamente denominar ‘biologia quantitativa’. Nela se incluem fortemente a formulação de modelos matemáticos e estatísticos que tendem a prever comportamentos e estados futuros, resultantes das transformações da matéria viva no tempo e espaço. Essa abordagem se baseia em dados, isto é, evidências empiriométricas, sobre o presente e do passado. Por meio delas procura-se identificar padrões naturais e sua distribuição onde a vida se manifestar. Poderíamos acrescentar que esse tipo de abordagem seria uma ‘biologia de padrões’.


Mas, retornando a Maritain, essa biologia de padrões tende a propor uma interpretação matemática do sensível (o que podemos perceber por meio de nossos sentidos). No entanto, essa biologia deverá permanecer, como hoje fartamente se observa nos periódicos científicos pertinentes, um meio instrumental de acesso à segunda biologia que Maritain chamou “tipológica ou experimental”. Sendo instrumental, a primeira biologia não exigirá que a ciência biologia chegue ao mundo fechado do matematismo, com suas pretensões a uma única explicação e a uma reconstrução completa do real. Se essa disciplina biomatemática implicar numa tendência ao matematismo, ela permanecerá como uma tendência ineficaz, pois essa parte da biologia não poderá constituir um todo autônomo. Esse todo autônomo assim constituído equivaleria a uma biologia numérica sem a participação do ser vivo.


Acima dessa biomatemática, que não diz respeito propriamente à vida, mas aos meios materiais, aos meios físico-químicos da vida, há a biologia tipológica ou experimental, cujo foco é a própria vida, que resolve seus conceitos no observável em si. Essa, embora direcionada pela filosofia a conceitos filosóficos subentendidos, manterá um repertório conceitual autônomo, pois resolverá suas noções e conceitos no observável como se apresenta e não inteiramente apenas no ser inteligível (apreendido pela razão).


O terceiro tipo de biologia seria uma “biologia filosófica”. Nela se buscará uma explicação por intermédio da “razão de ser”; explicação essa que não poderá descer a nível dos fenômenos, mas que dirá respeito a realidades mais gerais e fundamentais que o ser vivo apresenta.


Mantidas suas características autônomas, quaisquer conhecimentos gerados por meio dessas biologias podem ser complementares em seus objetivos de ampliação do conhecimento sobre a vida. Aliás, o próprio conceito “vida” do qual deveria logicamente se partir, não encontra unanimidade em seu significado por biólogos ou filósofos. Talvez essa falta de unanimidade seja mais estímulo que empecilho para que o conhecimento continue a fluir por meio de novas evidências e reflexões.


Referência:

Maritain, J. (2003). A Filosofia da Natureza. São Paulo: Edições Loyola.

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