• Rogério Parentoni

Cavernas e sua Grandiosidade

Atualizado: 3 de Dez de 2020

Por: Enée Gottschalk

Bióloga, Consultora Ambiental/ levantamento e monitoramento de quirópteros, resgate de fauna


Tal qual o mito de Platão, as cavernas (Figura 1) como ambientes naturais trazem consigo um enorme misticismo que por vezes amedrontam aqueles que a desconhecem. São ambientes com formações rochosas fascinantes, esculpidas pelas águas de Oxum há milhares de anos, e que hoje servem de abrigo para uma incrível biodiversidade ainda relativamente pouco conhecida. Exuberantes ou singelas, caracterizam-se por serem recursos naturais frágeis, que podem conter registros únicos de alterações arqueológicas, paleontológicas e paleoambientais. Mesmo com suas feições geomorfológicas magníficas e características diferenciadas, são por vezes menosprezadas. Mas de encontro ao que muitos pensam, cavernas são ambientes singulares inseridos em um vasto campo de possibilidades naturais e que possuem extrema importância no meio que a cerca, como será relatado a seguir.


Figura 1: Gruta dos Brejões, Morro do Chapéu – BA. Fonte: arquivo SEA.


Caracterizadas como cavidades naturais subterrâneas onde os seres humanos conseguem se adentrar e que geralmente apresentam algum tipo de ligação com o ambiente externo (por meio de aberturas comunicantes com o ambiente terrestre ou por meio de rios subterrâneos que carreiam nutrientes utilizados pela fauna que ali vive). As cavernas podem ser colonizadas por diversas espécies adaptadas a um ambiente afótico (ausência de luz) e escasso em recursos alimentares. Também têm importância relevante para as condições de vida de diversos animais, principalmente para aqueles viventes exclusivamente nesses ambientes singulares, os chamados trogóblios. Assim, há organismos cavernícolas mais ou menos especializados, utilizando esses ambientes durante todo seu ciclo de vida, ou apenas em parte dele. As espécies que são exclusivas a habitats subterrâneos apresentam especializações comportamentais, morfológicas e fisiológicas que lhes permitem sobreviver e reproduzir exclusivamente no interior de cavernas. A ocorrência de troglóbios são um critério importante para justificar a necessidade de conservação desses ambientes.


Além da ausência permanente de luz, as cavernas apresentam como característica ecológica importante uma estabilidade ambiental elevada, que por sua vez permite a permanência das populações animais que ali vivem. Alguns dos representantes faunísticos que melhor se adaptaram a viver parte de sua vida nas cavernas são os morcegos (Figura 2), que com toda sua peculiaridade, vivem muito bem na escuridão. Os indivíduos desse grupo, bem como algumas espécies de lagartos, anfíbios, serpentes e mamíferos terrestres, encontram nas cavernas um ambiente propício para a realização de atividades como descanso em uma boa rocha, cuidado com seus filhotes, um tempinho com o parceiro, proteção contra certos inimigos naturais e protegidos também da ação de condições climáticas severas. E eis que aqui também se esconde o famoso Conde Drácula, que de aterrorizante não tem nada (precisamos falar sobre isso!).


Figura 2: morcego Eptesicus sp. em fenda de caverna no estado do Piauí. Fonte: arquivo pessoal da autora.


As cavernas por si só não possuem sua própria fonte de alimento proveniente de organismos autótrofos, além de baixa disponibilidade de detritos orgânicos, necessitando assim da fauna que a utiliza, que também engloba insetos e invertebrados, para ajudar na importação de matéria orgânica que ocorre principalmente por meio de suas fezes ou de suas carcaças. Dessa forma, a importância desses ambientes vai para além da proteção dos organismos ali viventes, pois ao abrigá-los, estão ajudando-os a propagar diversos serviços ecossistêmicos realizados no ambiente externo, tais como dispersão de sementes, polinização e controle populacional de insetos, que podem inclusive ser pragas agrícolas, sendo assim importante na regulação do ecossistema onde a caverna se encontra.


