• Rogério Parentoni

O MISTÉRIO DOS VAGALUMES


G. Wilson Fernandes & Marcel S. Coelho



A vida no Planeta Terra evolui em fina sintonia com alguns fenômenos astronômicos, como o movimento de rotação e translação da terra diante do sol e os ciclos lunares. O fotoperíodo influencia o congelamento e o degelo de lagos, as correntes marinhas, as amplitudes térmicas dos ecossistemas, índices pluviométricos dentre outros fatores. Tais variações determinam processos biológicos dos animais como comportamentos migratórios, reprodutivos assim como seus metabolismos. Por exemplo, algumas espécies são diurnas enquanto outras são noturnas. Portanto, as espécies estão adaptadas a um intervalo de condições dentro dos quais sobrevivem. Um bom exemplo é o fenômeno de migrações realizadas por aves que podem cruzar os hemisférios em busca de situações mais favoráveis a seus processos reprodutivos. O Homo sapiens não é exceção, somos animais diurnos e parte do nosso sistema endócrino depende da presença de luz. A luz é indiretamente um forte estimulante do hormônio cortisol, produzido pelo córtex das glândulas adrenais e que desempenha a importante função de nos mantermos despertos e ativos, além de atuar no metabolismo dos lipídios. Estes ciclos se enquadram na categoria de ciclos circadianos. A ciência que tenta desvendar estes ciclos é chamada de cronobiologia.


Por outro lado, a humanidade vem alterando a iluminação natural de forma gradual. Antes de Thomas Edson e da Revolução Industrial, a iluminação artificial era possível por meio da queima de carvão vegetal, óleos e outros. Devido à rusticidade dos métodos de obtenção de luz, a alteração da luminosidade natural era limitada, sendo considerada de baixa escala ou impacto. Com o advento da luz elétrica (1879), o crescimento demográfico da humanidade e o avanço tecnológico na obtenção de energia, a alteração na luminosidade natural se tornou uma grande preocupação para os cientistas. Não demorou muito para que o termo poluição luminosa surgisse. Por poluição luminosa entende-se qualquer alteração do padrão natural claro-escuro ambiental. O termo é utilizado usualmente para indicar o resultado da soma de milhares e milhares de pequenas fontes luminosas presentes em adensamentos humanos. O fenômeno é conhecido como brilho no céu “sky glow”. A luz por fenômenos de refração e reflexão se espalha na atmosfera e ofusca até mesmo a capacidade de observação de estrelas em áreas sob forte iluminação. Além do brilho no céu, a exposição direta à fonte luminosa e o ofuscamento leva às alterações no sistema endócrino dos seres humanos e animais, causando distúrbios comportamentais.


Em geral, as altas taxas de poluição luminosa estão associadas ao grau de industrialização e desenvolvimento econômico da região. Os locais mais industrializados são também os mais populosos. Mais de 62% da população mundial vive em locais com níveis de iluminação acima do ideal. Aproximadamente 75% da população de ambas as regiões convivem com noites mais claras que noites de lua cheia, independente dos ciclos lunares. O Brasil não está livre deste fenômeno sendo o sudeste a região com maiores índices de poluição luminosa.


Com exceção de algumas populações tradicionais, a interrupção dos padrões claro-escuro para a humanidade se estabelece cada vez mais. Há evidências de correlações entre estímulos luminosos e conseqüências para a saúde de alguns mamíferos, incluindo o ser humano. A forte exposição à luz correlaciona-se com profundas alterações nas taxas metabólicas resultando em obesidade, diabetes tipo II, doenças cardíacas, câncer de mama, dentre várias outras desordens.


