• Ciência em Ação

O desenvolvimento sustentável é possível?

Por Flora Würth Simon - Engenheira Ambiental - https://www.linkedin.com/in/floraw%C3%BCrthsimon


Após a Revolução Industrial ocorreu o crescimento exponencial e sem precedentes da indústria, com expansão global do sistema capitalista. O resultado desta expansão foi a intensa explotação de recursos naturais e a consequente forte pressão sobre a estrutura e funcionamento dos ecossistemas naturais, causando degradação ambiental.


As consequências da degradação ambiental, entretanto, só vieram a ser discutidas a nível internacional após a explosão das bombas atômicas no final da II Guerra. Alguns anos depois, no ano de 1962, a bióloga Rachel Carson publicou o livro Primavera Silenciosa, que ganhou destaque por abordar os problemas ambientais por trás do uso de inseticidas e pesticidas.


Em 1968 foi constituído o Clube de Roma, composto por cientistas, industriais e políticos com o objetivo de discutir e analisar os limites do crescimento econômico levando em conta o uso crescente dos recursos naturais. No ano de 1972, o grupo de pesquisadores liderado por Dennis L. Meadows publicou o estudo "Os Limites do Crescimento" (The Limits to Growth).


Este estudo trouxe uma perspectiva neomalthusiana, em que a finitude dos recursos foi reintroduzida na discussão econômica. Foi concluído que, caso não fossem alteradas as variáveis do crescimento industrial, população, poluição e recursos naturais, os limites para o crescimento no planeta se esgotariam em menos de 100 anos.


O estudo “Os Limites do Crescimento” ficou conhecido internacionalmente e direcionou os debates da Conferência de Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano), ocorrida no mesmo ano. Durante a conferencia foi oficializada a preocupação internacional com o meio ambiente e a necessidade da elaboração de políticas públicas de meio ambiente em muitos países, inclusive no Brasil.


Em 1973, Maurice Strong introduziu o conceito de ecodesenvolvimento, associado à concepção de uma nova política de desenvolvimento calcada na dimensão regional e local e ao uso adequado dos recursos naturais. O conceito foi posteriormente apropriado e desenvolvido por Ignacy Sachs, o qual o baseou em três pilares: eficiência econômica, justiça social e prudência ecológica.


Principalmente por propor um teto de consumo material, com um nivelamento médio entre o Primeiro e o Terceiro Mundo, este conceito não foi bem aceito na época. Entretanto, os debates sobre o ecodesenvolvimento prepararam a elaboração posterior do conceito de desenvolvimento sustentável.


Na década de 70, também os governos começaram a estabelecer agências para gerenciar os problemas ambientais, viso que uma das descobertas feitas na Conferêencia de Estocolmo foi a falta de dados confiáveis para este tópico (1). A EPA (Environmetal Protection Agency), a agência de proteção ambiental dos EUA, foi fundada em 1970, enquanto a Secretaria do Meio Ambiente no Brasil foi fundada em 1973.


Dez anos depois, durante a Assembléia Geral da ONU, foi criada a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, com o objetivo principal de buscar um conceito de desenvolvimento que incluísse as questões ambientais sem prejudicar os interesses econômicos. Na ocasião, a médica norueguesa Gro Harlem Brundtland foi escolhida para presidir a Comissão.


Foi então no ano de 1987 que a Comissão Brundtland – como ficou conhecida – publicou o Relatório Nosso Futuro Comum (Our Common Future), que trouxe o conceito de desenvolvimento sustentável ao discurso público, tal qual descrito abaixo:

Desenvolvimento Sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas necessidades.


Alguns anos depois, durante a ECO 92, ocorrida no Rio de Janeiro, a necessidade de se aplicar o desenvolvimento sustentável foi reconhecida em todo o mundo. A Assembléia Geral da ONU criou, no mesmo ano da ECO-92, a Comissão para o Desenvolvimento Sustentável. Um dos principais resultados da Conferencia também foi a criação da Agenda-21, documento que visava o comprometimento de cada país a cooperar na busca de soluções para problemas sócio-ambientais.


Em 1997 também surgiu um dos principais Acordos internacionais que visavam minimizar os efeitos das atividades humanas no Planeta, o Protocolo de Kyoto. O documento, assinado por mais de 175 países, tinha como objetivo a redução das emissões de gases de efeito estufa à atmosfera. O protocolo, que entrou em vigor no ano de 2004, delineava compromissos a serem cumpridos entre 2008 a 2012 e posteriormente, entre 2013 a 2020.


