• Rogério Parentoni

Ciência como utopia – e outras divagações sobre essa cultura

Atualizado: 18 de Nov de 2020

Por Cássio Leite Vieira

Jornalista


O historiador britânico marxista Eric Hobsbawm (1917-2012) descreveu a ciência como a cultura mais importante do século passado. Essa posição foi construída ao longo de 2,5 mil anos de história, mas talhada com golpes mais fortes e profundos a partir da Segunda Guerra Mundial, quando ocorreu importante mudança geopolítica: a ‘Metafísica da Guerra Fria’, cujo cerne é, em termos simples, ‘conhecimento é poder’ – tanto político quanto econômico.


Outro marco na construção da ciência como cultura dominante veio com o Iluminismo, que nos legou a ideia de que ciência e razão vieram para ficar até o fim dos tempos – seja lá o que isso signifique. Também ganhou forma naquele período a essência daquilo que transformaria a ciência em utopia deste século: o acúmulo de conhecimento mudará a natureza humana, tornando-a mais altruísta, pacífica, benevolente, razoável etc. Ou seja, o conhecimento nos fará não só mais cultos, mas também mais sábios, em todos os sentidos.


No século passado – principalmente, a partir da Segunda Guerra , acumulamos mais conhecimento do que nos últimos 25 séculos. Mas matamos, nestes pouco mais de 100 anos, cerca de 150 milhões de pessoas só em guerras e conflitos, sem contar genocídios e homicídios.


O conhecimento nos tornará pessoas melhores, e o amanhã, por causa do progresso, será melhor. Segundo John Gray, a ciência como utopia se apoia sobre essas duas ideias. Para esse filósofo britânico, a história viu outras três utopias globais: comunismo, nazifascismo e liberalismo – esta última, em andamento, na forma da globalização. Há ponto em comum entre essas utopias: elas se instauram, matam milhões de pessoas e acabam. E aí vem outra delas.


A utopia da vez – já que a ciência, nesse sentido, ainda está ganhando momento e moldando seu próprio reinado – é a globalização, que pode ser vista como a tirania do capital global, na forma de um ‘Estado mínimo’ – e não de ditadores sanguinários – que nem representa, nem protege seus cidadãos e suas cidadãs de modo adequado.

Não há dúvida de que o liberalismo tenha causado empobrecimento e mortes – basta ver as crises migratórias mundiais, bem como os estados destruídos e falidos, mesmo na Europa. Mas pouco se fala sobre uma de suas consequências mais nefastas: a ascensão de uma ultradireita racista, sexista, xenofóbica, islamofóbica, antissemita e homofóbica.

Religiões seculares

Outro traço comum dessas utopias: elas têm características de religiões seculares. O comunismo, por exemplo, já foi denominado “a religião do século 20”. Gosto de fazer a seguinte comparação: Deus versus Karl Marx (1818-1883); A Bíblia versus O Capital; São Agostinho (354-430) e São Tomas de Aquino (1225-1274) versus Lênin (1870-1924) e Léon Trótsky (1879-1940); a infalibilidade papal e a infalibilidade da história (como ciência); o catecismo versus o materialismo dialético...


Vamos examinar as promessas da ciência para este século e as semelhanças desse programa com as pregações de religiões monoteístas – lembrando que cada um dos itens abaixo está ou esteve presente nas outras três utopias:


i) as religiões monoteístas nos prometem um paraíso no céu; a ciência, na Terra;


ii) essas religiões querem mudar nossa essência, salvando-nos com base na fé; a ciência, com base no acúmulo do conhecimento;


iii) essas religiões nos oferecem um ser humano espiritualmente melhor; a ciência, fisicamente melhor, sem doenças, com partes e órgão artificiais, com base nas chamadas tecnologias do genoma;


iv) essas religiões nos falam ‘em um só povo, uma só nação’; a ciência nos promete o mesmo, na forma de uma só ‘raça’ de transumanos;


v) essas religiões nos falam de alma, transubstanciação e imortalidade; a ciência, em superar a matéria (corpo) e vencer a morte por meio do upload (carregamento) de nossas consciências para nuvens de dados;


vi) essas religiões dizem que, de um ser humano aperfeiçoado, brotará um mundo pacífico; a ciência diz já ter provas de que estamos nos tornando menos violentos, graças aos “bons anjos da nossa natureza” – note ‘anjos’ e ‘natureza’ na expressão usada no título de um livro do linguista norte-americano Steven Pinker.

