• Ciência em Ação

A Conservação da biodiversidade e a Educação Ambiental caminham juntas


Cristiane Xerez Barroso1 & Amanda Sousa Silvino2


1Bolsista do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD/CAPES) no Instituto de Ciências do Mar (Labomar), Universidade Federal do Ceará;

2 Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

No recente documentário David Attenborough - A Life on Our Planet (David Attenborough e nosso planeta, Netflix, 2020), o naturalista britânico Sir David Attenborough relembra sua história, desde sua primeira e revolucionária série de TV Life on Earth (BBC, 1979), como uma testemunha do declínio da biodiversidade, provocado pelas mudanças ambientais causadas pelas ações humanas ao longo das últimas décadas. Greta Thunberg, uma ativista ambiental sueca nascida em 2003, iniciou em 2018 uma ação chamada Fridays for Future (Sextas-feiras para o futuro, em tradução livre), um movimento de greve das escolas com o objetivo de denunciar a crise climática e pressionar os governos a adotarem medidas para desacelerar as mudanças climáticas (Thunberg, 2019). David Attenborough e Greta Thunberg hoje são duas vozes que tentam mobilizar o planeta para a importância e urgência de mudarmos nossa forma de estar no mundo, antes que as consequências das mudanças climáticas, entre elas a perda da biodiversidade, sejam irreversíveis. E por que a perda de biodiversidade é tão preocupante? Porque a biodiversidade estrutura as condições necessárias para a existência e permanência da vida (Lovelock, 2006).

Biodiversidade pode ser definida, de forma simples, como a variedade de vida, estando esta distribuída heterogeneamente (Gaston, 2000). De maneira mais complexa, o conceito de biodiversidade também engloba a diversidade em todos os níveis de organização, desde a diversidade genética dentro das populações até a diversidade dos ecossistemas em paisagens (Chapin III et al., 2000). Dessa forma, as propriedades dos ecossistemas apresentam relações estreitas com a biodiversidade e ambos possuem importantes conexões com valores culturais, intelectuais, estéticos e espirituais (Chapin III et al., 2000).


Os ecossistemas, que enchem nossas vidas de beleza, regulam a atmosfera, a água e os solos, fornecendo à humanidade seu alimento, a maioria dos remédios e muitos outros produtos essenciais (Raven & Miller, 2020). Considerando a biodiversidade, estudos têm mostrado que, não somente sua perda, mas sua redistribuição, impulsionada pelas mudanças climáticas em escalas local, regional e global, afeta o funcionamento dos ecossistemas (e.g. processos de sequestro de carbono), o bem-estar humano (incluindo segurança alimentar e padrões de transmissão de doenças) e a própria dinâmica das mudanças climáticas (Pecl et al., 2017).


Chamamos de Antropoceno o período atual da história da Terra em que as diversas ações humanas sobre o meio ambiente têm modificado, em escala global, as relações entre sociedade e natureza (Lewis & Maslin, 2015). Porém, essas modificações, que na maioria das vezes não levam em consideração a estrutura e funcionamento dos ecossistemas, têm levado a um desequilíbrio extremo das relações entre os seres vivos e demais componentes do meio ambiente, ao ponto de estar provocando uma nova extinção em massa da biodiversidade (Ceballos et al., 2015).


As discussões sobre os impactos das ações antrópicas sobre a biodiversidade e, consequentemente, sobre o funcionamento dos ecossistemas, têm como um de seus marcos iniciais a denúncia feita pela bióloga Rachel Carson no livro Silent Spring, publicado em 1962 (a edição brasileira - Primavera silenciosa - foi publicada em 2010). Nesse livro, Rachel Carson denuncia os efeitos relacionados ao uso de pesticidas, principalmente o DDT (Dicloro-difenil-tricloroetano), que estava provocando a mortalidade de insetos e aves (por isso, o nome do seu livro). Esse livro foi o pontapé inicial para que a temática ambiental entrasse no debate sobre desenvolvimento e, a partir daí, impulsionar uma verdadeira revolução em defesa do ambiente. Desde então, encontrar maneiras de tornar a biodiversidade um assunto significativo para diversos setores da sociedade tem sido um grande desafio (SCBD, 2020).


As denúncias feitas a partir da publicação de Silent Spring geraram diversos debates políticos que culminaram na assinatura da Carta de Belgrado, elaborada em 1975 ao final de um encontro promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) (MMA, 2020a). Foi a Carta de Belgrado que estabeleceu as diretrizes para a formulação do Programa Internacional de Educação Ambiental, com princípios e orientações para os países signatários, entre eles o Brasil. Posteriormente, em 1977, a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, em Tbilisi (Geórgia), estabeleceu definições, objetivos, princípios e estratégias para a Educação Ambiental, que são adotados em todo o mundo até hoje (Kassas, 2002). Desse momento em diante, a conservação da biodiversidade e Educação Ambiental passaram a caminhar juntas.


