• Amanda Vieira da Silva

Os bichos não fazem o que você quer, e agora?

Por Amanda Vieira da Silva

Doutoranda em Evolução e Diversidade (UFABC)

Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre (UFMG)

Graduada em Ciências Biológicas (UNIFESP)


Durante meu mestrado escolhi estudar canibalismo sexual numa espécie de aranha bastante comum, Trichonephila clavipes (popularmente conhecida como aranha da teia dourada). Provavelmente você já a viu por aí. Ela faz teias grandes, redondas e que ficam amarelas / douradas no sol. Li alguns artigos que mencionavam o comportamento de canibalismo sexual nessa espécie e pensei: “que massa, quero entender melhor os fatores que levam as fêmeas dessa espécie de aranha a canibalizarem os machos”. Pensei em diversas hipóteses (que são possíveis respostas para uma pergunta) e em vários jeitos de testá-las. Além disso, antes de ir para campo, estudei bastante sobre o assunto e comecei a escrever a introdução e os métodos. Meu projeto estava lindo e maravilhoso e estava plena para executá-lo.


Comecei o trabalho em campo ainda em dezembro, quando as aranhas estavam começando a nascer. Normalmente, as fêmeas nascem em dezembro e os machos a partir do meio de janeiro. Mesmo ainda sem a presença de machos, essa etapa foi importante para determinar que o local escolhido teria aranhas o suficiente para realização da pesquisa. Visto que já tinha bastante fêmeas, retornei a São Paulo para passar as festas de fim de ano com a minha família. Durante o jantar de Natal, contei para meus familiares o que iria estudar em meu projeto de mestrado. Não tinha como dar errado: O local já estava escolhido e tinha lido alguns artigos que mencionavam o comportamento de canibalismo sexual nessa espécie.


No começo de janeiro, retornei a Belo Horizonte para começar as coletas de dados. Minha coleta se baseava em achar uma fêmea, colocar um gafanhoto na teia (porque é nesse momento que os machos tentam a cópula e, normalmente, é durante a cópula que eles são canibalizados) e depois gravar, em áudio, tudo que aconteceria na teia. Basicamente, eu ativava o microfone do celular e falava: “Teia na área A identificação 10, fêmea rosa e azul. Possui 2 machos na teia. Fêmea se desloca em direção ao gafanhoto...” e seguia fazendo essa gravação durante 30 min. O problema foi que: após um mês em campo e muitas horas de observação, não tinha visto nenhuma fêmea canibalizar um macho. Nem sequer haviam tentado. ABSOLUTAMENTE NADA DE CANIBALISMO SEXUAL! Zero! Foi aí que disse a meu orientador: “essas fêmeas aqui não canibalizam os machos!” Conversei também com um colega de São Paulo, que havia trabalhado com essa espécie de aranha e ele me disse que durante todos os meses que passou em campo, nunca vira uma fêmea comendo o macho! Como diria Maysa, “meu mundo caiu” e o meu projeto de mestrado quase foi embora junto com meu mundo!