A importância desses ambientes também ocorre devido à sua funcionalidade como locais de recarga para a drenagem subterrânea (Figura 3). Os aquíferos nesses ambientes são diferenciados, pois à medida que os calcários se dissolvem, são criados caminhos de fluxo de água subterrâneos grandes e heterogêneos. Dessa forma, se quisermos continuar com água em casa para um bom banho ao final do dia, esse também é um recurso natural que devemos conservar. Assim, é importante atentar-se ao uso e gestão dos recursos hídricos que se apresenta nesses ambientes, os quais são muito suscetíveis à contaminação por meio de pesticidas e outros compostos orgânicos. As cavernas são também importantes para estudos sobre adaptações ecológicas e evolutivas, e dos processos de formação de novas espécies, fornecendo boas características para a conservação de fósseis. Por vezes, também são encontradas pinturas rupestres nesses ambientes, sendo assim, importantes na proteção da história natural e cultural de uma região, revelando janelas para o passado.


Figura 3: Gruta do Convento, Campo Formoso – BA. Fonte: arquivo SEA.


As diversas consequências de atividades antrópicas que impactam de forma direta ou indireta as comunidades faunísticas que utilizam as cavernas são redução no número de espécies, perda de atividades ecossistêmicas, bem como perdas de histórias evolutivas. Assim, deve-se analisar, estudar e monitorar a forma como as ações antrópicas interferem nesse tipo de ambiente natural. Por serem únicos ambientes, que abrigam organismos e histórias que poderiam estar perdidos no tempo, e por possuírem valores ecológicos, biológicos, geológicos, hidrológicos, paleontológicos, cênicos, histórico-culturais e socioeconômicos singulares, as cavernas devem ser fortemente conservadas. Cavernas são ambientes mágicos, e o que conhecemos delas atualmente ainda é muito pouco para entender o complexo e interessante universo que elas abrigam.




AGRADECIMENTOS

Agradeço ao professor Rogério Parentoni pelo convite para a produção desse texto. Ao colega André Vieira, membro fundador da Sociedade Espeleológica Azimute (SEA) por me apresentar esses ambientes fascinantes, e ao professor Bruno Vilela (UFBA) pela revisão final e opiniões sobre o mesmo.



REFERÊNCIAS ÚTEIS PARA INTERESSADOS EM MAIORES INFORMAÇÕES

GUIMARÃES, M. M. & FERREIRA R. L. 2014. Morcegos cavernícolas do brasil: novos registros e desafios para conservação. Revista Brasileira de Espeleologia – RBEsp. V.2, nº 4.

JOHN, W. & TWENTE, JR. 1955. Some aspects of habitat selection and other behavior of cavern-dwelling bats. Department of Zoology, University of Michigan, Ann Arbor, Michigan. Ecology, Vol. 36, nº 4.

LEWIS, S. E. 1995. Roost fidelity of bats: a review. Journal of Mammalogy, 76(2):481-496. Vol. 76, nº 2.

POULSON, T. L. & WHITE, W. B. 1969. The Cave Environment. American Association for the Advancement of Science. Vol. 165, nº. 3897 971-981.

SILVA. M. S.; FERREIRA, R. L. & MARTINS, R. P. 2014. Cave Conservation Priority Index to Adopt a Rapid Protection Strategy: A Case Study in Brazilian Atlantic Rain Forest. In: Environmental Management. Vol. 54, nº 6. New York.

TOBLER, M. 2008. Divergence in trophic ecology characterizes colonization of extreme habitats. The Linnean Society of London. Biological Journal of the Linnean Society, 95, 517–528.

TORQUETTI, C. G.; silva, M. X. & TALAMONI, S. A. 2017. Differences between caves with and without bats in a Brazilian karst habitat. ZOOLOGIA 34: e13732.


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