• José Ricardo Assmann Lemes

Proteger os animais é bonito! E proteger os animais que nem sempre são considerados bonitos?


Por: José Ricardo Assmann Lemes

Biólogo pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)

Mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Doutorando em Ciências Biológicas (Entomologia) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)



A importância da conservação dos insetos.


Vocês já ouviram falar sobre espécies bandeiras? Pode ser que alguns de vocês nunca tenham escutado essa expressão, mas se eu der alguns exemplos tenho certeza que pelo menos sobre um deles vocês já escutaram. Arara-azul, onça-pintada, tamanduá-bandeira e, é claro, o mico-leão-dourado, são exemplos de algumas espécies bandeiras brasileiras.

Posso dizer que é consenso entre os biólogos que um dos principais responsáveis pela extinção de espécies na natureza é a destruição de seus hábitats. Espécies bandeiras são espécies de animais que funcionam como um tipo de “garoto propaganda” para suas áreas de ocorrência natural. Dessa forma, o conceito de espécie bandeira visa escolher alguma espécie ameaçada de extinção e tentar conscientizar a população humana de que a destruição de seus hábitats vai levar ao desaparecimento dessa espécie. Ao se proteger o hábitat de uma espécie bandeira ocorre o chamado efeito guarda-chuva na biologia da conservação: todas as outras espécies que habitam aquele local demarcado como área de ocorrência da espécie bandeira também estarão protegidas.

Certo. Tudo maravilha. Mas eu gostaria de perguntar se vocês notaram alguma particularidade em comum entre as espécies que eu citei ali em cima como exemplos de espécies bandeiras. Se não encontrarem a semelhança, eu ajudo vocês. Todos os animais citados representam vertebrados e, por sinal, muito carismáticos. São animais de fácil apelo pelo público geral. A famosa “fofofauna”.

Agora darei outra informação importante para vocês. Vocês sabiam que os insetos representam mais de 70% de todos os seres vivos conhecidos pela ciência? Eu falei todos os seres vivos, ou seja, incluo aí não só os demais animais, mas também as plantas, os fungos e todos os demais microrganismos. Mas se os insetos são tão diversos como eu estou afirmando, por que eles geralmente não são citados em programas de conservação como espécies bandeiras, por exemplo?

Acho que já sabem a resposta para essa última pergunta. Eles não representam o que eu chamei anteriormente de “fofofauna”. Pelo contrário, insetos quase sempre são “marginalizados” por meio de estereótipos negativos. Alguns picam e causam alergias, são feios, nojentos, venenosos e transmitem doenças. Se vir um inseto em sua frente, melhor mata-lo!


Enfim, a hipocrisia. Os insetos, apesar dessa má fama, são criticamente essenciais para a manutenção de toda a vida na Terra. A realidade muitas vezes omitida é a de que a maioria dos ecossistemas terrestres viria a sucumbir sem a presença dos insetos.


Nossa, que exagero! Será? Vamos aos fatos. A esmagadora maioria das espécies de plantas que existe em nosso planeta depende de polinização, um serviço ecossistêmico que na maioria das vezes é realizado pelos insetos. As abelhas são as grandes queridinhas quando se fala em polinização, mas outros insetos como borboletas, moscas, mosquitos e besouros também participam desse processo. E não é só para plantas das vegetações naturais que os insetos são importantes polinizadores. A maioria das plantas alimentícias cultivadas pelos seres humanos, por exemplo, depende de insetos para polinizá-las.


Apenas com o que disse no parágrafo anterior já deveria ter convencido a todos vocês sobre a importância dos insetos. Mas podemos continuar. Vocês já ouviram falar sobre decomposição da matéria orgânica? Tenho certeza que sim. A decomposição é um processo natural no qual a matéria orgânica é reduzida a partículas cada vez menores e que são disponibilizadas para o meio ambiente, num processo de ciclagem de nutrientes. Ciclagem, pois é um ciclo: essas partículas vão servir como nutrientes para outros organismos que, quando morrerem, vão reiniciar todo o processo. As bactérias e os fungos são os principais decompositores que temos no planeta, mas eles não trabalham sozinhos. Os insetos são essenciais nesse processo que, assim como a polinização, é totalmente necessário para a manutenção da vida na Terra.