Com a proximidade do fim da vigência do Protocolo de Kyoto, os países se reuniram novamente para estabelecer um novo Acordo. Em dezembro de 2015, durante a COP 21, foi então ratificado por 195 países o Acordo de Paris, com o objetivo de novamente de reduzir as emissões globais de gases do efeito estufa, porém com novas metas e compromissos.


Segundo a ONU, há previsão de que em 2030 as emissões de GEE alcancem a magnitude de 12 bilhões a 14 bilhões de toneladas além do que seria necessário para manter o aquecimento global na meta acordada no Acordo de Paris. A meta principal do acordo é frear o aquecimento em no máximo 2ºC e conseguir limitá-lo a 1,5ºC.


Também em 2015, os 193 Estados-membros da ONU se reuniram na sede em Nova Iorque para elaborar um plano de ação que abrangesse não somente a proteção do meio ambiente, mas também outras pautas relevantes como a erradicação da pobreza e fome zero. Após extensas negociações, foi criada a Agenda 2030 e adotados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), compostos por 17 objetivos e 169 metas, envolvendo temáticas diversificadas.


Apesar do Acordo de Paris e dos avanços obtidos com a criação dos ODS e estabelecimento de metas ousadas, houve retrocesso em algumas áreas. Segundo o último Relatório dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, lançado em 2020, houve um aumento da insegurança alimentar, da deterioração do meio ambiente natural e das persistentes e generalizadas desigualdades. A pandemia que se alastrou em 2020 ampliou ainda mais estas desigualdades, afetando principalmente as populações mais pobres e vulneráveis.


A ocorrência de lockdown afetou boa parte desta população que muitas vezes tira seu sustento de trabalhos presenciais, e precisam sair de casa para garantir a renda diária. Ainda para agravar a situação, uma boa parte desta população habita moradias nas quais inexiste saneamento básico apropriado, o que também contribui para a disseminação da pandemia. Há ainda inúmeros outros fatores agravantes, como a interrupção das atividades escolares presenciais, demissão em massa de trabalhadores e acesso dificultado ao sistema de saúde.


Diante deste cenário, a discussão da busca pelo desenvolvimento sustentável no contexto do modelo econômico capitalista também se mostrou presente no meio acadêmico. Daly (2) apontou que não é possível evitar a degradação ambiental através do crescimento econômico mundial ilimitado, e sua coexistência foi considerada contraditória e inviável (3). Para haver mudanças radicais, Barry (4) cita que a mudança em direção a uma sociedade verde de fato só ocorrerá por meio de engajamento da sociedade civil por meio de ativismo político.


Sachs (5) também considerou incompatível o desenvolvimento sustentável com o jogo sem restrições do mercado, defendendo uma combinação viável entre economia, ecologia e ciências sociais. Ignorar que em um dado momento a natureza não mais proverá os benefícios resultantes desse modo de crescimento econômico poderá acabar instalando uma crise ambiental de proporções planetárias (6).


E no cenário mais atual, de acordo com o Fórum Econômico Mundial (2019), a ameaça número 1 à Economia Global são as mudanças climáticas. O aumento da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera, em grande parte devido às atividades humanas, está aquecendo o planeta. Segundo o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), entre 1880 e 2012 a temperatura da Terra sofreu aumento médio de 0,85ºC.


Inúmeros eventos climáticos extremos também têm sido observados no mundo todo, como ondas de calor e temperaturas extremas, com recordes em dezenas de cidades em todos os continentes – um exemplo é a Europa, em que 2019 foi o ano mais quente já registrado. As temperaturas superficiais das últimas três décadas têm sido cada vez mais quentes do que as décadas precedentes desde 1850 (7).


Outros eventos cada vez mais frequentes são os tornados, furacões, ciclones, tufões e similares, que também estão 10% mais intensos, em média, no mundo todo (8). Alguns exemplos deste tipo de evento são os tornados Harvey, Hanna e Michael, tempestades Isaias, e Bertha, nos EUA; tornados Dorian nas Bahamas, Maria em Porto Rico, bem como tantos outros que também ocorrem nos oceanos e afetam tanto continentes quanto ilhas no meio dos oceanos.


