• Ciência em Ação

Competição X Mutualismo: Por que Darwin empoderou a competição?



Ricardo Iglesias Rios


Pesquisador Visitante Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)



A seleção natural, na concepção de Darwin, é como uma moeda de duas faces. Em uma face a seleção ajuda fortemente na preservação da variabilidade que aumenta a fitness dos indivíduos, i.e., aqueles bem adaptados ao ambiente que por isso legam um número maior de descentes para as gerações futuras. Mas há outra face na qual a seleção natural elimina, extermina, mata e destrói impiedosamente, aqueles que portam características nocivas, note-se que a palavra luta (struggle) consta do próprio título de livro. Os leitores podem visualizar essas duas faces antagônicas na Tabela 1.



Tabela 1. Levantamento de palavras, respectivos capítulos, contidas no livro Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida. Charles Darwin 1859 – Primeira edição


A seleção natural criativa é citada em todos os capítulos do livro, contudo, a seleção natural com sua face destrutiva também está presente em todos os capítulos. A cada duas páginas, em média, Darwin cita a seleção natural com sua face benéfica, aquela que ajuda na formação de novas variedades, novas espécies, gêneros e famílias. Mas também a cada duas páginas, em média, Darwin menciona o “lado negativo da seleção natural”, com sua destruição em massa, na batalha da vida entre as variedades, espécies, gêneros e famílias. As duas faces são mediadas pela competição, uma espécie de força suprema omnipresente e omnisciente. Na maior parte do livro a competição cria uma verdadeira guerra com vencedores e vencidos, portanto, essa luta não é uma luta metafórica, como afirma Darwin no capítulo IIII, é uma luta de vida e morte na maior parte das citações de Darwin. A seleção natural que “suplanta e elimina espécies” é uma herança da visão de Malthus. Na Origem das Espécies Darwin cita doze vezes a expressão “crescimento geométrico da população”, mas de forma interessante nunca menciona a bobagem de Malthus do crescimento aritmético da comida.


Darwin também conhecia os registros fósseis – era um geólogo renomado – por isso sabia da extinção de milhares ou milhões de variedade e espécies no passado pela ação da seleção natural. Por que Darwin deu tanta ênfase a ideia de competição? A resposta não é complexa: Para Darwin a transformação de uma espécie se dava pelo acúmulo de variabilidade hereditária surgida ao acaso, mas a variabilidade importante era aquela pequena, quase-imperceptível. As grandes alterações morfológicas, fisiológicas ou comportamentais, sempre eram rejeitadas pela seleção. Essa ideia está é recolhida por uma frase repetida sete vezes no livro; “natura non facit saltum” (a natureza não dá saltos). O processo de criação de novas espécies é sempre lento, muito lento, lentíssimo, uma vez que apenas as pequenas, as quase imperceptíveis variações são aceitas pela seleção natural.


O dilema de Darwin então era o seguinte; “a vida foi insuflada em algumas formas ou talvez numa única”: necessariamente essa primeira forma seria muito simples. Como então, deve ter pensado Darwin, essa forma viva tão simples, através de um processo tão lento e gradual se transformou nos milhões de espécies que já existiram e as que hoje existem? Qual seria o tempo necessário para essas transformações? Fazendo essa pergunta mais objetivamente: quanto tempo é necessário para que uma bactéria, acumulando pequenas alterações origine um elefante ou o ser humano? A resposta de Darwin foi, necessariamente, muitos milhões de anos. Se minha teoria estiver certa a Terra existe a muitos milhões de anos teria pensado Darwin. Mas havia um problema nesse raciocínio. Na época de Darwin os geólogos diziam que a Terra tinha 250 milhões de anos! Mas Darwin achava esse tempo muito curto e, para piorar, nessa mesma época o famoso engenheiro e físico inglês, William Thompson Kelvin (1824-1907), especialista em termodinâmica, calculou que a Terra teria uma idade entre 25 e 30 milhões de anos. Darwin insistiu que 30 milhões de anos era muito pouco para que as espécies se transformassem. Kelvin considerava a teoria de Darwin, de transformações lentas e graduais estava errada e não gostou da teimosia de Darwin, mostrando seu desagrado dizendo que “Darwin estava se opondo à matemática”. Nessa situação, Darwin manteve suas ideias, mas procurou um mecanismo que pudesse acelerar a ação criativa da Seleção Natural. Qual foi essa solução caros leitores? Simples, empoderando a competição de uma imensa força e eficiência na transformação das espécies, favorecendo e destruindo alternadamente as novidades evolutivas. Quanto mais forte a competição, mais rápida será a separação dos caracteres. Afirma Darwin: “A seleção natural quase sempre é a causa da maioria das extinções das formas menos aperfeiçoadas e induz o que eu chamo “divergência de caracteres”. Eis aí caros leitores a necessidade que tinha Darwin para dar superpoderes à competição.


Hoje sabemos que a Terra existe a 4,5 bilhões anos. Pela primeira vez e talvez a única vez, um Biólogo suplanta um Físico em uma disputa por uma teoria científica. Além disso, também sabemos que existem longos períodos de “estase evolutiva”, onde as transformações das espécies são mínimas, mas também existem breves momentos onde as transformações das espécies são muito rápidas. No chamado processo de “equilíbrio pontuado”, a natureza as vezes faz grandes saltos (“quod natura plerum que saltum facit magna“).


Nos dias atuais existem dois tipos de evidências muito bem documentadas sobre a criação de muitas espécies em pouco tempo: (1) a teoria do equilíbrio pontuado, proposta por Eldredge & Gould (1972), no qual muitas espécies podem surgir em pouco tempo. Gould (2002) mostra dados da formação de novas espécies durantes determinados períodos da vida na Terra; (2) a chamada explosão do Cambriano, na qual em um período de 5 milhões de anos surgem muitos dos filos que ainda hoje estão presentes na Terra. Gould (2002) e outros paleontólogos defendem a ideia de que no início do período Cambriano (542 a 488 milhões de anos atrás) ocorreu uma verdadeira explosão no que se refere ao aparecimento de muitas espécies, gêneros e inclusive novos filos em curto período de tempo. Ainda se discute a abrangência dessa explosão, mas não sua existência. Existem também muitos estudos paleontológicos que asseguram a existências de muitos processos de “radiação adaptativa”, que é o aparecimento de muitas espécies, em curto período de tempo a partir de um ancestral comum. Charles Darwin não tinha essas informações e estava “angustiado” com os ataques à sua teoria da natura non facit saltum. Por essa razão necessitava descobrir um processo capaz de acelerar a produção de novas espécies. Nesse dilema, Darwin chega à conclusão que esse processo é a competição, forte, sem tréguas, guerra, combate incessante, com grandes doses de extinção, destruição e extermínio.

Uma segunda linha de evidências que limitaria o poder da ação da seleção natural é a teoria neutra da evolução, proposta por Motoo Kimura (1968), na qual se postula que existe um grande número de genes neutros (mais de 50%), que seriam genes ignorados pela seleção natural. Nessas condições impera a deriva genética, mecanismo proposto por Sewall Wright no qual as variações nas frequências dos genes de uma população não seriam determinadas pela ação da seleção natural e sim pelo acaso.


É, portanto, paradoxal que nos dias atuais a teoria ecológica ainda esteja tão limitada pela exagerada importância dada por Darwin à competição (Iglesias 2019). O próprio Darwin disse no final da introdução da primeira edição do livro (1859) o seguinte: “Por fim estou convencido de que a seleção natural foi o principal meio de modificação, mas não o único”.


A título de provocação eu diria que entre as interações interespecíficas – competição, predação, comensalismo e mutualismo – é o mutualismo o principal mecanismo que cria novas espécies.



Principais referências:


- Darwin, C. 1859. The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favored races in the struggle for life. London: John Murray (facsimile 1964 Harvard University Press).

- Iglesias-Rios R. 2019 - Capitaloceno a era da barbárie. Yellow Carbo Design e Publishing; Rio de Janeiro, Brasil

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