• Ricardo Iglesias Rios

Desenvolvimento Sustentável I: ilusão ou peça de marketing.


Por: Ricardo Iglesias Rios

Professor visitante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Bolsista FAPERJ


Em 1972 o Clube de Roma publica o livro Limites do Crescimento (The Limits to Grow). Esse livro foi feito por um grupo de 13 pesquisadores do MIT, coordenado pelo Dr. Dennis L. Meadows. A base das conclusões se estabeleceu com o auxílio de modelos matemáticos que respaldaram as previsões de quais seriam as condições do planeta Terra em 1930. A principal conclusão ou a que mais incomodou o mundo dos negócios, mostrava claramente que o crescimento econômico ilimitado seria impossível ou o crescimento econômico exponencial, baseado no consumo exponencial de energia e outros recursos naturais não renováveis, seria inviável. As conclusões do livro foram criticadas por grupos diferentes de pesquisadores e também defendidas por muitos cientistas. Apesar das discrepâncias, muitos trabalhos publicados no séc. XXI tem mostrado que a degradação ambiental está dentro das previsões feitas em 1972 no relatório do MIT.


Como resposta aos resultados propalados pelo Clube de Roma, em 1987 surge um livro, Nosso Futuro Comum (Our commom future). Uma iniciativa da ONU que reuniu um enorme grupo de políticos e poucos cientistas, comandado pela primeira ministra da Noruega, a médica Gro Harlem Brundtland. Nesse livro é enfatizada a ideia de desenvolvimento sustentável, basicamente “é o tipo de desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de que as futuras gerações possam atender as suas próprias necessidades”. O livro elenca dezenas de prescrições que permitiriam esse tipo de desenvolvimento, mas poucas dessas prescrições estão apoiadas em evidências científicas, parecem prescrições baseadas na boa vontade dos países. Mas, no geral, a mensagem desse livro, de que é possível que o crescimento econômico possa prosseguir desde que seja sustentável, foi muito bem recebida por todos os setores produtivos da economia, por alguns economistas das grandes universidades. bem como pelo Wall Steet Journal e pela inglesa The Economist.


Pelo relatório do MIT de 1972, a Terra era representada como uma bola que estava prestes a explodir, mas naquele momento fizeram um pequeno furo nessa bola (crise do petróleo 1973) e ela perdeu pressão. Na década 63/73 a taxa média anual de emissões de CO2 foi de 5,1%, em 74/83 com a crise foi de apenas 1,07%, subindo nas duas décadas seguintes para 1,51% e 2,30% respectivamente. Nessas quatro décadas a taxa média anual de crescimento econômico mundial (PIB) foi 5,06%, 2,97%, 2,95% e 3,44% respectivamente. A regressão entre esses valores de emissões de CO2 e PIB é estatisticamente significativa e mostra um R2 = 0,98. Embora a amostra seja muito pequena (n=4) aqui há uma evidência de uma correlação entre crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) e as emissões de CO2. (mais detalhes abaixo).


Neste texto não vou entrar nas discussões metodológicas dos dois livros citados, muitas delas contaminadas por interesses econômicos muito poderosos. Para isso, o leitor poderá acessar o site da Nature onde há um artigo do jornalista científico Quirin Schiermeier (2018) que conclui o seguinte: As previsões sóbrias dos anos 1970 sobre o destino da Terra, continuam [hoje] muito verdadeiras.


A questão mais dramática do capitalismo, além da urbanização crescente, está no fato de que o crescimento econômico está fortemente correlacionado às emissões de CO2, como mostrado no gráfico abaixo.

Figura 1 – Taxa de crescimento das emissões de CO2 e crescimento econômico medido com Produto Interno Bruto (PIB). Existe uma correlação estatisticamente significativa entre as duas variáveis com um coeficiente de determinação R2 = 0,80. Os valores de 2020 são estimativas. Dados do World Bank e Organização das Nações Unidas.


A Figura 1 merece alguns comentários. Primeiro deve ser interpretada com cautela pois existem muitas variáveis que afetam o crescimento econômico e não são consideradas no cálculo da regressão. Segundo é a impressionante rapidez da resposta da variação das emissões de CO2 com a variação nos valores do PIB. No ano de 2020, em função da pandemia do Covid-19, as emissões de C02 caíram cerca de 7% (dados preliminares) e o PIB mundial simultaneamente caiu cerca em 6% em média.


Há ainda uma questão mais preocupante que as comentadas acima. Trata-se da concentração de CO2.na atmosfera. Em 2019 essa concentração era de 415 ppm (partes por milhão), mas em 2020, apesar da redução de 7% das emissões de CO2 devida a redução do uso de combustíveis fósseis, a concentração aumentou para 417 ppm. Há duas explicações possíveis para esse aumento: primeiro as emissões derivadas de combustíveis fósseis foram reduzidas, contudo os incêndios florestais aumentaram muito em 2019/2020. Só no Brasil foram queimados mais de 11.000 km2 da floresta amazônica, além de extensas áreas do Pantanal e do Cerrado. Além disso há um outro problema, esse bem mais grave: a permanência na atmosfera do CO2 é de 50 ou 80 anos. Isso quer dizer o seguinte: se hoje zerarmos as emissões de CO2 nos próximos 50 anos os efeitos dessa acumulação continuarão presentes. Muitas pessoas sempre argumentam que os avanços tecnológicos poderão resolver esses problemas. É possível que isso possa ocorrer, contudo a pergunta é: teremos tempo suficiente para esperar esses avanços? Creio que não, considerando o trabalho de James Lovelock, uma espécie de Don Quixote do século XX, autor da hipótese Gaia.


Lovelock desde os anos 80 foi muito criticado pela academia em função da hipótese Gaia. Ele é um bom cientista? Minha resposta é sim; é um dos grandes do século passado, publicou 34 trabalhos científicos só na revista Nature, conheço poucos cientistas que conseguiram essa façanha. Em 1994 publicou um trabalho, naturalmente na Nature, onde abordava uma questão da ecologia de populações (Lovelock & Kump 1994). Nesse trabalho os autores criaram um modelo matemático para acompanhar a evolução da temperatura da Terra face ao aumento da concentração de CO2. O modelo mostrou-se muito robusto, havendo leves aumentos da temperatura da Terra até que a concentração de CO2 na atmosfera atingiu 500 ppm. Nesse momento a temperatura aumentou subitamente cerca de 6oC. Nessas condições, a temperatura dos oceanos aumentando apenas de 3oC a camada superficial (até 50 metros) terá sua densidade muito reduzida formando uma poderosa termoclina que impedirá a água das zonas mais profundas emergir. Como é essa água que traz os nutrientes que alimentam o fitoplâncton, esses organismos simplesmente desaparecerão. Isso seria uma espécie de desertificação instantânea dos oceanos. A concentração de CO2 na atmosfera já atingiu 417 ppm, quando se espera que chegaremos aos fáticos 500 ppm, tudo depende das emissões, contudo as perspectivas são entre 10 e 12 anos.


As tecnologias para implementar de forma significativa energias limpas vão demorar de 20 a 30 anos, isso sendo muito otimista (Iglesias-Rios 2019). Um fato dos mais curiosos e significativos ocorreu com a Vale do Rio Doce, aquela de Mariana e Brumadinho, que criou uma diretoria de desenvolvimento sustentável, veja só.... Uma distribuidora de combustíveis fósseis diz em suas peças de marketing que está colaborando para o desenvolvimento sustentável da Pátria Amada Brasil, o mesmo ocorre com alguns bancos brasileiros. Dá para acreditar em desenvolvimento sustentável?


Desenvolvimento sustentável II

Na atualidade, os três segmentos da economia que geram empregos são a agricultura, a indústria e os serviços. Com o avanço tecnológico nos países desenvolvidos, a agricultura oferece 3% dos empregos, a indústria 17% e o segmento serviços é responsável por 80% da oferta de empregos. Essa oferta tão elevada de empregos só é possível quando a maior parte da população de um país está urbanizada. Em todos os países de mundo a taxa de urbanização das populações vem aumentando sistematicamente, chegando a valores superiores a 80% em na maioria dos países desenvolvidos. Mesmo na China, um país historicamente ligado a agricultura, em 2019 a população urbana já atingiu os 60%. A urbanização crescente no mundo, como diria Kant, é uma espécie de “imperativo categórico” do sistema capitalista. Esse quadro tende a se agravar com os avanços tecnológicos, a agricultura e principalmente a indústria oferecerão com o passar do tempo cada vez menos empregos.


No final do século passado dois ecólogos canadenses, Wackernagel e Rees (1996), criaram um método capaz de medir de forma aproximada a capacidade suporte do ambiente. Essa capacidade é o nível de utilização de recursos naturais dos ecossistemas, suficientes para garantir a vida da populações. O método consiste em contabilizar a área ocupada pelos ecossistemas terrestres e marinhos necessária para o funcionamento de cidades ou países. Essas áreas são calculadas como a quantidade de hectares que contém os recursos necessários para a manutenção das populações. Essa “contabilidade” recebeu o nome de pegada ecológica (PE) ou no inglês “footprint”, e normalmente se expressa em hectares globais per capita por ano (gha/pc), das pastagens, florestas, áreas agrícolas, áreas de pesca, áreas construídas, estoques pesqueiros e áreas para o sequestro de gás carbônico. Uma segunda medida muito importante é a biocapacidade (BC). Se PE mede a quantidade de recursos consumidos, BC mede a quantidade de recursos ecológicos produzidos em uma cidade ou país.


Um exemplo vai ajudar a esclarecer o cálculo da PE e BC. A PE do mundo é 2,7 gha/pc. Multiplicado pela população mundial de 2011 teríamos uma PE de 18,9 X 109 hectares. A BC do mundo em 2011 foi calculada em 12,6 X 109 hectares incluindo as áreas para absorver o CO2. Fazendo as contas, seria necessário que tivéssemos 1,5 planetas Terra. Há um caso ainda pior, o ser humano médio dos EUA tem uma pegada ecológica de 8,2 gha/pc em função do seu estilo de vida. Vamos supor que desejamos que esse estilo de vida do americano médio seja disponibilizado para toda população mundial, logo a PE seria 8,2 gha/pc multiplicando pela população mundial 1,2 X 109 teríamos uma PE de 59,04 X 109 hectares, com a BC da Terra de 12,6 X 109 seriam necessários 4,8 planetas Terra para que toda a população mundial tivesse o padrão de vida do americano médio (Iglesias 2019 cap. 7).


Os cálculos da PE têm recebido críticas de diferentes cientistas, apesar disso esse cálculo pode nos fornecer uma boa aproximação do que está acontecendo no nosso Planeta, e as perspectivas não são boas. Jared Diamond um importante biólogo americano, em seu livro Colapso, faz uma pergunta muito interessante: O que acontecerá com os povos dos países pobres quando descobrirem que seus respectivos países jamais atingirão o padrão de vida dos países ricos e que esses países não estão dispostos a renunciar ao seu padrão de vida?


Depois das eleições americanas (de 2016), o presidente eleito Donald Trump reunião os assessores econômicos e do meio ambiente. Aqui vou criar o diálogo que se estabeleceu entre os participantes:


Trump – Senhores, meu antecessor cujo nome não deve ser mencionado colocou a nossa nação no acordo climático de Paris em 2015, comprometendo-se a reduzir as emissões de CO2 e ainda contribuir com milhões de dólares para um fundo de pesquisas para desenvolver energia limpa.


Assessor do meio ambiente (AMA) – É uma boa descrição dos acontecimentos, presidente.


Trump – Se isso for feito quais minhas chances de ganhar a próxima eleição?


Assessor econômico (AEC) – Bem senhor presidente, a redução das emissões inevitavelmente provocará a queda do PIB para valores negativos nos próximos anos, gerando desemprego e redução dos salários. As chances de ganhar uma eleição seriam próximas de zero.


Trump – Bem, mas todos os países do mundo assinaram o acordo. Eles também terão problemas econômicos, certo?


AMA – Bem, não é bem assim. Vejamos o caso da Arábia Saudita: cresce a 4% ao ano graças a exportação de petróleo. A Rússia cresce um pouco menos, mas sua economia depende da exportação de petróleo e gás natural para a Europa. Há ainda China, a segunda economia do mundo e o maior emissor de gás carbônico, em função da sua matriz energética na qual 35% vem do carvão. Não há como obrigar esses países a respeitarem o acordo de Paris.


Trump – Mas a ONU não pode fazer nada?


AEC - Bem senhor presidente, um outro antecessor seu invadiu o Iraque contra as disposições legais de ONU e não aconteceu nada com ele nem com os EUA. A ONU tem um conselho de segurança que pode aprovar sanções a qualquer país, mas nesse conselho de 15 países existem cinco membros permanentes, um único país desses cinco pode vetar qualquer resolução da ONU, mesmo se aprovada por 291 países. É bom lembrar que entre os países com capacidade de veto estão a Rússia e a China, além dos EUA, Reino Unido e França.


Trump – Senhores então está decidido, os EUA vão se retirar do acordo climático de Paris e, além disso, não darei um tostão, digo um único dólar, para o fundo de pesquisas. America first.


Todos em uníssono: America first again.



O desenvolvimento sustentável é impossível em um sistema econômico que deve crescer eternamente de forma exponencial. O desenvolvimento sustentável se transformou em uma peça de marketing para enganar as pessoas. A Vale do Rio Doce, hoje Vale S.A., criou uma diretoria com o nome Diretoria de Investimento Social, subordinada à Diretoria Executiva de Sustentabilidade e Relações Institucionais, que reunirá os projetos socioculturais da empresa, e a Fundação Vale. A Vale é uma das maiores mineradores do mundo e a mineração é uma espécie de câncer para o meio ambiente. O câncer é bom não esquecer, mata (Iglesias 2019).


Bibliografia

Clube de Roma/MIT. 1972. Meadows D.H. Meadows D.l., Randers, J. Behrens III., W.W. The Limits to Grow. Universe Books, New York


Iglesias-Rios R. 2019. Capitaloceno a era da barbárie. Yelow Carbo Design e Publishing. Rio de Janeiro.


Lovelock,J.E., Kump, L. 1994. Failure of climate regulation in a geophysiological model. Nature volume 369: 732-734



Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common Future. 1987. https://sustainabledevelopment.un.org/content/documents/5987our-common-future.pdf


Wackermangel, M., Rees, W. 1996. Urban Ecological Footprints: Why Cities Cannot Be Sustainable And Why They Are A Key To Sustainability. Environ Impact Assesess Rev. 16:223-248. Elsevier Scienc, New York, NY.

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