• Ciência em Ação

Invasões Biológicas - Complicações e Possíveis Medidas de Combate à Introdução de Espécies Exóticas

Por: Ana Carolina Ferreira

Bacharela e Licenciada em Ciências Biológicas – UNESP – Rio Claro – SP


Aedes aegypt, javalis (Sus scrofa), capim-gordura (Melinis minutiflora), mexilhão-dourado (Limnoperma fortunei), abelha do mel (Apis mellifera), capim-braquiária (Urochloa sp.), coral-sol (Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis), coronavírus (SARS-CoV-2), são apenas algumas espécies da imensa gama de organismos exóticos, que se tornaram invasores de diferentes ecossistemas ao redor do mundo. Todas elas, em diferentes escalas, vêm causando impactos negativos para a conservação da biodiversidade e, também, para a manutenção dos diferentes meios de subsistência humana, bem como alimentação e saúde.

Estas espécies foram introduzidas, intencional ou acidentalmente, em locais diferentes das suas regiões de ocorrência natural, configurando diferentes formas de invasão biológica. Estes processos de invasão ocorrem quando há a ampliação da área de ocorrência natural de uma espécie que apresenta altas taxas de reprodução e dispersão. A introdução de espécies exóticas resulta em cenários de desequilíbrio ecológico, em sua maioria, irreversíveis, de altas taxas de perda de biodiversidade em diferentes ecossistemas em todo o mundo segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA).


Richardson et al (2000), definiram invasão biológica e os fatores para que uma espécie se torne invasora: (I) Uma espécie, qualquer que seja, deve primeiro ultrapassar barreiras geográficas, ampliando sua área de ocorrência natural tornando-se uma exótica. (II) Em seguida quando as barreiras reprodutivas e dispersoras são rompidas, a espécie torna-se capaz de reproduzir e dispersar sua descendência, tornando-se naturalizada. (III) A terceira etapa, seria a de ultrapassar as barreiras ambientais e/ou naturais; caso a espécie supere qualquer uma destas, é finalmente considerada uma espécie invasora. Como é possível notar neste estudo, a transformação de uma espécie exótica em invasora não é tão simples, é preciso que essa supere muitas etapas para que se torne efetivamente uma espécie invasora.


No entanto, ultrapassar tais barreiras não é um processo irreversível: fatores como flutuações climáticas, por exemplo, podem levar certos táxons a extinções locais ou regionais e também permitir que sobrevivam e se espalhem, e é nestes momentos que surgem os maiores problemas em relação à introdução de espécies exóticas. Exóticas invasoras são consideradas a segunda maior causa de extinção de espécies no planeta, superadas apenas pela perda de habitats, sendo atualmente a maior ameaça à integridade dos ecossistemas naturais, afetando diretamente a biodiversidade, a economia e a saúde humana.


A introdução de exóticas é uma prática milenar, que provavelmente existe desde os primórdios da humanidade quando os povos nômades, durante seus deslocamentos, levavam consigo diferentes organismos por longas distâncias, de maneira consciente ou não. No entanto, ao longo da história o ser humano desenvolveu diferentes necessidades de comunicação, novas experiências culturais e mudou sua forma de se alimentar. Com essa mudança de hábitos, a própria sedentarização dos povos fez com que certas espécies necessárias para suprir suas necessidades fossem transportadas de um ponto a outro do globo, haja vista as grandes navegações em busca de especiarias, tecidos, animais exóticos.


Essas mudanças no modo de vida da grande maioria das comunidades humanas, em paralelo a novos ideais econômicos, como a constante produção de bens e serviços, fez com que mesmo a transição do estilo de vida nômade para o estilo de vida sedentário não impedisse que estas espécies continuassem a ser dispersas pelo globo, mas ao contrário, contribuíram para difundir esta prática. Com o desenvolvimento tecnológico, que permitiu deslocamentos mais rápidos e eficientes, a ação antrópica intensificou os processos de invasões biológicas a medida que se fortaleceu o comércio em níveis internacionais. Desta forma, hoje diversas espécies exóticas apresentam importância econômica, com a venda de animais exóticos como pets, ou no melhoramento genético de gramíneas forrageiras, podendo dificultar a comunicação entre setores da pesquisa, da política e da economia para o combate das invasões biológicas.


