• Maíra Benchimol

Dispersão de sementes e conservação de ecossistemas

Por: Prof. Dra. Maíra Benchimol

Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) - Departamento de Ciências Biológicas (DCB) - Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação (LEAC)


Você já parou para pensar nos benefícios que a natureza nos oferece? A água limpa que bebemos, os alimentos que consumimos, a madeira que usamos, o fornecimento de oxigênio tão importante para nossa respiração, os lugares incríveis como cachoeiras que podemos desfrutar nos momentos de lazer... são diversos os serviços que a natureza nos oferece de forma gratuita! Estes serviços são conhecidos como serviços ecossistêmicos (ou serviços ambientais) e tem recebido cada vez mais atenção dos cientistas e da sociedade em decorrência da sua degradação devido a diversas atividades humanas. Dentre estes serviços ecossistêmicos fundamentais para nossa existência, a dispersão de sementes realizada pelos animais merece cuidadosa atenção, visto sua importância para fornecimento de alimento, madeira e até mesmo para regulação climática. Porém, diversas atividades humanas como o desmatamento e a caça têm levado muitas espécies responsáveis pela dispersão de sementes à extinção ou à uma forte redução populacional, com consequências prejudiciais para a manutenção desse processo. Por isso, muitos cientistas têm buscado compreender como as atividades humanas impactam a dispersão, a fim de propor ações de manejo e de políticas públicas que visem a manutenção deste processo e a conservação dos ecossistemas.


Mas o que é o processo de dispersão de sementes? Denomina-se de dispersão o movimento, propagação ou transporte de sementes para longe da planta-mãe. Esse processo é fundamental pois as plantas dependem de diversos agentes para transportar suas sementes ou propágulos (isto é, uma unidade de dispersão, que inclui a semente com outras estruturas) incluindo o vento, a água e os animais. Em florestas tropicais, como é o caso da nossa Mata Atlântica e da floresta Amazônica, entre 80 e 90% das sementes existentes são dispersas por animais. Exatamente, a ampla maioria! Estamos falando de insetos, como formigas e besouros, de mamíferos como os macacos, pequenos roedores e morcegos, além de muitas espécies de aves. Pois é, diversos são os animais responsáveis por espalhar as sementes em uma floresta, passo inicial para garantir o sucesso de estabelecimento em um determinado ambiente (outros fatores como luz, umidade e nutrientes vão ser decisivos no estabelecimento, mas a chegada é o primeiro passo!). E esse transporte para longe da planta-mãe é essencial para viabilizar este sucesso, visto que haverá menor competição e maior chance de estabelecimento dessa sementinha se tornar uma futura árvore.


Algumas sementes são dispersas por apenas um grupo limitado de espécies de animais, e em consequência, o desaparecimento deles no ambiente compromete o processo de dispersão daquela(s) espécie(s) de planta(s), podendo levar a longo prazo à extinção também da espécie de planta. Por exemplo, a castanha-da-amazônia (também conhecida como castanha-do-pará, Bertholletia excelsa) tem suas sementes dispersas pela cutia, um roedor de médio porte que como o próprio nome diz, gosta de roer uma semente. O fruto da castanheira (também conhecido como ouriço) é composto de diversas sementes, as nossas conhecidas (e saborosas) castanhas. A cutia é um roedor voraz, que consegue quebrar este pesado fruto (750 g, armazena entre 10 e 25 sementes, e não se abre espontaneamente) e transportar diversas sementes para longe da planta-mãe (ver Figura 1). Nesse processo, já foi documentado que a cutia consegue carregar estas sementes por até 1 km de distância! Acontece que a cutia é um animal guloso e esquecido: ela transporta várias sementes e as enterra para consumir posteriormente, porém ela se esquece do local que as enterrou. Isso permite que aquela sementinha esquecida possa ser germinada, e vire uma plantinha, e então possa se tornar um indivíduo adulto e produzir mais frutos. Agora imagine o que seria de uma floresta na Amazônia sem a cutia? Alguns macacos, como o macaco-prego, também são capazes de quebrar o fruto – porém muitos especialistas afirmam que o ouriço precisa estar mais velho (menos duro) para que eles consigam parti-lo. De toda forma, existe uma forte relação de interdependência entre a castanheira e mamíferos, assim como existem uma infinidade de exemplos com outras plantas e animais, com benefício mútuo para os dois grupos. A planta precisa do animal para ser dispersa e o animal precisa do fruto (ou semente) como alimento. E a floresta precisa desta intrínseca interação animal-planta para se manter em equilíbrio dinâmico e poder continuar se regenerando naturalmente. Todos saem ganhando ̶ plantas, animais e inclusive nós humanos, que dependemos diretamente dos alimentos e outros serviços ecossistêmicos vindos da floresta.



Figura 1. Cutia (Dasyprcota leporina) carregando um fruto da castanheira-da-Amazônia (Bertholletia excelsa) em uma floresta na Amazônia brasileira. Foto: Maíra Benchimol.