Mesmo tendo lido lendo a literatura pertinente, mesmo se preparando para uma coleta de dados adequada, nem sempre o seu projeto ocorrerá da forma como você planeja, por vários motivos. No meu caso, embora tivessem relatos de canibalismo sexual nessa espécie, esse comportamento praticamente não ocorre no Brasil. Após algumas horas de conversa com meu orientador, decidimos pensar sobre os dados que estava coletando e quais perguntas poderiam ser respondidas a partir desses dados. Foi aí que lembrei ser bem frequente observar machos brigando. E os machos não deveriam brigar aleatoriamente por qualquer coisa que aparecesse na frente deles, porque brigar tem custos energéticos. Então, comecei a pensar nos fatores que poderiam aumentar a propensão dos machos brigarem e também a aumentar a intensidade da briga. Por exemplo, quando você briga com um amigo, pode ser que vocês comecem a discutir e erguer a voz um para o outro e talvez permanecer nessa discussão por minutos, horas ou dias. Porém, pode ser que um de vocês “perca o controle e parta para a porrada” e a “porrada” pode durar segundos ou minutos, dependendo do motivo pelo qual vocês estão brigando. Quando a “porrada” acontece, a briga se torna bem mais intensa quando comparada a apenas um bate-boca. A gente chama esse aumento na intensidade da briga de escalonamento. No mundo dos animais, tanto o escalonamento da briga quanto a variação na duração da briga podem ocorrer, dependendo do “motivo” da briga. No caso das minhas aranhas, eu investiguei se a duração da briga e a ocorrência de escalonamento mudavam de acordo com a qualidade da fêmea (motivo da briga): como as fêmeas não são todas iguais, os machos deveriam ser mais propensos a iniciar uma briga e a investir mais nessa briga se a fêmea for de maior qualidade. Em aranhas, as fêmeas que possuem o abdômen com maior área normalmente são mais fecundas, isto é, podem gerar mais filhotes. Além disso, nessa espécie, o primeiro macho a copular com a fêmea é o macho que garante a maior parte da prole. Assim, os machos deveriam investir mais em brigas por fêmeas mais “gordinhas” e não acasaladas. Depois de meses em campo, o que encontrei foi que a fecundidade da fêmea não é um bom motivo para causar brigas entre os machos, mas o estado reprodutivo dela, sim. E, ao contrário do que eu esperava, eles brigam mais por fêmeas já acasaladas do que por fêmeas não acasaladas. Um dos motivos para isso acontecer é que, embora o primeiro macho a copular com a fêmea garanta a paternidade de maior parte da prole, outros machos ainda conseguem fecundar alguns ovos. E, como os machos dessa espécie só podem transferir esperma duas vezes ao longo da vida inteira deles, é possível que eles estejam defendendo a fêmea para impedir que parte dos ovos seja fecundada por outro macho.


Outro fator que pode influenciar a intensidade de uma briga é a disponibilidade de um recurso. Sabe quando acontece a famosa queima de estoque de novembro e diversos produtos são vendidos com desconto? Então, muitas vezes você chega na loja e precisa brigar para conseguir aquele produto, porque existem poucas unidades disponíveis. E se você não conseguir o produto numa loja e resolver buscar em outra, pode ser que você se desloque à toa, porque talvez já não tenha mais o produto em outra loja. Extrapolando isso para o mundo das minhas aranhas, para os machos seria como se as fêmeas fossem aquele produto maravilhoso e os machos fossem as pessoas atrás desse produto. No caso, as fêmeas podem ocorrer sozinhas (isoladas) ou em agregadas a várias fêmeas. Se um macho chega em uma teia na qual a fêmea está isolada e se depara com outro macho, ele poderá brigar por aquela fêmea. Porém, se ele perder essa briga, poderá sair daquela teia e procurar uma nova fêmea! Um trabalhão! E muito arriscado! Poucos machos de aranha sobrevivem a procura por fêmeas na natureza! Assim, quando as fêmeas estão isoladas, eles deveriam brigar muito mais por ela, para não ter que sair andando por aí correndo o risco de morrer. E como, de novo, os bichos não fazem exatamente o que a gente quer, encontrei que parece existir uma propensão maior dos machos a brigarem por fêmeas que estão em agregações. Talvez porque nesse caso tenham mais machos circulando.


A lição que ficou do meu mestrado foi que mesmo se programando, várias coisas podem dar errado. Além disso, suas expectativas sobre algo podem não estar corretas e está tudo bem! O importante é não desanimar diante dos desafios. Embora meu mestrado tenha sido difícil e minhas hipóteses não tenham ido na direção que eu esperava, foi desafiador pensar em hipóteses adicionais que explicariam meus resultados. Mas valeu muito a pena, tanto que o artigo foi aceito na Behavioral Ecology e deverá estar disponível em breve!


Silva, A.V., Oliveira, R. & Peixoto, P.E.C. (2021). Web wars: males of the golden orb-web spider invest more in fights for mated females. Accepted in Behavioral Ecology. DOI 10.1093/beheco/arab014

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