O caráter extremo destes eventos, bem como a ocorrência de precipitações intensas em inúmeras regiões do globo, também provoca o problema das enchentes e inundações. Nos EUA, precipitações extremas estão acontecendo com 30% mais freqüência do que em 1948 (ocorrendo a cada 9 meses ao invés de 12) (9). Nas últimas duas décadas, as 10 maiores enchentes do mundo causaram mais de 165 bilhões de dólares em danos e retiraram 1 bilhão de pessoas de suas casas (10).


Além destes eventos, há muitas outras conseqüências derivadas das mudanças climáticas: secas extremas, danos ao cultivo agrícola (seja por seca ou por precipitação intensa), incêndios florestais (intensificados pela seca), acidificação dos oceanos, perda de infraestrutura (devido aos eventos cada vez mais intensos e freqüentes), extinção de espécies, derretimento do gelo, perda de ecossistemas, doenças infecciosas, elevação do nível do mar, entre outros.


É consenso entre vários cientistas que mudanças estratégicas e consideráveis devem ser realizadas para que os acordos climáticos, bem como as metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, sejam alcançados. Deve-se apostar não somente na transição da matriz energética – baseada em combustíveis fósseis para fontes de energia renovável, como a eólica e solar - mas também em repensar toda a forma de produção e consumo. Governos e organizações civis e não governamentais voltadas para o meio ambiente devem incluir a pauta climática no de suas atividades e se comprometer de fato com o que foi acordado em Paris, resultado de décadas de negociações intensas.


Outro fator que pode reverter este quadro é que as mudanças climáticas também vêm custando caro para governos, empresas e sociedade. Há custos vultosos envolvidos na recuperação dos danos causados por eventos climáticos extremos. O custo social atual estimado do carbono é de aproximadamente $50 por tonelada, o que muitos especialistas argumentam ser bem mais baixo do que o custo real da poluição do carbono (11). Um estudo em 2018 avaliou que aproximadamente $4 trilhões de ativos ligados aos combustíveis fósseis podem ser eliminados da economia global por meio de mudanças no emprego de tecnologia, mercados e hábitos sociais alternativos (12).


Adicionalmente, existe um grande risco para investidores se seus investimentos não estiverem alinhados às metas climáticas, o que é uma preocupação crescente entre muitos investidores em todo o mundo (13). No início de 2020 aproximadamente 1.200 instituições ao redor do mundo representando mais de $14 trilhões em gestão de ativos se comprometeram a retirar investimento de seus ativos ligados ao carvão, petróleo e companhias de gás (14). Investidores também vêm se manifestando publicamente que empresas desatentas aos elementos E.S.G. (em tradução livre, conjunto de medidas ambientais, sociais e de governança) ficarão para trás. Por outro lado, mais de 240 empresas multinacionais se comprometeram a transformar sua matriz energética para 100% renovável (15).


As pesquisas e implantação de energias renováveis estão em expansão, como por exemplo, as energias solar e eólica, que vêm se tornando as fontes mais baratas para geração de eletricidade para residências de pessoas em dois terços do mundo em 2019 (16). A tecnologia para utilização da energia solar existe desde a década de 70, mas sua capacidade cresceu significativamente nos anos recentes, puxado pela queda nos custos, apoio governamental contínuo e inovação tecnológica. A energia solar representa 57 por cento desta nova capacidade de renováveis (17). Já a capacidade global eólica alcançou quase 650 GW em 2019 (18). Espera-se que a capacidade de geração de energia eólica, com o aporte previsto de $3,3 trilhões em investimentos quadruplique até 2040 comparado à capacidade instalada em 2017 (19).


Pode-se concluir, portanto, que avanços estão ocorrendo e alcançando todos os setores da sociedade. Embora não de forma consensual, parte da humanidade parece estar percebendo que mudanças precisam ser feitas para que possa haver futuro com um planeta habitável para todos. Não há mais tempo para olhar o passado e discutir: já temos as metas internacionais, já temos comprometimentos e responsabilidades compartilhadas. Há muita discussão sobre um “novo normal” após a pandemia da COVID-19. Independente de como será esta retomada, ela precisa ser “verde”.



REFERENCIAS


CAVALCANTI, C. (Org). DESENVOLVIMENTO E NATUREZA: Estudos para uma sociedade sustentável. INPSO/FUNDAJ, Instituto de Pesquisas Sociais, Fundação Joaquim Nabuco, Ministerio de Educação, Governo Federal, Recife, Brasil. Outubro de 1994, 262 p. Disponível em> http://www.ufbaecologica.ufba.br/arquivos/livro_desenvolvimento_natureza.pdf


1 Nascimento, E. P. do. The trajectory of sustainability: From environmental to social, from social to economic. Estudos avançados ,26 (74), 2012.