A realização de ações educativas, formais e informais, formação de professores e alunos e sensibilização da comunidade escolar são algumas dentre as várias propostas de sensibilização ambiental envolvendo a biodiversidade. Van Weelie & Wals (2002) discutem que é preciso tornar a biodiversidade significativa para os alunos, descrevendo como degraus necessários o aprendizado sobre os diferentes significados, interpretações e usos da biodiversidade, a capacidade de observação e monitoramento da biodiversidade, a criticidade quanto ao seu uso conceitual nos discursos políticos e ambientais e, talvez, o estabelecimento de valores de biodiversidade. Para encontrar meios de valorizar a biodiversidade, muitas conferências nacionais e internacionais aconteceram ao longo das últimas décadas com o intuito de inserir o debate sobre a biodiversidade no sistema educativo e na sociedade de modo mais amplo (Loureiro, 2007).


Um dos marcos mais importantes para conservação da biodiversidade, foi o estabelecimento da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro (Rio 92) e assinada por mais de 160 países (MMA, 2020b). Os objetivos principais da CDB foram: a conservação da diversidade biológica, o uso sustentável dos componentes da diversidade biológica e a repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes da utilização dos recursos genéticos (objetivo reforçado pelo Protocolo de Nagoya, que entrou em vigor em 2014) (ver https://www.cbd.int). Em 1997, os temas discutidos na Rio 92 foram reforçados durante a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, realizada em Tessaloniki, Grécia. Nessa conferência, foi debatido que as ações necessárias de Educação Ambiental devem ser interdisciplinares e baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade; identidade cultural e diversidade; e mobilização e participação (MMA, 2020c).


A Educação Ambiental também está inserida nos debates sobre mudanças climáticas (Lima & Layrargues, 2014). Atualmente é um tema que começa a ser pautado no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Criado em 1988, o IPCC fornece aos formuladores de políticas avaliações científicas regulares sobre as mudanças climáticas, seus impactos e riscos futuros, além de opções para adaptação e mitigação de seus efeitos. As ações desse órgão são uma tentativa de estreitar o laço entre Ciência e formuladores de políticas. Desde 1988, o IPCC produziu cinco relatórios de avaliação abrangentes e vários relatórios especiais sobre tópicos específicos, estando agora em seu Sexto ciclo de Relatório de Avaliação (IPCC, 2020). Considerando as avaliações do IPCC, em 2015, durante a 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), em Paris, foi aprovado pelo Brasil e mais 194 países um novo acordo para reduzir emissões de gases de efeito estufa no contexto do desenvolvimento sustentável. O objetivo do Acordo de Paris é manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, reunindo esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (MMA, 2020d). Entretanto, o cenário atual, mesmo considerando a redução das atividades provocada pela pandemia da Covid-19, traz um grande desafio às metas do Acordo de Paris (ver https://news.un.org/pt/story/2020/07/1719561).


Os ecossistemas que dão suporte à vida na Terra estão sendo destruídos rapidamente - nos últimos 25 anos, cerca de um quarto de todas as florestas tropicais foram perdidas - tornando nosso futuro incerto (Raven & Miller, 2020). Ao levantar as questões "A perda de biodiversidade é uma coisa ruim?" e "Para quem a perda de biodiversidade é ruim?", as questões de distribuição equitativa e uso sustentável - componentes centrais da educação ambiental contemporânea e da Convenção sobre Diversidade Biológica - precisarão ser abordadas (Van Weelie & Wals, 2002; Viglio; Silvino; Ferreira, 2020). "A Carta da Terra", uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século XXI, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, lançada em 2000 já abordava essas questões (https://earthcharter.org). Essa temática é novamente um dos pontos centrais da Agenda 2030, que traz os "17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável" (17 ODS). Esses objetivos refletem de forma integrada e equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: social, econômica e ambiental, estando entre eles a Educação (Objetivo 4 - Educação de Qualidade) e a conservação da biodiversidade (Objetivo 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima, Objetivo 14 - Vida na água e Objetivo 15 - Vida terrestre) (ver http://www.agenda2030.org.br/os_ods/).

A necessidade de mudança é urgente. Dirigindo-se aos formuladores de políticas, Greta Thunberg pede: "So please, treat the climate crisis like the acute crisis it is and give us a future. Our lives are in your hands." ("Então, por favor, tratem a crise climática como a crise aguda que é e nos dê um futuro. Nossas vidas estão em suas mãos.", em tradução livre) (Thunberg, 2019). Em seu documentário (David Attenborough e nosso planeta, Netflix, 2020), David Attenborough expõe que é necessário elevar o padrão de vida ao redor do mundo (por exemplo, através da diminuição da pobreza, acesso à saúde e maior permanência de meninas na escola), sem aumentar nosso impacto sobre ele. No documentário, são mostradas sugestões para um futuro alternativo (e.g. uso de matrizes energéticas não associadas a combustíveis fósseis, manutenção da saúde dos oceanos com a criação de zonas proibidas para pesca, redução de áreas cultiváveis na terra com a mudança de nossos hábitos alimentares e uso de tecnologias, manutenção das florestas por meio de incentivos governamentais). Ações em nível local, envolvendo amigos, familiares, vizinhos, comunidade escolar, local de trabalho, e ações envolvendo a arte também são propostas por David Attenborough (visite o site https://attenboroughfilm.com para mais detalhes).


