• Ciência em Ação

A importância da radiotelemetria para conservação de carnívoros

Por: Anderson Clayton Copini

Bacharel em Ciências Biológicas e pós-graduado em Ensino de Ciências, Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC



A Conservação dos carnívoros

A biodiversidade é uma das maiores riquezas brasileiras, pois nosso país é detentor de mais de 20% do número total de espécies já catalogadas no mundo. Devido a isso, o Brasil é considerado o país mais megadiverso do planeta, mesmo contendo uma quantidade de espécies identificadas infimamente pequena em relação ao total existente (MMA, 2020).


Essa biodiversidade total se reflete na riqueza em espécies encontrada no Brasil, que também é detentor do título de país com a maior biodiversidade de mamíferos do planeta, com mais de 550 espécies (SABINO; PRADO, 2003). Nosso país também contém alta taxa de endemismo de espécies de mamíferos: mais de 25% do total em espécies dessa Classe vivem exclusivamente em solo brasileiro (FONSECA, 1989; FONSECA et al., 1996). Além disso, os carnívoros recebem destaque especial: alguns deles são animais imponentes e importantes para a biodiversidade global, tais como Phantera onca (onça pintada), Puma concolor (onça parda), Leopardus pardalis (jaguatirica), Chrysocyon brachyurus (lobo guará), Cerdocyon thous (cachorro do mato) e etc.


Os carnívoros situam-se no topo da cadeia alimentar e, por esse motivo, tem um papel de destaque na restruturação da diversidade e saúde das florestas onde estão presentes (CAVALCANTI, 2015). Apesar de muitas pessoas não atentaram para esse fato, a conservação de carnívoros (e.g., onças e lobos-guará é extremamente importante para a conservação das florestas e, consequentemente, de atividades que dependem dela (MMA, 2020). Alguns carnívoros, por exemplo, alimentam-se de herbívoros (veados), roedores (capivaras e ratos), aves (pombas, pardais, e etc.), répteis (cobras) e outros animais de menor porte, tais como gafanhotos, aranhas e escorpiões (LEITE-PITMAN; OLIVEIRA, 2002). Ao se alimentarem e controlar populações de roedores, cobras e demais animais, os carnívoros contribuem para o controle de pragas que afetam diretamente plantações agrícolas e vetores transmissores de doenças para animais domésticos e humanos (MARCHINI, 2020).

Muitas espécies de carnívoros, como o lobo-guará, são consideradas carnívoros não restritos, ou seja, podem se alimentar de outros itens, como por exemplo frutos, sementes e etc. Assim, esses animais são capazes de contribuir para a dispersão de sementes e influenciar ativamente o recrutamento de plantas na floresta, o que tem um impacto muito positivo na composição florestal (CAVALCANTI, 2015).


A expansão excessiva dos centros urbanos tem diminuído drasticamente os ecossistemas florestais, prejudicando a fauna nativa e interrompendo corredores ecológicos que proporcionava o deslocamento das espécies. Essa atividade também causa atropelamento de carnívoros por máquinas pesadas, além da caça ilegal por parte de pessoal (funcionários) para “resolver o problema” de abates de animais domésticos. Estes episódios aumentaram significativamente na região Sul por ser região forte produtora de madeira exótica, possuírem muitos caçadores ilegais (que aproveitam a legislação da caça de javalis) e matam outros animais para consumo, tráfico e souvenirs, proporcionando, assim, um aumento da fragmentação florestal nativa e diminuição das populações da fauna (PITMAN, 2002).


Pelos motivos apontados acima, a conservação de animais silvestres depende do homem para a criação de espaços naturais protegidos, bem como para formulação de leis que sejam aplicadas rigorosamente pelas autoridades. Além disso, os conselhos profissionais deveriam ter um papel de destaque no acompanhamento e fiscalização de atividades ilegais, relatando-as ao poder público responsável. No entanto, infelizmente, alguns desses conselhos deixam a desejar quando se trata de fiscalização e denúncia dessas atividades ilegais.


A radiotelemetria como ferramenta de coleta de informações


As atividades de radiotelemetria tem ajudado os órgãos ambientais a tomarem medidas para proteger as espécies da fauna nativa em várias situações, além de proporcionarem um banco de dados de extrema importância para a atualizar o “Livro Vermelho” que abriga informações importantíssimas sobre animais em extinção ou em risco de extinção. Dentre os referidos equipamentos usados nessas atividades podemos destacar o transmissor, o colar, os receptores e as antenas de detecção.