Para o meio ambiente os impactos da poluição luminosa são gigantescos. Entretanto, a nossa ignorância neste assunto é assustadora. Por exemplo, mosquitos culicídeos - transmissores de dengue, febre amarela e malária, entre outras doenças - quanto para Lutzomyia (transmissores da leishmaniose) são atraídos pela luz. Alterações da relação claro-escuro podem influenciar negativamente rotas migratórias de aves noturnas que se desorientam quando suas rotas atravessam áreas muito iluminadas. Em 1954, 50.000 aves morreram quando seguiram um farol da força aérea americana (Warner Robins Air Force Base, Georgia) e voaram direto para o chão. Adicionalmente, a reprodução das aves é controlada pelo fotoperiodo; o aumento artificial do dia pode induzir alterações hormonais, fisiológicas e comportamentais, alterando comportamentos reprodutivos. A desorientação mais conhecida é a sofrida pelas tartarugas marinhas. Quando seus ovos eclodem, os filhotes direcionam-se para o mar orientados pela claridade do horizonte, em contraste com as escuras áreas continentais. Entretanto, em áreas afetadas pela poluição luminosa, os filhotes de tartarugas ficam desorientados e podem percorrer um caminho oposto.São inúmeros os exemplos nos quais os filhotes terminam mortos em áreas extremamente antropizadas.


Em áreas fortemente iluminadas são inúmeros os relatos do desaparecimento dos vagalumes e pirilampos. Em várias regiões do mundo vagalumes são cada vez mais escassos. As fêmeas dos vagalumes atraem os machos a até 45m de distância com flashes de bioluminescência. Entretanto, a presença de luz artificial reduz o seu poder bioluminescente, prejudicando a comunicação e, portanto, reduzindo a reprodução das espécies de vagalume.


Em relação à flora, os principais efeitos são que certas espécies deixam de florescer se a duração da noite é mais curta que o período normal, enquanto outras florescem prematuramente como resultado da exposição ao fotoperíodo necessário para o florescimento. A desorientação de abelhas, por lâmpadas incandescentes e fluorescentes e a diminuição dos insetos que realizam a polinização de certas plantas pode afetar a produção de cultivos. Na Nigéria, as chamas das torres que queimam ininterruptamente o gás antes da extração do petróleo, atraem as mariposas noturnas que polinizam os campos de mandioca, exterminando-as, impactando os serviços de polinização de cultivos. Consequentemente, há perdas adicionais para as já empobrecidas populações humanas.


Existem sérias implicações da poluição luminosa na dinâmica de toda a comunidade e potencial de atingir proporções ecossistêmicas. Há registro da invasão de milhões de besouros rola bosta que são atraídos pela iluminação de postes em cidades do norte de Minas Gerais. No interior da floresta amazônica, milhares de pequenos lepidópteros atraídos de dezenas de quilômetros de distância formam gigantescos turbilhões ao redor de refletores de minerações e saciam seus predadores morcegos e lagartos (Figura 1 e 2). Embora o efeito da poluição luminosa sobre os ecossistemas já seja relativamente conhecido, não se tem ouvido falar da necessidade do entendimento do impacto das luzes que operam à noite em áreas remotas. Os efeitos podem ser gigantescos e estar contribuindo para a crise mundial do desaparecimento dos insetos e consequentemente impactando a vida de todos nós no presente e principalmente no futuro próximo.




Figura 1. Turbilhão formado por centenas de milhares de indivíduos de micro-lepidopteros ao redor de holofotes atraídas dos confins da floresta adormecida na Amazonia (Mineração Rio do Norte, Porto Trombetas, Pará).




Figura 2. Cansadas do vôo ininterrupto, milhares de indivíduos descansam sobre a vegetação, onde agora, livres das centenas de morcegos predadores, vítimas de répteis e famintos anfíbios.


Casos como esses suscitam antigas discussões de temas diametralmente opostas resumidos em conservação x progresso. Diante do conhecimento acumulado sobre as conseqüências ambientais desse grave problema, a sociedade deve reagir e exigir normas específicas para atividades que causam poluição luminosa. Apesar do mundo já acumular mais de 700 leis impondo normas sobre a poluição luminosa, existem apenas três leis no Brasil. Uma portaria do IBAMA de 1995 referente à proteção de tartarugas marinhas, e duas leis municipais de Campinas e Caetés que normatizam a proteção a observatórios contra a poluição luminosa. Não somente legislações são necessárias, mas também a previsão do impacto da poluição luminosa causada por novos empreendimentos sobre a biodiversidade e efeitos diretos na população humana.



Sugestão de leitura:


http://darksky.org



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