Porém, infelizmente, os seres humanos têm contribuído diretamente para o desaparecimento de importantes dispersores de sementes, prejudicando a si mesmo. Em um estudo publicado na prestigiosa revista Science por Dirzo e colaboradores (2014), foi demonstrado que florestas tropicais que perderam substancialmente a fauna que ali vivia, tiveram serviços ecossistêmicos severamente comprometidos, como é o caso da dispersão de sementes. Em um outro estudo publicado na Nature Communications (Gardner et al. 2019), os cientistas analisaram diferentes estudos feitos em florestas tropicais ao redor do mundo. Eles demonstraram que dois fatores foram decisivos para o desaparecimento dos animais dispersores: a caça e a fragmentação (divisão de floresta). Em ambientes florestais, a caça de animais silvestres é seletiva, ou seja, os caçadores possuem preferência por espécies de mamíferos e aves de grande porte devido à maior quantidade de carne obtida. No caso do desmatamento e fragmentação florestal, estudos também demonstram que algumas espécies são mais sensíveis do que outras, e novamente são inclusas nesse grupo espécies de grande porte, que muitas vezes são animais frutívoros, como o macaco-aranha e a anta. Acontece que estas espécies maiores são as que conseguem dispersar sementes grandes que são produzidas por árvores de grande porte em uma floresta. Logo, o desaparecimento de frutívoros de grande porte ou o acentuado declínio das suas populações (processo conhecido como defaunação) afeta diretamente o processo de dispersão de diversas sementes. Isso pode gerar efeitos ainda mais graves, como a alteração do funcionamento do ecossistema florestal e a provisão de outros serviços ecossistêmicos como fornecimento de madeira, estoque de carbono e regulação climática.


Os alimentos são importantes recursos que os seres humanos obtêm do processo de dispersão, porém existem vários outros benefícios que também obtemos por meio desse processo. A madeira, por exemplo, constitui um produto florestal essencial na vida contemporânea, sendo aquelas de maior dureza as que apresentam maior valor comercial (as chamadas ‘madeiras nobres’ ou ‘madeiras de lei’). E novamente, animais de grande porte são os agentes responsáveis por dispersar suas sementes. Jatobás e maçarandubas constituem madeiras nobres que só existem na natureza devido a dispersão realizada pelos grandes animais, como a anta e o macaco-muriqui. Ademais, espécies de árvores que apresentam madeira mais dura capturam e armazenam mais carbono da atmosfera, contribuindo para o equilíbrio térmico e sendo fundamentais para redução do aquecimento do planeta. Não é à toa que a Amazônia possui papel tão fundamental para regulação climática. Suas florestas milenares são formadas por árvores centenárias, muitas de grande porte e com madeira dura, que tanto contribuem para a retirada do carbono na atmosfera e sua estocagem. A existência de uma fauna diversa, formada por poderosos dispersores de sementes, viabiliza que estas sementes sejam transportadas a longas distâncias, possibilitando uma vasta diversidade de espécies de plantas. A Floresta Atlântica, por sua vez, já vem sofrendo com a perda de grandes animais dispersores, com consequências diretas no fornecimento de produtos madeireiros e estocagem de carbono. Cientistas simularam o futuro de remanescentes de Mata Atlântica na ausência dos grandes dispersores e revelaram uma redução na abundância das árvores grandes na medida que os animais de grande porte foram progressivamente extintos (Bello et al. 2015). Ou seja, além de banir o desmatamento e incentivar projetos de restauração para recuperar as florestas tropicais, as políticas ambientais também precisam alcançar uma visão mais ampla sobre a importância das interações bióticas para garantir a capacidade de estoque de carbono destes ecossistemas.


Conservar as florestas tropicais é sem dúvida um dos maiores desafios deste século. Com o aumento crescente da população humana, as áreas de floresta nativa estão sendo cada vez mais desmatadas para fins de urbanização, produção de alimentos via setor agropecuário, além de inúmeras obras de infraestrutura – todas atividades voltadas para atender as necessidades do ser humano. No entanto, precisamos mais do que nunca nos conscientizar e entender que sem florestas não haverá produtos e serviços essenciais para nossa permanência neste planeta. Mais ainda do que apenas florestas, precisamos da biodiversidade que ali reside, para desempenhar seus papéis ecológicos e garantir a manutenção de inúmeros bens e serviços das quais nos beneficiamos diretamente – como a dispersão de sementes! Felizmente a ciência avançou muito nas últimas décadas e hoje temos um bom conhecimento sobre como as atividades humanas impactam a sobrevivência de espécies e a manutenção de processos ecológicos essenciais. E também já temos conhecimento do que precisamos fazer neste momento para reverter esse cenário: formar paisagens adequadas à manutenção da biodiversidade e a humanidade. Além de manter a floresta em pé, é necessário restaurar áreas abandonadas e impedir que ações pervasivas como o fogo, a retirada de madeira e a caça aconteçam nesses ambientes. Uma outra ação bem importante é a reintrodução de animais dispersores de sementes em florestas onde eles já desapareceram ou onde suas populações são muito pequenas. Essas são ações fundamentais para que nós, como mais uma espécie existente no planeta, possamos continuar habitando a Terra por muito mais tempo.


Referências

Bello, C., Galetti, M., Pizo, M.A., Magnago, L.F.S., Rocha, M.F., Lima, R.A., Peres, C.A., Ovaskainen, O. and Jordano, P., 2015. Defaunation affects carbon storage in tropical forests. Science advances, 1(11), p.e1501105.


Dirzo, R., Young, H.S., Galetti, M., Ceballos, G., Isaac, N.J. and Collen, B., 2014. Defaunation in the Anthropocene. Science, 345(6195), pp.401-406.


Gardner, C.J., Bicknell, J.E., Baldwin-Cantello, W., Struebig, M.J. and Davies, Z.G., 2019. Quantifying the impacts of defaunation on natural forest regeneration in a global meta-analysis. Nature communications, 10(1), pp.1-7.




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