• Ciência em Ação

Algumas notas sobre interações ecológicas, zoonoses e doenças contagiosas

Por: Felipe A. P. L. Costa [*]



Interações ecológicas são inevitáveis.


Dois fatos sustentam a afirmativa acima. Primeiro. Nenhum ser vivo é autossuficiente. Todo e qualquer recém-nascido depende de fontes externas de matéria e energia para construir e manter o seu corpo. Segundo. Não há vazios nem vácuos ecológicos na natureza. Todo e qualquer organismo nasce, cresce e vive em um mundo previamente ocupado por outros organismos.


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De um ponto de vista antropocêntrico, costumamos dividir o mundo vivo em duas partes desiguais.


Um primeiro grupo, relativamente pequeno, mas fortemente estruturado, abriga aqueles indivíduos coespecíficos com os quais nós mantemos laços mais ou menos coesos e duradouros (pais, irmãos, filhos etc.). O segundo grupo, bem mais frouxo, heterogêneo e numeroso que o primeiro, reúne as espécies com as quais nós habitualmente interagimos. Os organismos aí incluídos representam basicamente recursos (e.g., plantas usadas na alimentação), além de inimigos naturais (e.g., vírus e outros patógenos) e competidores (e.g., pragas agrícolas).


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Adotando uma perspectiva ecológica mais ampla, podemos olhar para o mundo vivo e pensar em populações e comunidades.


Populações são agrupamentos de indivíduos coespecíficos que vivem em um mesmo hábitat (ou em uma rede de hábitats interconectados). Vale notar que nem todos os integrantes de uma dada população interagem entre si do mesmo jeito ou com a mesma intensidade, sobretudo em populações que ocupam uma extensa área de distribuição.


Em sentido amplo, comunidades podem ser definidas como agregados de populações de espécies distintas que vivem em um mesmo hábitat (ou em uma rede de hábitats interconectados). Ocorre que nem todas as espécies que vivem em um mesmo hábitat interagem de modo sistemático e significativo. Uma definição mais rigorosa, portanto, diria que uma comunidade é formada por populações de espécies distintas que vivem juntas e interagem entre si. Um lago e um fragmento de floresta, por exemplo, abrigam um sem número de populações. E abrigam não apenas uma, mas inúmeras comunidades. Para decidir quem participa ou não de uma dada comunidade, não basta examinar a proximidade física; é necessário também saber um pouco mais sobre as interações entre as populações ali presentes [Nota 1].


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A vida no interior das comunidades é regida pelas interações.


Interações ecológicas, no entanto, independem de encontros ou de contato físico. Veja: encontros breves e fortuitos estão a ocorrer o tempo todo. Ocorre que a maioria deles é desprovida de implicações na vida dos envolvidos. Por sua vez, algumas das interações mais intensas e relevantes ocorrem por vias indiretas, sem que os envolvidos sequer se encontrem. É o que acontece no caso de interações que são mediadas pela exploração de uma base comum de recursos ou por meio de uma terceira espécie (e.g., um predador que se alimenta de duas espécies de presas).


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Vejamos um exemplo.


Considere duas espécies, X e Y, que se alimentam do néctar das flores de uma dada espécie de planta. Basta que X seja um animal de hábitos diurnos e Y, um animal noturno, para que as duas espécies sequer se encontrem. Ainda assim, no entanto, as duas populações podem interagir de modo sistemático e significativo, cada uma delas tendo um tremendo impacto na vida da outra. Veja: se a produção de néctar é limitada e se o consumo implica em diminuição do suprimento disponível para consumo futuro, a presença de X terá um impacto negativo sobre Y, assim como Y terá um impacto negativo sobre X. (Em casos assim, sempre que uma das espécies é removida – para fins experimentais, por exemplo –, a espécie remanescente tende a passar por uma fase de apreciável crescimento populacional.)


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No cômputo final, as interações significativas (tanto em termos ecológicos como evolutivos) são aquelas que têm algum impacto (positivo ou negativo) sobre um ou mais componentes da aptidão (e.g., crescimento, longevidade, fertilidade) dos envolvidos. No caso mais simples, quando apenas duas espécies são levadas em conta, as diferentes combinações possíveis podem ser arranjadas em três categorias: mutualismo (+/+), competição (–/–) e exploração (+/–).


Uma interação é dita mutualística quando o seu efeito sobre as duas espécies é mutuamente positivo (e.g., promovendo o crescimento individual ou o crescimento numérico das populações). Quando o efeito é mutuamente negativo, como foi o caso do exemplo dos visitantes florais citado acima, diz-se que a interação é competitiva. Por fim, sob o rótulo genérico de exploração, reunimos aqui aquelas interações que são parcialmente antagônicas: a interação tem um impacto positivo sobre uma das espécies e negativo sobre a outra. É o que acontece no parasitismo, por exemplo, e na predação [Nota 2].


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Um parasito é um organismo que obtém seus nutrientes de um ou de uns poucos hospedeiros individuais, normalmente provocando dano, mas sem causar morte imediata. Quando um parasito coloniza um hospedeiro, diz-se que este abriga uma infecção. Se a infecção ocasiona sintomas claramente prejudiciais ao hospedeiro, diz-se que este tem uma doença [Nota 3].


Doenças causadas por parasitos são genericamente referidas como parasitoses e os parasitos que provocam tais doenças são genericamente referidos como patógenos. O atributo organismo patogênico, no entanto, não é algo que seja invariável e universal. Um parasito que é patogênico quando infecta a espécie A, pode não ter o mesmo efeito quando infecta B. Além disso, um parasito pode ser patogênico apenas em determinadas circunstâncias (e.g., quando o hospedeiro já abriga outros parasitos).


