• Flávia de Camargo Madeira Gomor

A Importância da avifauna para a vegetação

Por: Flávia de Camargo Madeira Gomor

Bacharel em Ciências Biológicas – UFSCar

Pós-graduanda em Manejo e Conservação de Animais Silvestres


Quando pensamos nas aves e na vegetação, automaticamente nos vêm à cabeça a relação “árvore – fruto – ave”. Essa noção pode muitas vezes nos passar a impressão errônea de que apenas os pássaros são os beneficiados desta ação. Afinal de contas, a árvore se deu ao trabalho de produzir uma fruta e o pássaro ferozmente vai lá e ataca, certo? Errado!


A vegetação se beneficia imensamente de sua interação com a avifauna local. A título de informação, decidi dividir em duas categorias esse relacionamento vegetação/avifauna. A primeira diz respeito à relação direta e mutuamente benéfica para ambas as partes interagentes. A segunda, caracteriza os serviços ecossistêmicos prestados pelas aves de forma indireta.


Dentre as relações diretas e de mútuo benefícios, a dispersão de sementes se destaca por ser a mais conhecida e emblemática. Também chamada de ornitocoria, a dispersão de sementes por aves é uma estratégia muito comum entre as angiospermas, principalmente nas regiões tropicais. A produção de frutos carnosos e de cores atrativas possibilitam seu consumo pelas aves, que os manipulam, retirando a polpa, da qual se alimentam, e liberando a semente. O descarte ou até mesmo deglutição das sementes inteiras, associado ao fato das aves poderem voar a grandes distâncias, beneficiam muito as plantas, aumentando suas chances de colonização de novos habitats. Porém, a ornitocoria não se restringe apenas às angiospermas. Muitas gimnospermas, também dependem de sua interação com a avifauna local para garantir a manutenção de suas populações. Um caso curioso, que merece destaque, é o da relação entre a Araucária (Araucaria angustifolia) e a gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), cujo comportamento de enterrar as sementes no solo ou de escondê-las em arbustos, garantem a germinação de inúmeros sementes.



Ainda na categoria “relações diretas”, devemos falar sobre a polinização. Apesar de não serem os principais polinizadores, as aves, principalmente as espécies de beija-flor, são considerados importantes por terem uma maior demanda energética que as abelhas e por isso visitam mais flores de certas espécies de plantas para obter a quantidade necessária de néctar. Em contra partida, apesar de transportarem o pólen por maiores distância, a transferência da quantidade de pólen de uma flor para outra é menor. Apesar disso, é muito raro encontrarmos espécies de plantas dependentes da polinização de uma única espécie de ave, pois a participação conjunta de outros polinizadores garante maiores chances de troca gamética entre as flores.


Se paramos para analisar as duas relações descritas acima, podemos perceber que: de um lado, temos as aves que utilizam os frutos e o néctar como meio de sustento nutricional, do outro, temos as árvores que utilizam a avifauna como uma forma de “Uber ecológico”. Note que esta relação é uma via de mão dupla e também um investimento no futuro, uma vez que a árvore garante a continuidade de suas populações e a ave garante alimento para si e para sua prole.


Sob a ótica da segunda categoria, podemos destacar em primeira instância a função ecológica de controle populacional de artrópodes realizado pelas aves. Nesse modelo de regulação, conhecido como “top down”, o predador exerce controle sobre a população da presa. Neste caso, as aves insetívoras e onívoras que se alimentam de larvas e insetos impedem o crescimento desenfreado das mesmas. Para a vegetação, isso implica na diminuição de danos foliares, garantindo taxas fotossintéticas melhores e evitando possíveis adoecimento devido à ação de bactérias e fungos.


Por fim, acredito ser importante ressaltar que estes serviços ecossistêmicos não são prestados apenas para as árvores, mas também afetam diretamente os seres humanos. Aplicado num contexto agrícola, por exemplo, o consumo de invertebrados por aves e a consequente redução dos danos foliares tem impacto econômico direto para os produtores, seja pela diminuição de compra e uso de pesticidas ou pelo aumento da produtividade da plantação. Entendendo a relação positiva entre agricultura e a presença e manutenção da natureza no local, pequenos e médios agricultores passaram a investir em práticas de cultivo agroecológicas. Os sistemas agroflorestais, por exemplo, são práticas agrícolas que procuram unir o entendimento das interações ecológicas com o sistema de produção alimentar. Em outras palavras significa utilizar e conservar as relações descritas acima e, dessa forma, fazer com que elas trabalhem em seu benefício.


As aves também possuem um papel fundamental para a regeneração de curto prazo de áreas degradas. Por serem capazes de voar a grandes distâncias, inevitavelmente cruzam áreas de campo aberto, carregando sementes de um fragmento de vegetação para outro. Durante o percurso do voo sementes podem ser liberadas e se germinarem podem colonizar áreas descampada. A construção de poleiros artificiais nas áreas degradadas também pode auxiliar na recuperação vegetal, permitindo que as aves manipulem o alimento e defequem nos campos abertos.


Em suma, todas as relações descritas acima trazem benefícios tanto para a vegetação quanto para o ser humano. É imprescindível que coloquemos em prática ações capazes de manter tais serviços e de uma vez por todas entendermos que, ao contrário do que se esperava, tudo na natureza está conectado em um ciclo de benefícios mútuos e não numa sequência de vantagens que tiramos uma da outra


REFERÊNCIAS

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Imagens: Wikiaves

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