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A domesticação do Sapiens

Rodrigo Lima Massara, residente pós-doutoral no Programa de Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo da vida Silvestre da UFMG

Há cerca de 200.000 anos a nossa história começou na Terra. Na verdade, não a história humana, mas a história da espécie Homo sapiens. Nossa espécie, todavia, não estava só: fomos contemporâneos a pelos menos seis outras espécies do gênero Homo. Porém, comparada às demais espécies humanas, a nossa é apenas uma adolescente. A Homo erectus, por exemplo, foi a espécie que durante mais tempo permaneceu por aqui: foram longos 1,5 milhões de anos, comparados aos nossos 200.000 anos apenas.


O que fez com que multiplicássemos enquanto espécie no planeta? Vários fatores foram responsáveis. O tamanho do nosso cérebro foi um deles? Não, apenas o tamanho do cérebro não seria suficiente para explicar o aumento da nossa distribuição no planeta. Aliás, os indivíduos de outra especies humana, H. neanderthalensis, por exemplo, possuíam cérebros muito mais avantajados do que os nossos. Um dos aspectos importantes foi a nossa forma peculiar e detalhada de criar e transmitir informações, o chamado “efeito fofoca”. Um tipo de capacidade única de comunicação, que culminou na Revolução Cognitiva, há cerca de 70.000 anos. Naquela época ainda éramos caçadores-coletores, ou seja, nossa dieta consistia dos animais que caçávamos e dos frutos que coletávamos. Além disso, éramos nômades porque nossa permanência em um determinado local dependia da disponibilidade dos itens que consistiam nossa dieta: quando esses escasseavam, mudávamos para outro local de maior disponibilidade.


Outra adaptação importante que surgiu em nossa espécie há cerca de 12.000 anos foi a de que naquela época iniciamos a domesticar as plantas e os animais. Resultou disso a desnecessidade de não mais vivermos como nômades. Essa época marcou a chamada Revolução Agrícola. Mas por que esta domesticação foi importante para o sucesso da nossa espécie? Na verdade, durante o tempo que éramos caçadores-coletores, nossa dieta era muito mais variada, já que comíamos tudo que era palatável e possível de coletar e caçar. Quando começamos a domesticar as plantas e os animais, comíamos somente o que estava disponível de recursos vegetal e animal. Inicialmente, de recursos vegetal e animal, por exemplo, era praticamente trigo e ovelhas, respectivamente. Mas com a nossa fixação, em um território específico para o plantio, a Revolução Agrícola permitiu com que tivéssemos mais filhos, para poderem auxiliar no trabalho diário com a terra. Isso fez com que a nossa população crescesse de um pouco mais de 1 milhão para dezenas de milhões de pessoas.


Porém, com o aumento do número de pessoas vivendo juntas, e que desfrutavam de uma dieta relativamente mais pobre, começaram a aparecer vários tipos de doenças. As populações começaram a ser acometidas por infeções e pandemias, que existiam em número e variedades muito menores do que na época em que éramos caçadores-coletores. Entretanto, com o passar do tempo fomos descobrindo formas de evitar algumas doenças, até que outro fato ocorreu: a Revolução Científica. Esta andou de mãos dadas com as grandes guerras para a conquista de novos territórios europeus no séc. XV e XVI. Os monarcas financiavam as inovações tecnológicas que melhorassem a eficiência dos armamentos e também, muito importante para o objetivo de conquistar novos territórios e seus recursos, as tecnologias para o aprimoramento das embarcações que resultassem em uma navegação mais rápida e eficente. Entretanto, na tripulação de cada navio europeu havia também acadêmicos que adentravam nos territórios colonizados para descobrir novas espécies de plantas e animais, além de diferentes tipos de cultivos e minerais que pudessem ser explorados. A conquista e ampliação dessas novas fronteiras levavam a novos conhecimentos, como por exemplo, medicamentos originários a partir de certas plantas com efeitos medicionais curativos.


Podemos dizer que desde então ocorreram e ainda vão ocorrer outras Revoluções Científicas. Um bom exemplo, é a atual Revolução Científica que estamos vivendo no século XXI, a chamada “design inteligente”, que se opõe à evolução darwinista. Em outras palavras, a seleção natural está sendo substituída pelo design inteligente, onde o H. sapiens deliberadamente altera as leis naturais da biologia, seja por meio da engenharia biológica (i.e., implantando um gene em uma espécie biológica), da engenharia cyborg (i.e., construindo seres que combinam partes orgânicas e inorgânicas), ou da engenharia de vida inorgânica (i.e., programas de computador que podem sofrer evolução independente a partir de uma inteligência artificial). Fato é que o desenvolvimento científico foi primordial para que passássemos de cerca de 500 milhões de H. sapiens em 1.500 para quase 8 bilhões em 2020. Um crescimento exponencial assustador, não é? Hoje, a biomassa (em toneladas) da nossa espécie combinada à das espécies domesticadas, principalmente boi, porco e galinha, ultrapassa a biomassa somada de todas as espécies nativas dos demais vertebrados (com exceção, talvez, dos peixes marinhos e de água doce somados). Mas para onde as próximas Revoluções Científicas irão nos levar? Afinal, quem domesticou quem?


Durante o tempo que éramos caçadores-coletores, tinhamos liberdade de locomoção porque não dispunhamos de domicílios fixos. Passávamos muito menos tempo caçando e coletando e, portanto, havia tempo de sobra para dialogarmos (ou fofocarmos) com os outros membros do grupo. Não havia ansiedade, pois não nos preocupávamos com o futuro. Se não tivesse mais recursos alimentares disponíveis, bastaria encontrar outro local de maior disponibilidade. Quando domesticamos as plantas, começamos a passar muito mais tempo no trabalho de preparar a terra para a colheita, e a nos preocupar com o futuro. A chuva precisava vir para molhar as plantas, mas não poderia ser uma chuva muito intensa que exterminasse toda a plantação e, consequentemente, toda a cultura de trigo que alimentaria os integrantes da vila. Bem, naquela época não existia previsão do tempo.


Hoje, durante nosso almoço, comemos uma comida que sequer sabemos a origem precisa e, ao mesmo tempo, resolvemos um problema do serviço usando um smartphone iOS ou Android. Enquanto isso, à noite, não temos mais tempo para dialogarmos com familiares e amigos porque comumente ficamos ansiosos e angustiados para resolver um problema do trabalho para o dia seguinte. Enquanto isso, comemos alimentos de baixo valor nutritivo e, que em excesso, prejudica nossa saúde, como uma pizza ou um hambúrguer, pois é “fast food”.


Novamente retorno à pergunta: quem domesticou quem?

Texto inspirado no livro de Yuval Noah Harari intitulado "Sapiens - Uma breve história da humanidade". L&PM Editores, 2015

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