Legenda: Durante seu mestrado, o biólogo José Ricardo e outros pesquisadores descobriram e descreveram uma nova espécie de borboleta endêmica ao cerrado brasileiro. A espécie, batizada de Aricoris emeryi, apesar de ter sido descoberta recentemente, provavelmente já corre risco de extinção. O conhecimento científico é um dos primeiros passos para a conservação dos seres vivos. Fonte: Lemes et al. (2020).



Por exemplo, quando folhas e galhos caem dentro de rios e lagos, as larvas de várias espécies de insetos aquáticos se alimentam desse material. Ao fazer isso, esses insetos em suas formas imaturas (antes de virarem adultos) liberam os nutrientes presentes no vegetal para o ambiente aquático. Vamos com outro exemplo? Os cupins são muitas vezes odiados por invadirem residências e destruírem móveis. Entretanto, quando estão em áreas naturais, os cupins também são responsáveis por decompor matéria vegetal e, consequentemente, promover a ciclagem de nutrientes no solo. Até as odiadas baratas, insetos tidos como asquerosos pelas pessoas, são importantes decompositores globais, já que estão presentes em praticamente todos os locais do planeta.


Insetos também possuem importâncias negativas do ponto de vista humano. Alguns são pragas dentro de ambientes agrícolas, causando prejuízos econômicos na agricultura, como algumas espécies de mariposas, gafanhotos e besouros. Outros são responsáveis pela transmissão de doenças, como o famoso mosquito-da-dengue e o barbeiro, inseto vetor da doença de Chagas. Mas esses exemplos representam apenas uma mínima parcela dos insetos. A maioria, como eu demonstrei nos parágrafos anteriores, fazem parte dos “mocinhos”. Insetos servem de alimento para animais maiores e são importantes na manutenção do solo e vegetação. Alguns insetos são ainda o que chamamos de bioindicadores, ou seja, a presença desses invertebrados em determinados ambientes indica a qualidade “da saúde” desse ambiente. As libélulas são um bom exemplo de insetos bioindicadores que indicam a qualidade de ambientes aquáticos.


Ok, já dei vários exemplos sobre a importâncias dos insetos. Agora, para nos dirigirmos ao final desse texto, tenho uma notícia triste para compartilhar. Diversos estudos científicos publicados nos últimos anos têm demonstrado que os insetos estão desaparecendo! As maiores ameaças à perda da biodiversidade dos insetos são semelhantes àquelas afetando outros organismos, como mudanças climáticas, espécies invasoras e perda de hábitats naturais, sendo essa última a principal causa do declínio desses invertebrados incríveis.


Vocês conseguem mensurar o tamanho desse problema? Insetos são fundamentais para a vida não só do homem, mas para a maioria das outras espécies de nosso planeta. São simplesmente fundamentais para o equilíbrio ecológico dos diferentes ecossistemas que vivem. Então, sabendo da importância deles e que eles estão correndo perigo, o que podemos fazer para protegê-los?


Um ponto essencial aqui é o conhecimento. Só conseguimos proteger aquilo que conhecemos. Comparando com animais vertebrados, como por exemplo as aves e os mamíferos, os insetos são extremamente pouco estudados e conhecidos. Basta consultar revistas científicas especializadas na publicação de descrições de espécies novas como, por exemplo, a revista da Nova Zelândia chamada de Zootaxa, provavelmente a principal revista atuando dentro desse escopo atualmente: descrição de espécies novas de animais. Praticamente todos os dias que essa revista libera seus artigos científicos publicados encontramos descrições de espécies novas de insetos.