Dito isso, duas conclusões perspicazes de Gray sobre essas relações:


i) haverá tantos transumanos quanto potencias mundiais, o que joga por terra a ideia (religiosa) de que seremos ‘um só povo’ sob a bênção de uma utopia;


ii) nossas mentes estarão necessariamente gravadas em um substrato ‘sólido’; portanto, susceptível a ser destruído por guerras, conflitos, ataques terroristas, ou ser administrado por uma só nação ou um ditador.

Rumo ao Éden?

Comunismo, nazifascismo, liberalismo e ciência. Essas utopias nos ofereceram – ou oferecem – um ‘Novo Éden’, que se constrói, a cada dia, em nossas mentes, na forma de “o amanhã será melhor”. Ou seja, haverá progresso. Sempre.


Mas a noção de progresso só se aplica à seara da ciência e áreas afins. Afinal, não dizemos que, na pintura, houve progresso de Rembrandt (1606-1669) a Pablo Picasso (1881-1973); que houve avanço da poesia de Shakespeare (1564-1616) até a de T. S. Eliot (1888-1965); que os romances evoluíram de Henry James (1843-1916) a Philip Roth (1933-2018).


Sim, há avanços em ciência e tecnologia, sem dúvida – e não há como negar os enormes benefícios que a ciência trouxe para a humanidade. Mas, como diz Gray, vêm as guerras e os conflitos, e esse progresso é dilapidado ou totalmente destruído. Basta se lembrar da Europa – então, berço da cultura mundial – depois das duas guerras mundiais.


A (falsa) ideia de história como progresso é outra de nossas heranças do Iluminismo. Talvez, hoje, nossa quase total inação em relação ao primeiro problema de abrangência planetária – as mudanças climáticas – se deva ao fato de que, realmente, achamos que o amanhã será melhor.


Mais: nossa ‘fé’ na ciência é tão profunda que muitos creem que nada precisa ser feito, pois essa cultura achará resposta viável e nos conduzirá ao Éden. Essa crença, no entanto, desmorona com a possibilidade de um mundo sem ciência e lógica: basta que o Homo sapiens seja extinto – e não é nula a possiblidade de que isso ocorra ainda este século.


A boa notícia é que modelos mostram que, sem os humanos, em 100 ou 200 anos, a Terra terá encoberto praticamente todos os vestígios de nossa espécie. E, como mostra o exemplo de Chernobyl, fauna e flora voltarão com força exuberante.

Posto isto, tomo a liberdade de seguir, apontando características da ciência que, a meu ver, são pouco discutidas, mas importantes para entender que tipo de cultura se arvora como utopia deste século.

Metafísica?

Gostamos de pensar que há limites claros entre ciência e religião, tidas como culturas imiscíveis. Mas o fato é que a primeira está também cheia de dogmas e elementos metafísicos.


Aqui, a história da ciência nos dá ajuda. No final do século 19, os luminares da física (talvez, sem exceção) acreditavam no éter, meio que, sem forma e peso, penetrava tudo e servia de suporte para a transmissão de ondas eletromagnéticas. Espiritismo era um programa sério da física, com artigos publicados em periódicos científicos de renome no Reino Unido. Exemplos são os trabalhos de dois dos mais renomados físicos à época, William Crookes (1832-1919) e Oliver Lodge (1851-1940).


O físico de origem alemã Albert Einstein (1879-1955) extirpou o éter da física em 1905, mas, 20 anos depois, havia cientistas (sérios) que insistiam na existência desse meio, por ele ser necessário para explicar a telepatia – e a comunicação com mortos.

Passado?


Hoje, a física segue tão metafísica quanto. Fala-se em 11 dimensões; em novo ‘zoo’ de partículas supersimétricas (nunca detectadas); em mundos paralelos; em universos de antimatéria; em ondas que colapsam instantaneamente; em heterogeneidade do cosmo em larga escala; em energia escura, responsável por cerca de 70% do estofo do universo; início (ou não) do universo... A lista é longa.


Muitas dessas afirmações são simplesmente dogmas nos quais os cientistas, muitas vezes, querem ou têm que acreditar para manter em pé resultados teóricos ou experimentais.

Pacífica?

Na década de 1910, a ciência passou por grandes transformações sociais e políticas. Isso ocorreu na Rússia revolucionária durante a Primeira Guerra. Naquele momento, segundo o historiador da ciência Alexei Kojevnikov – em seu para lá de excelente Stalin’s great Science (infelizmente, sem tradução para o português) –, houve aumento da percepção da profissão de cientista e do interesse do governo em política científica; estreitamento dos laços da ciência e tecnologia com o militarismo; e o desenvolvimento de um novo modelo (conhecido, então, como modelo soviético) de pesquisa e desenvolvimento – o qual viria a influenciar ações nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido, por exemplo, em prol da ciência.