No um terço final do documentário David Attenborough - A Life on Our Planet, é discutida a necessidade de nossa espécie estabelecer uma vida em equilíbrio com a natureza, sendo uma vida sustentável nossa única opção para prosperarmos - "Se cuidarmos da natureza, a natureza cuidará de nós." Um dos principais caminhos para o reconhecimento dessa simbiose é a Educação. Quando Greta Thunberg afirma que as mudanças climáticas não são tratadas como uma crise, porque grande parte das pessoas desconhece seus efeitos (Thunberg, 2019), ela torna evidente a necessidade de conhecimento, que influencia nosso modo de enxergar e agir no mundo.


Portanto, a Educação Ambiental é fundamental para a conservação da biodiversidade. Foi a importância da Educação que fez com que Malala Yousafzai a abraçasse como sua maior causa. Ela, uma paquistanesa, teve a vida ameaçada por defender o direito à Educação, especialmente de meninas. Por seus esforços para tornar a Educação acessível a todos, Malala recebeu o Nobel da Paz em 2017. "Quero aprender a usar a arma do conhecimento. Aí serei capaz de lutar mais efetivamente por minha causa." (Yousafzai, 2013). Conservação da biodiversidade e Educação Ambiental devem caminhar cada vez mais juntas.

Referências

Carson, R. 1962. Primavera silenciosa. 1a. edição. São Paulo: Gaia. 327p.

Ceballos, G.; Ehrlich, P.R.; Barnosky, A.D.; García, A.; Pringle, R.M.; Palmer, T.M. 2015. Accelerated modern human–induced species losses: Entering the sixth mass extinction. Science Advances 1(5): e1400253. DOI: 10.1126/sciadv.1400253

Chapin III, F.S.; Zavaleta, E.S.; Eviner, V.T.; Naylor, R.L.; Vitousek, P.M.; Reynolds, H.L.; Hooper, D.U.; Lavorel, S.; Sala, O.E.; Hobbie, S.E.; Mack, M.C.; Díaz, S. 2000. Consequences of changing biodiversity. Nature 405: 234–242.

Gaston, K.J. 2000. Global patterns in biodiversity. Nature 405: 220–227.

Henriques, R.; Trajber, R.; Mello, S.; Lipai, E.M.; Chamusca, A. (Org.). Educação Ambiental: aprendizes de sustentabilidade. Cadernos SEDC 1. Brasília: MMA. 109p. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/educacaoambiental.pdf. Acesso em 22.out.2020.

Intergovernmental Panel on Climate Change. 2020. The IPCC and the Sixth Assessment cycle. Disponível em https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2020/05/2020-AC6_en.pdf. Acesso em 29.out.2020.

Kassas, M. 2002. Environmental education: biodiversity. The Environmentalist 22: 345–351.

Lewis, S.L; Maslin, M.A. 2015. Defining the Anthropocene. Nature 519: 171–180. DOI:10.1038/nature14258

Lima, G.F.C.; Layrargues; P.P. 2014. Mudanças climáticas, educação e meio ambiente: para além do Conservadorismo Dinâmico. Educar em Revista 3: 78–88. DOI: 10.1590/0104-4060.38108

Loureiro, C.F.B. 2007. Educação Ambiental crítica: contribuições e desafios. In: MELLO, S. S.; TRAJBER, R. (coords.) Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em Educação Ambiental na escola. Brasília. Ministério da Educação, Coordenação Geral de Educação Ambiental: Ministério do Meio Ambiente, Departamento de Educação Ambiental: UNESCO.

Lovelock, J. 2006. Gaia: cura para um planeta doente. São Paulo: Editora Cultrix. 198p.

Ministério do Meio Ambiente. 2020a. Carta de Belgrado. Disponível em: https://www.mma.gov.br/informma/item/8066-carta-de-belgrado.html. Acesso em 22.out.2020.

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Viglio, J.E.; Silvino, A.S.; Ferreira, L.C. 2020. Conflitos entre o setor petrolífero e a conservação da biosiversidade. In: Giuliana Franco Leal. (Org.) Ambiente, Sociedade e Poder. 1ed. Macaé, RJ: Nupem Editora-UFRJ, p. 17-45.

Yousafzai, M. 2013. Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã. São Paulo: Companhia das Letras. 342p.

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