Ué, mas se encontramos descrições de espécies novas quase todos os dias, como posso dizer que eles são pouco estudados? É justamente pelo fato de estarmos sempre descobrindo espécies novas de insetos que demonstra o quão desconhecidos eles são. A descoberta de espécies novas de vertebrados é relativamente menos frequente quando comparada com a descoberta de espécies novas de insetos (na verdade de invertebrados, de uma maneira geral). Logo, incentivar a pesquisa científica envolvendo insetos é um dos primeiros passos que podemos fazer para lutar contra o declínio dos insetos na natureza.


Por exemplo, recentemente publiquei um artigo científico na Zootaxa, junto com outros pesquisadores, no qual descrevemos uma espécie nova de borboleta endêmica ao cerrado brasileiro. Quando eu digo endêmica, quero dizer que essa espécie de borboleta, que batizamos de Aricoris emeryi¸ só pode ser encontrada no cerrado. Ela é inexistente em qualquer outro lugar do mundo. Só que o cerrado é um dos biomas mais ameaçados do Brasil, principalmente por causa da conversão dos solos em monoculturas de soja, além do uso abusivo de pesticidas. É muito provável que a espécie Aricoris emeryi, descrita apenas no ano passado (2020), já se encontre em risco de extinção. Entretanto, agora que já sabemos da existência dessa espécie, poderemos pensar em ações para protegê-la. Caso um dia ela fosse considerada uma espécie bandeira, por exemplo, através do efeito guarda-chuva, que expliquei no começo desse texto, ela iria ajudar a proteger todas as demais espécies que ocupam os mesmos ambientes que ela no cerrado.


Além de incentivar a pesquisa científica, citarei três outras medidas que poderemos tomar para proteger os insetos:

- Governos em todos os níveis (local, regional, nacional e mundial) precisam promover políticas para a preservação e restauração de hábitats para proteger as espécies de insetos mais vulneráveis. Além disso, preservar rios, lagos e outros sistemas de água doce é fundamental, já que muitos insetos utilizam-se desses locais pelo menos em parte de seus ciclos de vida.

- A utilização de pesticidas químicos, degradação do solo e a conversão do habitat natural em agricultura podem ser minimizados ou substituídos pela agricultura regenerativa e agroecologia. A utilização de abordagens mais sustentáveis, como o manejo integrado de pragas e métodos orgânicos na agricultura devem ser incentivados.

- Ampliar projetos educacionais que esclareçam à população sobre a importância dos insetos e de seus serviços ecológicos prestados é fundamental para que as pessoas se conscientizem. É o que tentei fazer ao escrever esse texto.


Referências:

Kawahara, A.Y.; Reeves, L.E.; Barber, J.R. & Black, S.J. 2021. Eight simple actions that individuals can take to save insects from global declines. PNAS, v. 118, 1-6. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2002547117

Lemes, J.R.A.; Callaghan, C.J. & Kaminski, L.A. 2020. A new species of Aricoris Westwood, 1851 (Lepidoptera: Riodinidae) from the Neotropical Cerrado savanna. Zootaxa, v. 4786, p. 409-416. DOI: https://doi.org/10.11646/zootaxa.4786.3

Sánchez-Bayo, F. & Wyckhuys, K.A.G. 2019. Worldwide decline of the entomofauna: A review of its drivers. Biological Conservation 232: 8-27. DOI: https://doi.org/10.1016/j.biocon.2019.01.020



Legenda: Durante seu mestrado, o biólogo José Ricardo e outros pesquisadores descobriram e descreveram uma nova espécie de borboleta endêmica ao cerrado brasileiro. A espécie, batizada de Aricoris emeryi, apesar de ter sido descoberta recentemente, provavelmente já corre risco de extinção. O conhecimento científico é um dos primeiros passos para a conservação dos seres vivos. Fonte: Lemes et al. (2020).


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