• Ciência em Ação

Como melhorar o diálogo entre ciência e sociedade?


por Leonardo da Silveira Rodrigues

Como tornar mais efetivo o diálogo entre a ciência e a sociedade? Como tornar esse diálogo mais amplo e aumentar sua credibilidade? Em tempos de perda significativa de biodiversidade, mudanças climáticas globais, terraplanismo, coronavírus e distribuição massiva de fake news nas redes sociais, a necessidade de criar e dar escala a informações precisas, verdadeiras e claras mesmo que por meio de narrativas mais carismáticas é premente. O contexto político do país, o desafio da comunicação cientifica e a urgência socioambiental são desafios atuais para cientistas que buscam levar conhecimento cientifico para além da academia.

Em geral, comunica-se melhor em escala local, sendo mais difícil a comunicação em escala regional, nacional e internacional. A discussão política, em momento de polarização exacerbada, apresentou manifestações contrárias ao que cientistas tem advertido nos últimos anos, especialmente no âmbito ambiental. Embora a conjuntura política apresente cenário controverso à sociobiodiversidade, a sociedade brasileira segue em disputa. Os cientistas, difusores de ciência e professores tem a importante missão de se dedicar à construção de estratégias de comunicação que promovam o diálogo entre saberes.

Com o avanço das novas tecnologias, a sociedade passou a se comunicar muito mais por meio das redes sociais. Hoje observa-se uma comunicação com excesso de informação de qualidade duvidosa. Ao mesmo tempo tornou-se difícil utilizar canais tradicionais de comunicação para qualificar a informação sobre os avanços da ciência, seja na esfera ambiental, energética ou de saúde pública.

É preciso construir legitimidade e credibilidade da informação a ser apresentada, associada à elaboração de novas estratégias de comunicação. É necessário utilizar da criatividade para isso. E habilidade de diálogo do saber cientifico com os saberes político, artístico, jurídico-administrativo, econômico e tradicional.

Os cientistas necessitam considerar esse entendimento da conjuntura política e retomar uma agenda de engajamento da sociedade. Fundamental estimular a habilidade de conversar com a linguagem jurídica, a linguagem da legislação e da administração pública. Ao mesmo tempo utilizar da linguagem audiovisual de distribuição rápida nas redes sociais, sem perder critério, mas com capacidade de fazer sentido para uma sociedade composta por enormes parcelas de pessoas que, por diversos e diferentes motivos, não tem domínio da linguagem e do funcionamento da ciência.

A estratégia de comunicação depende principalmente de saber em que momento é importante colocar a informação e de conseguir perceber de onde é melhor que essa informação venha. Essa leitura é desafio posto aos cientistas que se abrem para diálogo com a sociedade. A ciência tem o obstáculo e a missão de comunicar para fora do meio cientifico, o que está longe de ser alcançado plenamente. Não só pela comunicação, mas pelas estratégias, linguagens, formatos e os próprios meios de comunicação escolhidos. Não basta ter a informação, é preciso ter legitimidade e credibilidade frente à sociedade. Como desenvolver essa credibilidade é pergunta fundamental e caminho a se percorrer.

A conjuntura aponta novo cenário, que vai exigir desapego, especialmente quanto à precisão do jargão cientifico. Não é levar informação imprecisa, mas sim construir narrativas factíveis e verdadeiras, que conversem com a população nacional, atualmente bombardeada por discurso que produz imaginário de criminalização e desqualificação do conhecimento cientifico, da cultura, da política, da filosofia e das artes.

Como considerar esse entendimento da situação e retomar uma agenda de diálogo aberto com a sociedade, observando o papel preponderante da ciência na busca por compreensão e proposta de soluções aos diversos problemas atuais? Importante promover dialogo e não disputa entre os conhecimentos. Para pensar em novas linguagens e novos contextos, é necessário desapego de alguns conceitos caros à academia. Voltar os debates para valores e para princípios e desapegar de conceitos que exigem um esforço muito grande, por parte dos cientistas, para convencer as pessoas de sua importância. É importante a construção de discursos / narrativas com criatividade e, preferencialmente, sem utilizar de conceitos que estão socialmente estigmatizados ou demasiadamente herméticos ao cidadão comum.

Algumas experiências já se mostram eficazes nessa busca por interação entre cientistas e a sociedade em diferentes níveis. Gostaria de apresentar três exemplos, cada um com seu formato e alcance. Um exemplo de sucesso tem sido a atuação do biólogo Atila Iamarino em seu canal de YouTube, já existente, mas que se tornou muito popular ao facilitar a compreensão da sociedade sobre a pandemia do coronavírus em seus aspectos infecciosos e curvas de crescimento dos casos de contagio no Brasil. Outro exemplo de interação eficiente, em outra escala, é a do canal de podcast “desabraçando árvores” coordenado pelo biólogo Fernando Lima, que vem tratando das ciências do ambiente por meio de diálogo entre cientistas, povos tradicionais e profissionais da conservação. O terceiro caso que gostaria de trazer é a experiência dos “Encontros dos Saberes” do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora) conduzida em uma parceria entre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas – e o ICMBio para criar espaços de aprendizagem e troca de conhecimentos sobre biodiversidade e conservação entre comunidades tradicionais, pesquisadores, gestores e sociedade em geral em uma rede de diálogo entre as Unidades de Conservação que realizam o monitoramento através de intercâmbios, seminários e produção de materiais informativos de diferentes mídias.

Nesse momento a motivação é relembrar a sociedade da importância dos saberes, das artes, da cultura, da ciência. Cada uma das experiências apresentadas acima realiza essa promoção do conhecimento e o diálogo com a sociedade de alguma forma, por meio de diferentes ferramentas que dialogam com as pessoas.

O novo surge a partir do processo de diálogo e da superação da dificuldade de comunicar. É preciso criatividade e abertura para o diálogo, com utilização de novas linguagens por parte da academia, a fim de se promover inovação para trazer um conhecimento realmente original e que faça sentido para a população.



Leonardo da Silveira Rodrigues é professor e ambientalista

Biólogo pela PUC Minas, Mestre em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas-INPA

Atua como consultor pela empresa Verde Perto Socioambiental e é colaborador do

IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas



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