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Ao menos 1.415 diferentes organismos infecciosos causam ou podem causar doenças em seres humanos [Nota 4]. A maioria (61%) dessas parasitoses é de origem zoonótica (leia-se: quando os seres humanos contraem a infecção por meio de algum animal previamente infectado). Entre as novas doenças infecciosas que estão a surgir, este percentual é ainda maior: 75% das doenças emergentes são de origem zoonótica.


A Covid-19 é uma doença emergente de origem zoonótica, embora ainda se discuta a identidade do reservatório natural do vírus (SARS-CoV-2) [Nota 5]. Exemplo clássico e famoso de zoonose é a raiva (e.g., cães e gatos infectados podem transmitir a doença). Trata-se igualmente de uma virose. (Seu agente etiológico é um vírus do gênero Rhabdovirus.) Mas o agente etiológico das zoonoses nem sempre é um vírus. Pode ser uma bactéria, um fungo, um protozoário ou um verme [Nota 6].


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Zoonoses podem ser disseminadas por vias diretas ou indiretas. No primeiro caso estão as doenças contagiosas e as infecções provocadas pela ingestão do parasito. No caso das doenças contagiosas, diz-se que a transmissão é direta porque indivíduos sadios são infectados ao entrarem em contato (íntimo ou não) com algum indivíduo previamente infectado (doente ou não). (Embora não estejamos aqui a tratar especificamente delas, não custa lembrar: as infecções sexualmente transmissíveis, como a gonorreia, a sífilis e a Aids, também são apropriadamente rotuladas de contagiosas.)


No caso da disseminação indireta, a transmissão do parasito depende da presença de uma terceira espécie, referida como vetor. Não há contágio. O que ocorre é uma triangulação: em decorrência dos seus hábitos de vida, o vetor estabelece uma conexão entre hospedeiros infectados (doentes ou não) e hospedeiros sadios (coespecíficos ou não). Febre amarela, dengue e doença de Chagas são exemplos de zoonoses cuja disseminação depende da ação de um vetor [Nota 7].


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Notas.


[*] Biólogo e escritor; autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2ª edição, 2014), O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017) e O que é darwinismo (2019). Para informações adicionais, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal de qualquer um desses livros, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui. Versão anterior deste artigo foi publicada no Jornal GGN, em 30/7/2020.


[1] Certas comunidades parecem ignorar a barreira física mais ou menos óbvia que muitos observadores julgam enxergar entre hábitats descontínuos (e.g., a interface entre um lago e a vegetação de terra firme em torno dele) – ver, e.g., Knight, TM & mais 4. 2005. Trophic cascades across ecosystems. Nature 437: 880-3.


[2] Para detalhes e referências a respeito dos primeiros parágrafos, ver o meu O que é darwinismo (Edição do autor, 2019).


[3] Para detalhes e discussões adicionais, ver Begon, M & mais 2. 2007. Ecologia, 4ª ed. Porto Alegre, Artmed.


[4] Ver Taylor LH & mais 2. 2001. Risk factors for human disease emergence. Philosophical Transactions of the Royal Society of London B 356: 983-9; sobre doenças emergentes, ver Garrett, L. 1995. A próxima peste. RJ, Nova Fronteira.


[5] A doença do coronavírus 2019 (Covid-19) pode ser descrita como um tipo bastante agressivo de pneumonia. Os primeiros casos foram registrados em Wuhan (~11 milhões de habitantes), a capital da província chinesa de Hubei. O agente etiológico é o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), um vírus não envelopado de fita simples de RNA, referido anteriormente como 2019-nCoV ou WHCV. O SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido capaz de infectar seres humanos; SARS-CoV, MERSCoV e SARS-CoV-2 podem causar doenças graves, enquanto HKU1, NL63, OC43 e 229E estão associados a sintomas leves – ver Andersen, KG & mais 4. 2020. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicine 26: 450-2.


A Covid-19 é uma doença contagiosa e, assim como ocorre com outras viroses respiratórias (e.g., gripe), compartilhar espaços fechados representa o maior risco de infecção – ver Qian, H & mais 5. 2020. Indoor transmission of SARS-CoV-2. doi: https://doi.org/10.1101/2020.04.04.20053058.


Em 2002-2003, o SARS-CoV já havia provocado uma epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês). A pandemia atual seria o terceiro caso em 20 anos de transbordamento (spillover, na terminologia em inglês) envolvendo um coronavírus capaz de infectar seres humanos. O termo é usado quando um patógeno (vírus etc.) transborda de um hospedeiro para outro, o que em geral ocorre via consumo (e.g., o novo hospedeiro se alimenta ou passa a se alimentar do antigo). Estudos e alertas a respeito do fenômeno não são novos – ver A próxima peste, citado na nota 4; para detalhes técnicos, ver Madigan, MT & mais 3. 2010. Microbiologia de Brock, 12ª ed. Porto Alegre, Artmed; para uma revisão recente, ver Plowright, RK & mais 6. 2017. Pathways to zoonotic spillover. Nature Reviews Microbiology 15: 502-10.


[6] Para exemplos e discussões detalhadas, ver Tortora, GJ & mais 2. 2006. Microbiologia, 8ª ed. Porto Alegre, Artmed; e Ray. L. 2008. Parasitologia, 4ª ed. RJ, Guanabara Koogan. Ver ainda as referências citadas na nota 5.


[7] Dípteros culicíneos, nos dois primeiros casos, e percevejos triatomíneos, no último. Sobre culicíneos e triatomíneos, ver Ray (2008), citado na nota 6. Para diferenciar os culicíneos (e.g., Stegomyia, Aedes e Culex) de outros culicídeos (e.g., Anopheles), ver Consoli, RAGB & Oliveira, RL. 1994. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. RJ, Fiocruz.


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