A segunda grande transformação se deu ao longo e logo após a Segunda Guerra – desta vez, nos EUA. Como desdobramento da Metafísica da Guerra Fria, começou a chamada Big Science. O nome diz tudo: grandes laboratórios nacionais, milhares de cientistas, verbas vertiginosas, administração centralizada e industrial, conselhos de assessoramento, participação de militares etc.


Mas o que chama a atenção nesse cenário é o financiamento: já em 1954, 98% das verbas para a física básica nos EUA tinham origem militar. De lá para cá, formando um uno indissociável, ciência, Estado e militarismo se associaram, dando origem à instituição mais poderosa do mundo: Complexo Militar Tecnológico dos EUA, o qual segue despejando verbas vertiginosas em laboratórios de universidades e centros de pesquisa. Outros países desenvolvidos fazem o mesmo.


Alguém poderia dizer: uma coisa é a ciência; outra, seu uso político.

Nos EUA, o projeto Manhattan, que levou à construção das duas primeiras bombas atômicas da humanidade, lançadas sobre o Japão, em 1945, reuniu milhares de cientistas e engenheiros, comandados por um militar. Sabia-se o propósito da iniciativa: uma arma de destruição em massa. Quantos cientistas abandonaram o projeto por questões éticas? Conheço só um: o físico polonês Joseph Rotblat (1908-2005) – merecidamente, Nobel da Paz de 1995.


As bombas eram para um bem maior? Certamente, não para os cerca de 100 mil japoneses mortos e contaminados por radiação. Depois disso, físicos e engenheiros – tanto nos EUA quanto na então URSS – seguiram trabalhando, para desenvolver as bombas de hidrogênio, ainda mais poderosas. O mesmo ocorreu em outros países.

Exemplo mais próximo de nós. De forma perspicaz, um físico uruguaio fez análise soberba, em artigo publicado nos anais de um congresso de história da ciência ocorrido em Buenos Aires anos atrás. Segundo ele, os militares uruguaios e argentinos não tinham projeto para os físicos desses dois países, mas os militares brasileiros tinham. E os físicos (e engenheiros, químicos etc.) do Brasil aceitaram fazer parte desse projeto, o qual incluía áreas como energia nuclear, telecomunicações, aviação, armamentos etc. Muitos físicos e engenheiros participaram do chamado Programa Paralelo, cujo propósito era a construção de uma arma nuclear.


Ainda na década de 1940, fundadores da física no Brasil – todos eles cientistas respeitadíssimos e de renome internacional – aceitaram trabalhar em temas militares, desenvolvendo, na Universidade de São Paulo, um sonar para a Marinha do Brasil.

Ciência e defesa (ou segurança nacional) têm sido grandes aliadas – principalmente, depois da Segunda Guerra. E, ao longo da história contemporânea, guerras e conflitos têm tido um teor cada vez mais científico e tecnológico, na forma de uniformes, armas, comunicações, satélites, veículos, mísseis, munições, jatos, drones...


A contrapartida do militarismo: verbas (significativas) que impulsionam a pesquisa básica e aplicada.


Não dá para classificar a ciência como uma cultura pacífica.

Em que ciência crer?

Cientistas, assim como o restante da população, são seletivos em suas crenças. A prestigiosa revista médica The Lancet simplesmente matou a homeopatia em uma edição de 2005. Mas, de lá para cá, médicos e cientistas seguem não só acreditando nessa prática, mas também a empregando como forma de tratamento.

Uma prestigiosa sociedade científica brasileira foi rápida em criticar a inclusão de "práticas integrativas e complementares" do Sistema Único de Saúde. Mas nada disse sobre a homeopatia, por exemplo – mais ou menos como dizer que a mula-sem-cabeça não existe, mas o saci-pererê, sim. No Brasil, há mestrado e doutorado em homeopatia de humanos e animais não humanos – e aplica-se homeopatia a plantas.


Assim como a religião, a ciência busca sua unicidade. Muitos gostam de falar em ciência (no singular), e já houve programas filosóficos com esse propósito unificador. As áreas científicas têm também seus programas internos, como a ‘grande unificação’ e ‘teoria de tudo’, na física.


Porém, assim como há diversas religiões, há várias ciências. Por exemplo, há a ciência das vacinas, um dos maiores feitos da humanidade; há a ciência da mecânica quântica, teoria que lida com o mundo atômico e subatômico e é tida como a mais precisa da história da ciência, etc.


