• Lígia Dornellas

A IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS DO ENTORNO PARA AS CAVERNAS

Por: Lígia Maria Saback Moreira Dornellas

Bioespeleóloga na Carste Ciência e Meio Ambiente Mestranda em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre na UFMG Os ambientes subterrâneos, de acordo com Culver e Pipan (2009), são formados por espaços abaixo da superfície compreendidos principalmente por fissuras, fendas, cavidades, que podem ser de diferentes tamanhos, desde pequenos espaços na rocha (e.g. os diminutos espaços intersticiais) até grandes câmaras com várias centenas de metros quadrados. Segundo Trajano e Bichuette (2006), as cavernas são apenas uma pequena porção do meio subterrâneo que continuam por fendas e espaços que não nos permitem adentrar, dada as dimensões corporais do ser humano, mas que são penetradas por pequenos organismos, como peixes e invertebrados.

De modo geral, as cavernas são ambientes de relativa estabilidade (ao menos quando se considera a porção mais profunda de cavidades de média e grande projeção horizontal, a chamada zona afótica), onde a umidade chega próxima à saturação e a temperatura é estável e próxima das médias anuais para o ambiente externo da região onde se insere a cavidade (Culver 1982). Em áreas com iluminação direta ou parcial, as condições ambientais associadas podem flutuar bastante, de acordo com as variáveis sazonais da região e principalmente, se a cavidade em questão for de pequenas dimensões, sem zona afótica, ou ainda rasas.

Porção profunda da caverna Lapa D’água, no município de Paracatu/MG, marcada ainda pela presença de corpo d’água que aumenta a umidade relativa do ambiente subterrâneo

O Decreto Federal n.º 99.556, de 1º de outubro de 1990, determina a proteção integral de cavidades naturais subterrâneas existentes em território nacional e, em seu art 1º,parágrafo único traz o conceito de cavernas:

Entende-se por cavidade natural subterrânea todo e qualquer espaço subterrâneo acessível pelo ser humano, com ou sem abertura identificada, popularmente conhecido como caverna, gruta, lapa, toca, abismo, furna ou buraco, incluindo seu ambiente, conteúdo mineral e hídrico, a fauna e a flora ali encontrados e o corpo rochoso onde os mesmos se inserem, desde que tenham sido formados por processos naturais, independentemente de suas dimensões ou tipo de rocha encaixante.

No ano de 2008, o Decreto Federal n.º 6640 representou um marco no que se refere à proteção do patrimônio espeleológico nacional, por estabelecer a classificação de cavidades em graus de relevância. Com isso, permitiu-se a supressão de cavernas, mediante a devida compensação e autorização ambiental, de cavidades de baixa, média e alta relevância.

Ao longo do tempo, a legislação espeleológica brasileira passou a tomar contornos mais específicos, trazendo à luz do licenciamento ambiental a premissa da proteção e conservação integral das cavidades de máxima relevância, bem como critérios rigorosos de compensações ambientais em áreas contíguas para o caso de impactos irreversíveis em cavidades de alta relevância espeleológica.

Estudos espeleológicos foram se tornando cada vez mais elaborados a partir de critérios definidos por instruções normativas abordando, principalmente, os aspectos físicos e biológicos mínimos necessários para o entendimento da importância das cavernas e seus sistemas. Tal fato justifica-se pelos locais de inserção das cavidades que, por muitas vezes, situam-se em áreas de interesse minerário, seja em rochas ferríferas, quartzíticas ou carbonáticas.

Por mais que a justificativa para a ampliação dos estudos de cavernas tenha sido a exploração econômica das áreas onde essas ocorrem, não há que se discutir que o número de áreas para conservação desses ambientes foi bastante aumentado devido às necessidades de compensação de cavidades.

Quando se pensa em conservação de cavernas, é de suma importância compreender os elementos bióticos e abióticos que integram todo o ambiente cavernícola. Estudos de área de influência espeleológica são os trabalhos que permitem a delimitação de áreas para a manutenção dos processos ambientais nas cavidades e seu entorno. Para tal, de acordo com a Resolução CONAMA n.º 347, de 10 de setembro de 2004, a área de influência sobre o patrimônio espeleológico é conceituada como aquela “que compreende os elementos bióticos e abióticos, superficiais e subterrâneos, necessários à manutenção do equilíbrio ecológico e da integridade física do ambiente cavernícola”.

Em relação aos aspectos físicos, ICMBio (2013) propõe a análise de parâmetros que contemplem a manutenção da integridade física, com a manutenção do aspecto morfológico original da caverna, de forma a evitar quaisquer alterações na morfologia das paredes, teto, piso. Também são recomendadas análises que envolvam a dinâmica evolutiva das cavernas e a delimitação dos sistemas cársticos em rochas carbonáticas.

A dinâmica evolutiva das cavidades contempla os processos relacionados à formação e desenvolvimento das cavernas no contexto da paisagem. Ainda que seja um processo extremamente lento na escala de tempo de observação humana, é necessário que a evolução espeleogenética da caverna seja assegurada. Os processos erosivos e dissolutivos que levam ao surgimento e alargamento da caverna envolvem, particularmente, agentes hídricos, embora movimentos tectônicos e agentes eólicos influenciam na entrada e retirada de materiais clásticos e orgânicos. Dessa forma, torna-se essencial a análise sobre a origem do fluxo hídrico que adentra a cavidade (seja por gotejamento, lagos, drenagens, etc.), bem como dos sedimentos alóctones, e a correlação entre esses e o entorno. A depender do tipo de fluxo (drenagens ou processos de infiltração e percolação), a microbacia de contribuição é suficiente para salvaguardar a perpetuação da dinâmica de evolução.

No tocante aos elementos bióticos, ICMBio (2013) recomenda a realização de estudos que permitam a compreensão da estrutura e funcionamento do ecossistema em questão, abordando aspectos práticos que contemplem a conectividade do sistema subterrâneo, a contribuição de trogloxenos, de acidentais e de sistemas radiculares no aporte de nutrientes para a fauna subterrânea. Neste sentido, considerando que as cavidades são ambientes oligotróficos, ou seja, com pequena quantidade de recursos energéticos disponíveis para a manutenção da fauna cavernícola, entende-se que é necessário compreender como os substratos orgânicos adentram as feições e, consequentemente, definir áreas a serem conservadas para que seja mantido o aporte desses recursos para esses ambientes.

De maneira geral, os recursos alimentares encontrados no interior de cavernas consistem em matéria orgânica de origem externa, que pode ser carreada por agentes físicos (como ações do vento, gravidade, percolação de água de superfície ou até inundações através de aberturas, tais como entradas, fraturas e claraboias) ou biológicos (animais que visitam ou se abrigam em cavernas, introduzindo recursos energéticos através de suas fezes, ou até mesmo carcaças).

A ação desses dois agentes permite o fluxo de entrada de diversos tipos de materiais orgânicos, que pode acontecer de maneira intermitente ou contínua. Outra fonte comum de alimento são as raízes da vegetação circundante, que podem disponibilizar para o ambiente cavernícola parte de sua matéria orgânica associada ao processo de decomposição, ou servir como fonte de alimento para grupos específicos da fauna, que se alimentam de seiva. O guano (fezes de animais voadores) pode ser um dos principais recursos tróficos presentes no interior das cavidades, sendo preferencialmente consumido por uma parcela da fauna subterrânea, os guanóbios, que dependem desse tipo de recurso. Ademais, toda a fauna subterrânea pode consumir guano, que pode ser uma das principais vias de entrada de matéria orgânica para o interior das cavidades (Moldovan et al 2018). Embora não sejam frequentes colônias expressivas de morcegos em cavernas ferríferas de Minas Gerais (Moras et al 2015), há diversos registros que contemplam aglomerados de mais de 200 indivíduos (Carste 2018). Depósitos de guano indicam que morcegos podem utilizar as feições como poleiros de alimentação, ou abrigos noturnos.

Carollia perspicillata capturado em cavidades

Neste contexto, o tipo de recurso, a quantidade e a forma de disseminação no sistema são determinantes na composição e abundância da fauna. Ademais, tais recursos são capazes de manter populações de organismos de todos os níveis tróficos presentes nas cavernas (Gilbert et al 1994, Ferreira e Martins 1999, Ferreira 2005, Gunn 2004).

Diagrama de fluxo energético

No que diz respeito a conectividade do sistema subterrâneo, entende-se que, apesar de as cavernas serem os habitats subterrâneos mais conhecidos e estudados atualmente, tal ambiente se estende a espaços bem menores, que também permitem a ocorrência de diversas espécies, inclusive as troglóbias (restritas ao meio hipógeo). Algumas podem apresentar acentuado grau de troglomorfismos associados ao isolamento nesse tipo de habitat (Culver e Pipan 2009).

A característica restritiva desses animais ao ambiente subterrâneo assegura, de certa forma, mapear a dispersão da espécie e comprovar a ligação desse sistema. Para compreender a conectividade do sistema subterrâneo e com quais outras macrocavidades a caverna em questão se conecta, é recomendada a utilização de espécies troglóbias como “traçadores biológicos” (presença x ausência). Entretanto, para uma constatação mais assertiva, a validação da conexão poderá ser dada quando a distribuição da espécie em análise se restringir a cavidades localizadas no mesmo compartimento de paisagem, ou seja, mesmo contexto geográfico. No que se refere as cavidades secas e sem espécies troglóbias, é indicada a avaliação de parâmetros físicos que revelem potencial elevado para a dispersão da fauna nesse ambiente, tais como: canalículos, condutos inferidos, fendas, fissuras, fraturas, rachaduras e vãos.

Diagrama de conectividade subterrânea.

Considerando toda a complexidade do ambiente subterrâneo, bem como todos os processos responsáveis pela dinâmica evolutiva e equilíbrio ecológico do meio hipógeo, cabe concluir a indiscutível importância da preservação desse tipo de ambiente para os ecossistemas do entorno. Entende-se que há muito mais que se conhecer do ambiente subterrâneo, no entanto ressalta-se a correlação deste com o ambiente externo, cuja conservação também é imprescindível para a manutenção do equilíbrio do ambiente cavernícola. REFERÊNCIAS


Carste Ciência E Meio Ambiente (2018) Relatório Anual De Monitoramento Espeleológico Do Projeto Extensão Da Mina Do Sapo, 80p Culver DC (1982) Cave Life: Evolution And Ecology. Harvard University Press, Cambridge. 189 Pp. Culver DC & Pipan T (2009) The Biology Of Caves And Other Subterranean Habitats. Oxford Univesity Press: Oxford. 254 p. Ministério Do Meio Ambiente (2008) Decreto Federal N.º 99.556, De 1º De Outubro De 1990. Brasil Ferreira RL (2005) A Vida Subterrânea Nos Campos Ferruginosos O Carste, 17(3) Ferreira RL & Martins RP (1999) Trophic Structure And Natural History Of Bat Guano Invertebrate Communities With Special Reference To Brazilian Caves. Tropical Zoology. 12 (2): 231-59 GILBERT J, DANIELPOL DL & STANFORD JA (1994) Groundwater Ecology. Academic Press Limited, San Diego, CA Gunn J (2004) Encyclopedia Of Caves And Karst Science. Taylor And Francis, New York, 1940 Pp. Instituto Chico Mendes De Conservação Da Biodiversidade – Icmbio (2013) Área De Influência Sobre O Patrimônio Espeleológico: Orientações Básicas À Realização De Estudos Espeleológicos Relatório Final. Centro Nacional De Pesquisa E Conservação De Cavernas. Brasília, Brasil Moldovan OT, Kováč Ľ, Halse S (2018) 1.1 On Caves, Cave Ecology, And Cave Inhabitants. Cave Ecology, 235, 1 Moras LM, Gomes AM, Da Cunha Tavares, V (2015) Distribution And Taxonomy Of The Common Big-Eared Bat Micronycteris Microtis (Chiroptera: Phyllostomidae) In South America. Mammalia, 79(4), 439-447 Conselho Nacional Do Meio Ambiente (2004) RESOLUÇÃO CONAMA N.O 347, De 10 De Setembro De 2004. Publicada No DOU N.O 176, De 13 De Setembro De 2004, 54-55 Trajano E; Bichuette ME (2006) Biologia Subterrânea: Introdução. Redespeleo Brasil, São Paulo



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