· O transmissor emite sinais, por meio da bateria, à antena de transmissão e pelo mecanismo de fixação através do sinal GPS localiza o indivíduo. A combinação desses três componentes será responsável pela potência do sinal (CULLEN Jr. et. al. 2012);


· Colar: como o próprio nome diz, ficará acoplado no pescoço do animal. É utilizado especificamente para mamíferos e deverá ser adequadamente ajustado para que o animal não consiga colocar a pata entre o colar e o pescoço, podendo resultar em graves acidente e até mesmo morte do animal por enforcamento (CULLEN Jr. et. al. 2012);


· Receptores: existem alguns modelos no mercado, porém o mais utilizado é aquele composto por controle de volume e saída para fones de ouvido, proporcionando ao operador escutar com mais precisão de onde está vindo o sinal emitido pelo transmissor (CULLEN Jr. et. al. 2012);


· Antenas: ligada ao receptor proporciona uma ampla capacidade de captação dos sinais, também possui vários modelos como chicote, dipolo, loop, adcock ou H e Yagi.

Segundo JACOB (2012) o estudo de radiotelemetria proporciona informações sobre o deslocamento do animal, tipo de dieta, tamanho populacional, entre outras informações. Tal método é capaz de informar o local preciso do animal em seu habitat natural e sua interação com o meio.


Em casos específicos como os da abertura de novas estradas ou pavimentação das mesmas, que necessite a supressão de vegetação nativa, o estudo com radiotelemetria pode fornecer meios de calcular a área de vida de um determinado animal, isto toda área percorrida pelo animal em suas diversas atividades. Desse modo, por meio dos pontos de GPS, emitido pelo colar, é possível verificar se a estrada invadirá seu habitat, provocando desequilíbrio ambiental na região e destruindo tocas ou ninhos. Para este tipo de coleta de dados campanhas contínuas podem render melhores informações sobre o trajeto percorrido pelo animal em seu habitat (CULLEN Jr. et. al. 2012).


É importante ressaltar que a conservação dos animais em geral e carnívoros em particular, mantem um ecossistema equilibrado impedindo a propagação de pragas, enriquece a disseminação da flora nativa e promove a sustentabilidade do patrimônio natural através das práticas de ecoturismo, auxiliando na renda das famílias rurais (CAVALCANTI, et. al. 2015).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CAVALCANTI, S. M. C. DE PAULA, R. C. MORATO, R. L. G. 2015. Conflitos com Mamíferos Carnívoros. Atibaia, São Paulo, Brasil.


CULLEN Jr. L.;VALLADARES-PADUA, C., RUDRAN, R. Métodos de Estudos em Biologia da Conservação e Manejo da Vida Silvestre. 2. ed. Ver. – Curitiba: Ed. Universidade Federal do Paraná, 2006.


FONSECA, G. A. B. Small mammal species diversity in brazilian Atlantic primary and secondary forest of differente sizes. Revista Brasileira de Zoologia, v. 6, n.3, p. 385-421, 1989.


MMA. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Biodiversidade Brasileira. Disponível em: <https://www.mma.gov.br/biodiversidade/biodiversidade-brasileira>. Acessado em maio, 2020.


MARCHINI, S. O ECO: Por que conservar carnívoros?. Disponível em: <https://www.oeco.org.br/colunas/silvio-marchini/24893-por-que-conservar-carnivoros/>. Acessado em maio de 2020.


PITMAN, M. R. P. L; OLIVEIRA, T. G.; DE PAULA, R. C.; INDRUSIAK, C. Manual de Identificação e Controle de Predação por Carnívoros. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Diretoria de Gestão Estratégica Centro Nacional de Informação, Tecnologia e Editoração Coordenação de Divulgação Técnico-Científica SAIN Av. L4 Norte, s.n., Edifício Sede - Bloco B - Edições IBAMA CEP 70.800-200 Brasília - DF Telefones: (61) 316-1065 FAX: (61) 316-1249 Brasília 2002 Impresso no Brasil Printed in Brazil.

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