• Rogério Parentoni

Celular e a teoria

Por Carlos Eduardo Grelle Professor Associado/UFRJ


A importância atual dos smartphones é indiscutível, sendo quase um órgão vital para alguns, e é um excelente exemplo de um conhecimento teórico que demorou a ser utilizado pela sociedade. A física quântica, ou mecânica quântica, começou a ser teoricamente desenvolvida no final do século XIX e avançou no início do século XX graças aos estudos de vários físicos, e aqui vou citar só o Max Planck por seu destaque. Quase 100 anos depois a física quântica permitiu o desenvolvimento dos smartphones, que são indispensáveis hoje em dia. Trata-se, portanto, de um excelente exemplo de como um conhecimento teórico com o tempo permitiu facilidades inimagináveis para a sociedade, o que nos leva para algumas reflexões. A primeira, que precisa ser repensada, e a mania de algumas pessoas pouco ambientadas com a produção e o conhecimento científico tem em diferenciar pesquisa básica da aplicada, e ainda ter quase uma ojeriza às teorias científicas. Quantas vezes eu escutei que “o que importa é saber fazer e não a teoria”. Tempos atrás em uma reunião fora da universidade eu escutei de um colega que “o problema é que eu era muito teórico”. Na mesma hora me levantei e agradeci ao elogio apertando a mão dele. Por que as pessoas têm aversão às teorias já que elas são a melhor forma de entender o mundo e achar as soluções para os problemas diários? Não existe conhecimento científico sem as teorias! E onde e quando nos perdemos a noção de que só o conhecimento científico nos permite entender o passado e prever o futuro? A humanidade levou anos para passar do conhecimento empírico, aqui representado pelo notáveis John Locke e David Hume séculos atrás, para o conhecimento científico e aqui no Brasil simplesmente raciocinamos como se a ciência fosse dispensável. Não faz o menor sentido e precisamos, mais do que nunca, discutir no Brasil porque nos afastamos e menosprezamos a importância da ciência. Será falha dos cursos de graduação? Será que as pessoas precisam ter um maior contato com o fazer ciência e ler mais artigos científicos na graduação? Artigos científicos não são boa literatura, como por exemplo Machado de Assis ou Guimarães Rosa, mas são fundamentais no avanço da ciência. Por isso as universidades do mundo inteiro são avaliadas comparativamente pela produção de artigos científicos dos seus professores. O Brasil tem produção científica relevante e em quantidade (vejam os relatórios internacionais da Clarivate para o período 2011-2016: http://www.capes.gov.br/images/stories/download/diversos/17012018-CAPES-InCitesReport-Final.pdf e 2013-2018: https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2019/09/ClarivateReport_2013-2018.pdf). Para quem não tem paciência de ler os relatórios basta, sem muito esforço de memória, lembrar de contribuições recentes dos nossos pesquisadores na universidade para a conquista do Pré-Sal, terapia celular, avanços no entendimento da Zika e em restauração e manutenção dos serviços ecossistêmicos incluindo os recursos hídricos (este com minha participação e dos meus colaboradores). Só para lembrar algumas das pesquisas em uma universidade (UFRJ).


E como em qualquer país precisamos prestar atenção no que já foi dito e repetido: Sem ciência significa sem futuro. Vale lembrar que, em ordem cronológica, ao longo do séculos XIX e XX Alemanha, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e China mudaram de nível sócio-econômico após investirem muito em ciência. Eu não conheço nenhum caso de país que primeiro tenha se desenvolvido e enriquecido para depois investir em ciência. Alguém conhece?



Texto originalmente apresentado no linkedin

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