2 Daly, Herman E. Crescimento sustentável? Não, obrigado. Ambient. soc. vol. 7 no. 2, Campinas July/Dec. 2004.


3 Santos, L. B.; da Silva, E. R. Desenvolvimento sustentável e capitalismo: uma coexistência contraditória. Revista de História da UNIABEU, Volume 5, Número 9, Julho - dezembro de 2015


4 Barry, J. (2006), ‘Resistance Is Fertile: From Environmental to Sustainability Citizenship’, in A. Dobson andmD. Bell (eds), Environmental Citizenship (Cambridge, MA: The MIT Press), pp. 21–48.


5 Sachs, I. A terceira margem: em busca do ecodesenvolvimento. Editora Companhia das Letras, 1ª Edição, 2009 .


6 Amorim, L. T.; Oliveira, I. P. As relações entre o surgimento da sociedade pós-industrial e a revolução ambiental In: Revista Faculdade Montes Belos, v. 4, n. 1, set. 2011.


7 Rajendra K. Pachauri et al., “Climate Change 2014: Synthesis Report,” Contribution to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge University Press, Topics 1 and 2 (November 2, 2014): 40-62. https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/05/SYR_AR5_FINAL_full_wcover.pdf


8 Environmental Protection Agency, “Climate Change Indicators: Heavy Precipitation,” last updated August 2016. https://www.epa.gov/climate-indicators/climate-change-indicators-heavy-precipitation


9 Travis Madsen and Nathan Willcox, “When It Rains, It Pours: Global Warming and the Increase in Extreme Precipitation from 1948 to 2011,” (Environment America Research & Policy Center, 2012). https://environmentamerica.org/sites/environment/files/reports/When%20It%20Rains,%20It%20Pours%20vUS.pdf


10 Emily Anthes, “A Floating House to Resist the Floods of Climate Change,” The New Yorker, January 3, 2018. https://www.newyorker.com/tech/elements/a-floating-house-to-resist-the-floods-of-climate-change


11 Environmental Defense Fund, “The true cost of carbon pollution,”. https://www.edf.org/true-cost-carbon-pollution


12 Makower, J. “The growing concern over stranded assets,” GreenBiz, September 10, 2019. https://www.greenbiz.com/article/growing-concern-over-stranded-assets


13 McKibben, B. “At last, divestment is hitting the fossil fuel industry where it hurts,” The Guardian, December 16, 2018. https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/dec/16/divestment-fossil-fuel-industry-trillions-dollars-investments-carbon


14 Fossil Free Divestment, “1000+ Divestment Commitments,”. https://gofossilfree.org/divestment/commitments/


15 RE100, “Companies,” last accessed July, 2020. http://there100.org/companies


16 Bloomberg New Energy Finance, “New Energy Outlook 2019,” (2019). https://bnef.turtl.co/story/neo2019?teaser=true


17 REN 21. Renewable Energy Policy Network for the 21st Century, “Renewables 2020 Global Status Report,” (2020). https://www.ren21.net/wp-content/uploads/2019/05/gsr_2020_full_report_en.pdf


18 WWEA - World Wind Energy Association, “World wind capacity at 650,8 GW, Corona crisis will slow down markets in 2020, renewables to be core of economic stimulus programmes,” April 16, 2020. https://wwindea.org/blog/2020/04/16/world-wind-capacity-at-650-gw/


19 Bloomberg New Energy Finance, “Global wind and solar costs to fall even faster, while coal fades even in China and India,” June 15, 2017. https://about.bnef.com/blog/global-wind-solar-costs-fall-even-faster-coal-fades-even-china-india/


Sites:


http://www.agenda2030.org.br/

https://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/presscenter/articles/2020/relatorio-da-onu-aponta-que-a-covid-19-esta--retardando--decadas.html

https://brasil.un.org/pt-br

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/estudos-e-notas-tecnicas/publicacoes-da-consultoria-legislativa/areas-da-conle/tema14/2013_24881.pdf

https://cbiologicas.jatai.ufg.br/n/50441-quinto-relatorio-do-ipcc-mostra-intensificacao-das-mudancas-climaticas?locale=en

http://www.espacoacademico.com.br/051/51goncalves.htm

https://www.ipcc.ch/

https://neofeed.com.br/blog/home/onda-sustentavel-faz-capitalismo-repensar-seus-vicios/

https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2019


114 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo