• Tifanny Késsia Ferreira do Nascimento

Conservação da biodiversidade marinha

Por: Tifanny Késsia Ferreira do Nascimento

Oceanógrafa - UFC


Os oceanos representam cerca de 71% da superfície da Terra. Sua profundidade média é de 3.870 metros, mas o ponto mais profundo tem 11.037 quilômetros, conhecido como Fossa das Marianas, localizado no Oceano Pacífico. Mesmo cobrindo a maior parte do nosso planeta, os oceanos ainda são pouco conhecidos e estudados. Estima-se que a área explorada representa um pouco mais de 5%. A ciência responsável por estudar esse ambiente é conhecida como Oceanografia ou Oceanologia, pois investiga as características e processos que ocorrem nos oceanos. Essa ciência compõe-se basicamente por 5 grandes áreas: oceanografia (oc.) biológica, oc. física, oc. química, oc. geológica e oc. Socioambiental. Todas elas são estudadas de forma multidisciplinar, porque são complementares, isto é, cada uma é importante para complementar o conhecimento sobre a outra. Os processos oceanográficos que ocorrem nos oceanos são interligados. Para entender, por exemplo, os motivos pelos quais uma baleia realiza migrações, precisamos conhecer sobre as correntes oceânicas, clima, composição química da água, a temperatura e muitos outros fatores.


O ambiente marinho abrange uma ampla variedade de vida, contendo desde fitoplâncton, seres microscópicos responsáveis pela produção de 54% de oxigênio em todo o planeta Terra, segundo dados do Instituto Brasileiro de Florestas. Até as grandes baleias, maiores animais conhecidos no presente (algumas delas de até 30 metros de comprimento) têm grande importância na biodiversidade marinha, pois são responsáveis por manter o equilíbrio no ecossistema. As baleias são responsáveis por reciclar os nutrientes, as suas fezes são liberadas próximo da superfície e favorecem o crescimento do fitoplâncton, os nutrientes são distribuídos ao largo do oceano durante o seu ciclo de vida. Quando uma baleia morre, sua carcaça se deposita no assoalho oceânico e é utilizada como estrutura de fixação, permitindo a ocupação de vários organismos e favorecendo a migração dos mesmos.


Os oceanos estão interligados por meio de correntes marítimas que são responsáveis por transportar a água de uma região até outra, mantendo a temperatura dos oceanos estáveis e difundindo a matéria orgânica pela área dos oceanos. Além disso, servem como rotas marítimas para os navegadores. Outra função importante realizada pelos oceanos deve-se ao fato de que eles são os grandes sumidouros de CO2 do planeta. Os oceanos absorvem a maior parte do CO2 da atmosfera e o armazena nas águas profundas e frias das regiões polares. A maior parte do CO2 absorvido é utilizada pelos organismos fotossintetizantes na geração de energia para sua manutenção e reprodução.


Os impactos ambientais são diversos no ambiente marinho. Podem ser de ampla ou reduzida escala, durante períodos longos ou curtos de tempo e causados por diferentes fontes poluidoras. A poluição marinha ocorre por meio da introdução de resíduos sólidos ou líquidos capazes de causar alterações físicas ou químicas que geram malefícios para a sobrevivência e reprodução dos organismos. Eriksen et al. (2014) utilizaram um modelo numérico para estimar a quantidade de plásticos presentes na superfície oceânica. Obtiveram uma quantidade mínima de 233.400 toneladas de itens de plástico que estão flutuando nos oceanos. Segundo Parker (2018) a grande ilha de lixo do oceano Pacífico (Figura 1) é constituída de 79.000 toneladas de plástico, a maioria composta por equipamentos de pesca abandonados.

Figura 1 - Ilha de lixo do Pacifíco. Fonte: Ong Razões para Acreditar https://razoesparaacreditar.com/wp-content/uploads/2019/10/d4iv2cow4aakhmp.jpg

A sobrepesca acontece quando a quantidade de pescado ultrapassa os limites da capacidade de reprodução natural do organismo. Ela é realizada de forma excessiva e insustentável quando o pescador ignora as normas de pesca e passa a coletar indivíduos jovens fora da época apropriada para captura. Esse comportamento acarreta uma superexploração do pescado e é responsável por deixar áreas com baixa diversidade, pois os organismos que ali viviam foram impedidos de restabelecer sua população.


A poluição sonora ocorre quando uma perturbação sonora é gerada no meio aquático por meio de diversas fontes, por exemplo, algumas embarcações irregulares que utilizam a sísmica e sonares na busca de petróleo ou até mesmo buzinas de navios que podem desorientar alguns animais que se utilizam ecolocalização (localização através da emissão de ondas sonoras). Esse é o caso de várias espécies de golfinhos e baleias os quais têm seus comportamentos afetados, o que resulta em desequilíbrio no ambiente, o qual afeta também outras espécies com as quais aqueles animais interagem.


As emissões de gases do efeito estufa vem provocando um aumento da temperatura global, que afeta diretamente os organismos de vida aquática. Um exemplo bastante conhecido é o fenômeno “branqueamento de corais”, que ocorre quando as algas simbiontes com os corais abandonam o coral pois não tolera altas temperaturas. Após a saída dessa alga o coral passa a dispor de pouco alimento e por isso inicia o processo de branqueamento.


Diante das atuais ameaças que a biodiversidade marinha é exposta, se faz necessário realizar medidas para conservação dos ambientes marinhos. A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o início da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que será de 2021 a 2030. Durante essa década a ONU atuará na proteção do oceano e seus recursos por meio do desenvolvimento de pesquisas. Nesse empreendimento deverão estar envolvidos governos, empresas, cientistas e políticos para concretizar o desenvolvimento de soluções e tecnologias que resultem na conservação dos oceanos.


Atualmente os recursos dos oceanos são utilizados de forma insustentável e irresponsável e caso esse processo não seja interrompido logo veremos toda a sua biodiversidade sumir. Hoje, mais do que nunca, precisamos mudar nossos hábitos, tanto alimentares, de consumo e locomoção. Devemos optar sempre por produtos naturais e sustentáveis, conhecer a origem do que consumimos e exigir das grandes empresas informações sobre a origem dos produtos. Além disso, devemos utilizar transportes que funcionem com a menor taxa de emissão de Co2 e finalmente optar apenas pelo essencial, pois na “moda” sustentável, o menos é mais.


Precisamos ser mais conscientes da importância que os oceanos têm nas nossas vidas: deles obtemos parte de nossos itens alimentares; por meio deles conseguimos gerar energia elétrica; é através deles transportamos muitos materiais e produtos entre países; os utilizamos para praticar atividades de lazer; e por meio deles obtemos o ar que respiramos. Atitudes cotidianas básicas, tais como reduzir o uso de embalagens plásticas e reduzir o consumo de carne, fazem a diferença no planeta. Como dizia Mahatma Gandhi: “seja a mudança que você quer ver no futuro”.




Referências


ERIKSEN. M.; et al. Plastic Pollution in the World's Oceans: More than 5 Trillion Plastic Pieces Weighing over 250,000 Tons Afloat at Sea. PLoS ONE 9(12): e111913. doi:10.1371/journal.pone.0111913. 2014.


PARKER, Laura. A Grande Ilha do Lixo do Pacífico não é aquilo que se pensa. National Geographic. National Geographic. Abril 2018. Disponível em: https://www.natgeo.pt/meio-ambiente/2018/04/grande-ilha-de-lixo-do-pacifico-nao-e-aquilo-que-se-pensa. Acesso em Jan. 2021.


ONU. A ciência que precisamos para o oceano que queremos. 2020. Disponível em: ciencianomar.mctic.gov.br Acesso em Jan. 2021.


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