Posto isto, a questão da introdução de exóticas não é recente, porém só vem sendo interpretada como um problema de fato há poucas décadas. Já no século XIX, Darwin havia percebido que a presença de certas espécies exóticas poderia ter consequências negativas, mas foi somente em 1958 com a obra de Charles Elton – The Ecology of Invasions by Animals and Plants – que a “Ecologia das Invasões” teve seu marco inicial.


A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), tratado internacional que cuida da proteção da diversidade biológica em cada um dos países signatários, assinada em 5 de junho de 1992, durante a Eco 92 no Rio de Janeiro, estabeleceu que cada parte envolvida deve impedir a introdução, controlar ou erradicar as espécies exóticas que ameaçam ecossistemas, habitats e espécies. Embora outros momentos de discussão já estivessem acontecendo, o marco nacional sobre a temática foi em 2005 com o 1º Simpósio Brasileiro de Espécies Exóticas Invasoras, promovido pelo MMA. Neste evento foi feito um diagnóstico listando 190 espécies exóticas invasoras (EEI), e a partir de então o MMA passou a elaborar informes sobre a situação das EEI no Brasil. Estas iniciativas tiveram reflexo na Lei de Crimes Ambientais, noSistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - LEI 9.985/2000), na Política Nacional de Meio Ambiente em geral, colocando a introdução de exóticas como crime ambiental.


Em 2018 foi criado o Plano de Implementação da Estratégia Nacional que anualmente monitora e fiscaliza as ações contra EEI e os motivos pelos quais elas possam não ter sido executadas são avaliados, analisando os detalhes, seus prazos e os atores envolvidos nos processos. Associados à estratégia nacional estão três planos de prevenção, erradicação, controle e monitoramento de EEI, no entanto, todos relativos à invasão de fauna (javalis, coral-sol e mexilhão-dourado). Sobre a invasão de espécies da flora ainda há uma grande lacuna a ser preenchida.


O Programa Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção - Pró-Espécies, instituído pelo MMA, por meio da Portaria Nº 43, de 31 de janeiro de 2014 visa cumprir a Meta 12 da Convenção sobre Diversidade Biológica, meta que objetiva até 2020, evitar a extinção de espécies ameaçadas e melhorar a sua situação de conservação. Esta iniciativa em parceria com o ICMBio, tem como resultados o Guia de Manejo de EEI, associado a uma instrução normativa (IN nº 6/2019) que regula este processo; o trabalho na priorização do papel das unidades de conservação para o estabelecimento de um sistema de alerta e de detecção precoce de EEI. E, além disso, tem o desenvolvimento de um guia de orientações para empreendedores e gestores de meio ambiente sobre EEI, que informa sobre o processo de licenciamento para empreendedores, trazendo a legislação relacionada, e uma explicação sobre a prevenção, a detecção precoce e a resposta rápida aos processos de invasão. Estes guias também apresentam fichas de controle por espécies e grupos, um modelo para registro do manejo e um modelo de projeto para controle.


Mesmo que estejam sendo tomadas medidas de combate às EEI, ainda há muito trabalho pela frente, principalmente pela dificuldade em compreender os mecanismos adaptativos destas espécies e seu comportamento. Ainda sabe-se muito pouco sobre como uma determinada espécie exótica vai se comportar diante da mudança de ambiente ou das atividades humanas, e também como estas mudanças na distribuição podem afetar as interações interespecíficas entre a biota nativa, as exóticas e as ações humanas, que poderiam gerar novos impactos. Deste modo, sob o cenário de mudanças ambientais, não há projeções quantitativas de como as invasões biológicas seguirão nas próximas décadas.


Atualmente, há muito esforço de pesquisa dedicado a compreender as trajetórias históricas de acumulação de espécies exóticas, seus impactos e os fatores subjacentes, no entanto falta uma avaliação e compreensão dos potenciais futuros impactos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, existe pouca conscientização pública sobre a importância deste tema, o que propicia o sucesso da introdução de espécies exóticas invasoras em diferentes biomas. Com isso o número de espécies exóticas só vem crescendo em todo o mundo. O estudo global “Drivers of future alien species impacts: An expert‐based assessment”, publicado este ano na Global Change Biology mostra um crescimento de 20% a 30%.


E por que é tão difícil avaliar estes impactos futuros?


Segundo este mesmo estudo, as invasões biológicas, bem como tantos outros aspectos das mudanças globais, são complexas e dependentes do contexto em que se encontram (local, condições climáticas, temperatura, umidade). Por isso, a limitada disponibilidade de dados impede o desenvolvimento de modelos gerais que ajudem a prever os futuros impactos destas espécies, principalmente porque é preciso considerar área de distribuição, período de tempo, diferentes tipos de habitats e um grande número de espécies exóticas distribuídas em diferentes táxons. Portanto, os impactos causados por espécies exóticas sobre a biodiversidade e nos meios de subsistência humana diferem entre as regiões invadidas, o que complica uma avaliação generalizada e uma projeção dos impactos. Essa dependência de contexto afeta e dificulta amplamente os esforços de manejo coordenado das invasões biológicas entre regiões e escalas.


Então, como agir? Com o que sabemos!


Em 2009 foi elaborada pela Câmara Técnica Permanente Sobre Espécies Exóticas Invasoras, a Estratégia Nacional sobre EEI, que passa a considerar as EEI em um âmbito mais amplo. Afinal estas espécies apresentam alta capacidade competitiva e disputam por recursos com as espécies nativas das comunidades invadidas, afetando de diferentes maneiras a saúde humana, os setores agrícolas, a economia, o meio ambiente e a biodiversidade.


Esta estratégia traz como preceito a necessidade da articulação entre os diversos órgãos e setores da sociedade, bem como governos federal, estadual, municipal, sociedade civil e inclui a cooperação internacional, para que de fato seja possível lidar com o problema das espécies exóticas invasoras. Os pontos estratégicos para manejar estas espécies em campo são: a coordenação intersetorial, iniciativas internacionais, trabalhar a infraestrutura legal, gerar conhecimento sobre as EEI, educação e sensibilização da população e capacitação técnica. Assim a fórmula para este problema é a união do comitê interministerial com a câmara técnica permanente através de uma abordagem hierárquica governamental (Federação, Estados, Municípios) para que a prevenção, a detecção precoce e a ação emergencial levem à erradicação, ao controle e ao monitoramento de EEI. (Veja esquema a seguir)



Ilustração elaborada pela autora

Este é o plano para que as unidades da federação possam reconhecer as espécies presentes em seus territórios, saibam os danos que estas possam causar e então tomem as medidas adequadas e necessárias para o controle das EEI, focalizando na redução dos prejuízos causados e do número de espécies exóticas invasoras.


Assim que for detectado o estabelecimento de uma EEI, os Estados devem agir individual e cooperativamente, adotando etapas apropriadas como erradicação, contenção e controle para mitigar os efeitos adversos por ela causados. As técnicas para promover tais ações devem ser seguras para os seres humanos, para o meio ambiente e para a agricultura, além de aceitáveis pelos interessados nas áreas afetadas. Outro ponto a se considerar é a adoção destes métodos nos primeiros estágios da invasão, quando as populações ainda são pequenas e localizadas. Lembrando que, de acordo com a política e legislação nacional, pessoas ou entidades responsáveis pela introdução de EEI devem assumir os custos das medidas de controle e restauração, quando comprovadas falhas no cumprimento das leis.


Para que o controle seja efetivo, este dependerá do alcance das técnicas integradas de manejo como controle mecânico, químico, biológico e manejo do habitat, executadas de acordo com os códigos nacionais e internacionais, combinando sempre a detecção precoce e a capacidade de rápida tomada de decisão.


O desenvolvimento de modelos para prever os impactos futuros de espécies exóticas é um grande desafio devido às complexas interações implícitas às invasões biológicas. O que se sabe com certeza em relação aos processos de invasão é que quanto mais se demora no combate às EEI, mais difícil fica resolver o problema, aumentando os custos do manejo e as dificuldades de contenção. Assim a melhor maneira de trabalhar é agir o mais rápido possível com as informações e instrumentos conhecidos.


Portanto, em relação ao manejo da biodiversidade, a aplicação do manejo adaptativo é a melhor medida. E quanto ao combate das EEI, este tipo de manejo se dá pelo estabelecimento de metas e alvos para a conservação; pela identificação e priorização das invasoras que ameaçam estas metas; pela elaboração de planos de manejo; pela aplicação de técnicas de controle e, por fim, pelo monitoramento e avaliação dos impactos das ações, revisando e modificando tais medidas ao passo que seja necessário atribuir melhorias aos métodos.


Por fim, sabe-se que há estratégias estabelecidas e conhecimento mínimo para se iniciar o manejo das EEI, porém é essencial a educação e informação pública por meio da incorporação do tema aos currículos escolares e profissionais, informando ao público em geral sobre a temática relativa às EEI. Tão logo sejam desenvolvidas campanhas de conscientização pública para questões menores e em grande escala explicando o que são EEI, quais os problemas causados ao meio ambiente, à saúde humana e à economia, e exemplificando de que forma as pessoas podem contribuir para a mitigação destes problemas, mais eficaz será o envolvimento da sociedade civil neste processo como um todo e mais eficientes se tornarão as ações contra EEI.


Referências para a construção desse texto e para ter mais informações:


Estudo global aponta crescimento de invasões biológicas https://minasfazciencia.com.br/2020/08/04/estudo-global-aponta-crescimento-de-invasoes-biologicas/


O que Aedes aegypt, javalis e coronavírus têm em comum? https://minasfazciencia.com.br/infantil/2020/07/20/o-que-aedes-aegypt-javalis-e-coronavirus-tem-em-comum/


Drivers of future alien species impacts: An expert‐based assessment https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.15199 Jornada da Flora Debate Espécies Exóticas Invasoras em Unidades de Conservação https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/2020/09/jornada-da-flora-debate-especies-exoticas-invasoras-em-unidades-de-conservacao/

Simpósio discute sobre espécies exóticas invasoras no Brasil https://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2005/10/04/21124-simposio-discute-sobre-especies-exoticas-invasoras-no-brasil.html


As invasões biológicas no mundo globalizado https://revistabioika.org/pt/editorial/post?id=4


Plantas invasoras: representatividade da pesquisa dos países tropicais no contexto mundial http://web01.ib.usp.br/lepac/conservacao/Artigos/invasoras.pdf


Espécies Exóticas Invasoras: Situação Brasileira https://www.mma.gov.br/estruturas/174/_publicacao/174_publicacao17092009113400.pdf#:~:text=As%20Esp%C3%A9cies%20Ex%C3%B3ticas%20Invasoras%20s%C3%A3o,economia%20e%20a%20sa%C3%BAde%20humana.


Estratégia Nacional Sobre Espécie Exóticas Invasoras https://www.mma.gov.br/estruturas/174/_arquivos/anexo_resoluoconabio05_estrategia_nacional__espcies__invasoras_anexo_resoluoconabio05_174.pdf


Especies Exoticas Invasoras: Diagnostico y bases para la prevencion y el manejo https://www.researchgate.net/publication/257966848_Especies_Exoticas_Invasoras_Diagnostico_y_bases_para_la_prevencion_y_el_manejo


Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras https://www.icmbio.gov.br/cbc/images/stories/Publica%C3%A7%C3%B5es/EEI/FOLDER_-_Estrat%C3%A9gia_Esp%C3%A9cies_Ex%C3%B3ticas_Invasoras_folder_v1_1.pdf

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