Mas há, por exemplo, a ciência das dietas. Quando relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), com o aval de centenas (milhares?) de pesquisadores, mostra que há forte correlação entre proteína animal (carne vermelha, embutidos etc.) e várias doenças (câncer, diabetes, hipertensão...), grande parte da população prefere continuar “pensando com o estômago” – como me refiro a meus colegas físicos com doutorado pelas melhores universidades daqui e do exterior que preferem a justificativa fácil do “isso não deve estar certo”; porém, não têm dúvidas de que E = m.c3 está errado.


O legado iluminista nos diz que devemos nos guiar pela ciência e lógica. Isso seria o suficiente para i) pôr em prática as ações propostas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas; ii) aceitar conclusões da mesma Organização das Nações Unidas que apontam que a agricultura animal é o setor que mais destrói o planeta.

A ciência é clara sobre esses dois tópicos. Mas somos lógicos o suficiente para deixar de lado os confortos do dia a dia e/ou parar de comer carne, mesmo que resultados científicos apontem que essas nossas atitudes estão claramente destruindo fauna, flora e oceanos em nível planetário?


Somos ensinados a não duvidar da eficácia das vacinas – o que está corretíssimo –, mas podemos titubear ou mesmo desprezar resultados como esses presentes em relatórios da OMS e da ONU.


Possível moral: entre as várias ciências, acreditamos naquela que é mais conveniente para nós, do mesmo modo que um fiel escolhe sua religião ou crença.

Arrogante?

Não é raro que a ciência seja classificada como ‘imparcial’, ‘pura’, ‘impoluta’, ‘decente’, ‘apolítica’, ‘bela’, ‘universal’, ‘bem intencionada’ etc. Em resumo: se é ciência, então, é bom.


Mas seria essa cultura, por exemplo, arrogante? Acomodada? Sem compaixão?

Neste exato momento, à semelhança dos matadouros, milhares de animais de laboratório do mundo estão sendo sacrificados. Para essa matança em escala industrial, há justificativa nos dois casos: no primeiro, carne e couro; no segundo, conhecimento.


Conhecimento, como gostam de dizer os cientistas, necessário para salvar vidas, buscar a cura de doenças e promover a longevidade etc.


Do ponto de vista ético, a experimentação animal é, sem dúvida, o uso mais defensável dos animais não humanos – afinal, resultados desse emprego tornam-se benefícios para eles também. Mas, há até poucas décadas, os abusos eram moralmente indefensáveis. No livro Libertação Animal, do filósofo australiano Peter Singer, há relatos de casos em que pesquisadores sacrificam dezenas e dezenas de cães para concluir que mais estudos precisam ser feitos ou que os resultados corroboram os de experimentos anteriores – em que dezenas de cães haviam sido mortos.


Hoje, certamente, um comitê de ética não permitiria experimentos assim. Mas, quando ativistas de direitos animais começaram a trazer isso a público, a justificativa era a de uma cultura que se punha acima do bem e do mal: tudo isso em nome do conhecimento, para o benefício da humanidade, para o decréscimo das doenças e mortes etc.


No entanto, o livro The role of medicine (1976), de Thomas McKeown, mostra que a intervenção médica teve papel pequeno em diminuir a mortalidade desde o século 19, quando comparada a mudanças sociais e ambientais. Estudos de J. B. e S. M. McKinley – também citados por Singer – chegaram a conclusão semelhante: a contribuição da medicina foi de apenas 3,5% para a queda do número de mortes causadas pelas 10 principais doenças infecciosas de 1910 a 1984 – e a contribuição da experimentação animal, alegam os autores, foi fração mínima desse percentual. As causas mais importantes para o declínio de casos dessas doenças foram saneamento básico e melhorias na dieta.


A ciência não é só arrogante; é também acomodada. Por quê? Porque ratos e camundongos têm sido, por séculos, ‘matéria-prima’ fácil, rápida e barata, produzida anualmente aos bilhões, acredito.


Qualquer biólogo sabe que esses animais são sencientes e sociais. E qualquer pesquisador da área de biologia experimental conhece alternativas: cultura de células humanas, simulações computacionais, órgãos em chips etc., com resultados, segundo especialistas, mais satisfatórios e precisos. Além disso, sabe-se também que roedores, na maioria das vezes, não são bons modelos para doenças humanas.


Mas são só animais, alguém diria. Vale lembrar que, até hoje, a filosofia nunca chegou a uma teoria hierárquica das espécies, porque teoria assim, simplesmente, não existe. Para cada ‘superioridade’ dos humanos, há um chamado ‘caso marginal’.

