• Rogério Parentoni

Ciência: legado inexorável da Pandemia

Por: Nicolas Marchon

Executivo Sênior de Marketing para a América Latina da Thermo Fisher Scientific

Texto originalmente publicado no Correio Braziliense no dia 14.10.2020.

Nem a mais pessimista das previsões poderia sugerir um ano tão atípico. Embora seja possível argumentar a favor de alertas como o de Bill Gates, feito há 5 anos, e análises como a de Nassin Taleb, contestando o rótulo de imponderável, a verdade é que ninguém imaginaria a profundidade das mudanças impostas pela COVID-19. Neste contexto, o resultado é amplamente negativo. Caminhamos globalmente para assombrosos 900 mil mortos. Ainda que a escalada diária dos números, por vezes, pareça tentar relativizar o impacto de uma vida, esta será a principal e mais dolorosa lembrança da pandemia.

Além e posteriormente aos impactos no âmbito da saúde, é inevitável lembrar dos longos períodos em quarentena. O isolamento social imposto na tentativa de diminuir a velocidade de propagação do vírus teve pico de 63% da população e nos manteve afastados de pessoas queridas e de hábitos outrora inquestionáveis. Já, economicamente, o impacto era inevitável: no Brasil, mais de 700 mil empresas fecharam as portas e o último trimestre apresentou tombo histórico de 9,7% no PIB. Podemos enumerar, também, as crianças tanto tempo longe da escola, o aumento do desemprego...enfim, a lista é bem extensa.

Entretanto, sem a menor intenção de mostrar um copo meio cheio – quando se perdem vidas, o vazio impera – apresenta-se a oportunidade de observarmos o legado colateral otimista exposto pela pandemia: a valorização da ciência. Desde os primeiros casos, ela foi crucial para elucidar o agente causador da COVID-19. Somente por meio do sequenciamento genético nos foi permitido identificar o coronavírus posteriormente chamado de Sars-CoV-2, e cujos estudos filogenéticos desarticularam uma (dentre as inúmeras) teoria da conspiração: de que o vírus teria sido criado em laboratório.

Em seguida, talvez ofuscada pela disseminação das dúvidas que surgiam, pouco crédito foi dado à ciência quando abordagens diagnósticas, como os testes moleculares e os sorológicos, começaram a ser apresentadas. Neste sentido, a pesquisa e desenvolvimento em diversas empresas e instituições possibilitaram a sadia diversidade de soluções disponíveis. Se por um lado ainda exista desinformação levando a más escolhas sobre qual o tipo de teste ideal de acordo com o momento e o objetivo, vale lembrar também que nenhuma empresa por conta própria teria capacidade de produzir quantidade para atender a toda população mundial. Se a prática da ciência, de maneira contínua, tem permitido o vital aumento de possibilidades diagnósticas, o conhecimento por trás das vacinas segue o mesmo curso. Já são mais de 160 em desenvolvimento, com pelo menos 30 em fases de testes clínicos. Se nem as mais estudiosas e experientes autoridades no assunto concordam entre si sobre quando uma vacina estará disponível (e acessível) no País, existem apenas duas certezas sobre o tema: ela chegará e será graças à ciência.

Esta tem sido mais uma dentre as incontáveis mudanças em nosso cotidiano: estamos todos mais conectados e próximos à ciência, tentando entender por meio dela, o que acontece. De acordo com pesquisa recente do Ibope, 58% dos brasileiros acreditam que a ciência será mais valorizada após a pandemia. Outro estudo, do IDEA Big Data, revelou que 76% dos brasileiros declararam interesse em passar a escutar opinião, conselhos e orientações de especialistas qualificados, como cientistas e pesquisadores, especialmente à medida que eles passaram a ocupar a mídia com intensidade sem precedentes. Já o Google mostra que buscas pelo termo “artigo científico” tiveram salto de 67% na comparação com mesmo período do ano anterior. Instituições de pesquisa, empresas de diagnóstico e produtores de vacina passaram a ter mais relevância na sociedade.

Em meio a uma conjuntura predominantemente negativa, nasceu o que podemos chamar de Momento Pró-Ciência. Um período potencialmente transformador de seu protagonismo, cujos impactos podem moldar o futuro. Quando a vida for voltando à (nova) normalidade, quando a vacina fizer parte dos calendários básicos de vacinação e quando algum outro tema dominar a mídia, será que voltaremos a ser a mesma sociedade de antes? Esqueceremos as cicatrizes para divergirmos sobre qualquer outra coisa? Ou usaremos os ensinamentos desta pandemia para valorizar e reconhecer o papel preponderante que a ciência possui em nossas vidas? A importância dada à ciência e a velocidade de resposta a uma eventual nova pandemia serão diretamente proporcionais. O momento vai passar, mas tais reflexões talvez sejam os legados mais evidentes que a COVID-19 irá deixar.

No que se refere ao Brasil, torna-se vital entender que os incentivos à saúde e pesquisa básica são investimentos imprescindíveis para o bem-estar da população. Recorrer à ciência com surtos já em curso custa mais dinheiro e mais vidas. Obviamente, esta não é uma discussão simples, visto que não há como se omitir ou postergar outras agendas e prioridades concomitantes e igualmente relevantes em um país com desafios tão abrangentes. Entretanto, também é crítico repensar os modelos atuais das universidades, questionando alinhamento à agilidade e necessidades do mundo “lá fora” e à postura relativamente contemplativa ao fomento do estado. Soma-se, aqui, a necessidade de maior participação da iniciativa privada em meio a esta dinâmica, expandindo sua presença local e ampliando as parcerias com entidades públicas.

Acima de tudo, esse ecossistema demanda atuação sinérgica, não permitindo se tomar partido (sem o perdão da palavra). Nenhuma esfera deve se preservar da responsabilidade e nenhum de nós esquecer do protagonista do momento. É verdade que ainda não temos resposta para tudo, mas muito provavelmente, sem a ciência não teríamos para nada.

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