Vejamos. O que nos permite fazer o que fazemos com os animais (comida, roupa, trabalho, experimentação e diversão)? Argumentos mais comuns: são irracionais; não têm deveres; não falam; não preveem o futuro... Escolha seu preconceito – sim, é isso que ele é. Então, com base na lógica, poderíamos usar recém-nascidos; indivíduos comatosos; pessoas com profundo retardo mental; idosos senilizados... para os mesmo propósitos.


Chocado(a)? Muito provavelmente, porque você está sendo especista, conduta com semelhanças profundas com o racismo, o sexismo e a homofobia – animais/negros/mulheres/homossexuais seriam inferiores, simplesmente, porque pertencem ao ‘grupo’ dos animais/negros/mulheres/homossexuais.


Despreza-se o indivíduo; condena-se o grupo como um todo.


Lutamos, por séculos, para que nossa individualidade fosse reconhecida, mas a negamos aos animais não humanos. O médico e teólogo alemão Albert Schweitzer (1875-1965) escreveu que perdemos “a reverência à vida”. A ciência parece não ser exceção.

Visão holística

Sou de opinião de que o melhor que podemos fazer pela ciência é seguir os conselhos do experiente jornalista norte-americano John Horgan, publicado em seu blogue na revista Scientific American: “Sou um jornalista de ciência. Não celebro a ciência. Eu a critico, porque a ciência precisa muito mais de críticos do que de bajuladores.”


Na mídia, temos crítica de cinema, teatro, literatura, artes, esportes... Mas não de ciência. Mas há cursos para formar jornalistas de ciência, mas não os de cinema, artes, literatura, esportes, polícia, veículos, agronegócios...


Em tempo: criticar a ciência não significa ser anticientífico. Negar a ação das vacinas, a esfericidade da Terra ou o darwinismo etc. não é ser crítico. É ser estúpido.

Ao vendermos a ciência como ‘a’ cultura mais importante, passamos a impressão – principalmente, a jovens – de que a visão científica do mundo é a única correta; portanto, possível e admissível. Errado. Deveríamos oferecer, sim, uma visão holística do mundo, o que inclui literatura, poesia, teatro, artes plásticas, política, religião, filosofia... – muitas vezes, a visão científica do mundo é a mais sem graça.


E isso deveria ocorrer com a formação de pesquisadores. Nas palavras de um colega físico experimental: “Não estamos formando cientistas; estamos formando técnicos com PhD”. Ou seja, gente cuja visão de mundo é, em geral, estreita e pobre, o que impede algo importante para a prática científica: sínteses, relações, associações, correlações etc.

A maior das utopias

A humanidade permitiu que duas de suas utopias ceifassem milhões de vidas, e assiste ao desmoronamento da terceira, com suas crises humanitárias (guerras, migrações em massa, crises financeiras etc.) e a ascensão de uma ultradireita imoral.


Não é possível saber como será a utopia protagonizada pela ciência – o presente, infelizmente, não nos dá as armas para prever o futuro. O que temos, no momento, são apenas dúvidas. Talvez, soframos sob a tirania dos que deterão mais conhecimento; talvez, nossas mentes carregadas em nuvens de dados sejam controladas pelo Estado ou por ditadores; talvez, a imortalidade tão prometida seja a pior das punições e reforce o fato – como mostra o filme ‘Fome de viver’ – de que a morte é, sim, uma bênção.


E por que a ciência não nos daria o tão desejado Éden? A história nos mostrou que as outras três utopias não nos deram um mundo do qual devamos nos orgulhar.


O filósofo britânico Isaiah Berlin (1909-1997) diz que é impressionante a disposição que as pessoas têm em matar e mutilar em nome de alguém que diz conhecer ‘a’ verdade, que alega ter ‘a’ resposta certa. Em termos simples, ansiamos por uma liderança, para segui-la cegamente e, em nome dela, cometermos as maiores atrocidades, acreditando que delas surgirá um “amanhã melhor”.


O que fazer, então? Talvez, a resposta seja a seguinte: ficarmos atentos aos ‘paraísos’ que nos oferecem. Ou seja, sejamos mais cães de guarda e menos bajuladores – inclusive em relação à ciência.


Quanto às utopias, devemos nos resignar. Gray, em entrevista à revista Ciência Hoje, parece ter descrito nosso destino como espécie: “Talvez, um mundo sem utopias seja a maior das utopias”.


Grato pela leitura.

680 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo