• Ciência em Ação

REFLEXÕES SOBRE O ANTROPOCENO, O PARADIGMA DA ESPÉCIE HUMANA E DE SEU DOMÍNIO ILUSÓRIO SOBRE A TERRA

Por: Alexandre Túlio Amaral Nascimento¹

¹ Brasil. Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Faculdade de Engenharia. Departamento de Engenharia Aplicada e Tecnologias Ambientais. alexandre.nascimento@uemg.br


Texto retirado da revista Anthropocenica (Revista de Estudos do Antropoceno e Ecocrítica) Vol. 1 2020, com autorização do autor (https://doi.org/10.21814/anthropocenica.3093)




Resumo:


Este ensaio compartilha reflexões sobre o Antropoceno de uma perspectiva ecológica e evolutiva da espécie humana. Parte-se da crise contemporânea de biodiversidade e da dinâmica e história da vida na Terra para contextualizar a sexta extinção em massa do Antropoceno, uma armadilha evolutiva que coloca em risco seu próprio agente causador. A compreensão do ‘tempo profundo’ geológico e evolutivo e dos cursos e percalços da história biótica evidenciam a vida como um imperativo da Terra. Esta perspectiva coloca o ser humano em posição de igualdade com qualquer outra espécie que já tenha florescido, no passado ou no presente, da evolução biológica. A origem evolutiva do espécie-centrismo humano é discutida e o antropocentrismo é apresentado como força motriz do Antropoceno. A crise sistêmica do Antropoceno é posta como pressão de seleção cultural humana, que deve nortear-se pela sustentabilidade e pelo biocentrismo. Especula-se sobre o futuro evolutivo da jornada humana na Terra, a fixação de valores e princípios socioculturais e a necessidade de a humanidade contemporânea reconhecer-se como uma única tribo global que deve ser capaz de sustentar-se mutuamente.

Palavras-chave: ecologia, filosofia, biocentrismo, evolução cultural, humanidade, Homo sapiens


O Antropoceno e a sexta grande extinção


O Antropoceno tem ao menos duas características marcantes: (i) os tecnofósseis das combinações sem precedentes de plásticos, fibras sintéticas, metais, concreto e pesticidas – dentre outros – na estratigrafia da Terra (Waters et al., 2016); e (ii) a crise de erosão da biodiversidade causada pela humanidade (Ceballos et al., 2015).

A influência combinada, interdependente e sinérgica do capitalismo a qualquer custo, do patriarcado oligárquico e do colonialismo estrutural entre norte e sul global têm levado, além da desigualdade social, ao colapso ambiental sistêmico, comprometendo a saúde ambiental e humana e alterando a dinâmica da biosfera. Os colapsos ecológicos multiescalas do Antropoceno têm em sua origem a extinção de espécies, o que vem acontecendo em um ritmo muito acelerado, deixando cada vez mais claro à ciência que estamos vivenciando o sexto evento de extinção em massa da história da Terra (Barnosky et al., 2011; Dirzo et al., 2014; Ceballos et al., 2015; Kolbert, 2015; Ceballos et al., 2020).


A extinção de uma espécie é um processo ecológico-evolutivo natural e inerente à história da vida (Benton, 1995). Contudo, as taxas naturais de extinção são muito baixas. Extinção e especiação se equilibram quando há seleção natural e outros processos evolutivos operando no tempo ecológico e evolutivo. Espécies são extintas quando não se adaptam às mudanças no ambiente. Os indivíduos, suas populações e espécies podem se tornar inaptos ao ambiente e incapazes de responder às suas pressões, especialmente, quando esses ambientes são perturbados e alterados abruptamente.


Ao se tratar de ‘extinção de espécies’ é importante não cair no risco de um raciocínio reducionista. Faz-se necessário compreender que espécies são o arranjo taxonômico mais fácil de contabilizar, mas que representam apenas uma das muitas dimensões da biodiversidade – que considera a diversidade biológica desde o nível genético e molecular dentro dos indivíduos e suas populações às interações entre espécies, comunidades e ao funcionamento dos ecossistemas e à dinâmica das paisagens (Noss, 1990; CDB, 1992; Begon et al., 2007, p. 602). A extinção de uma espécie repercute, em maior ou menor grau, em todos os níveis hierárquicos da biodiversidade e em seus atributos composicionais, estruturais e funcionais. Portanto, extinção é o gatilho inicial que altera o funcionamento e a estabilidade dos ecossistemas, inclusive nas grandes escalas temporais e espaciais que são mais relevantes para políticas e conservação (Isbell, et al., 2017).


O big bang originou o universo há 13,8 bilhões de anos e a Terra se constituiu há 4,5 bilhões de anos. O início da história biótica, por sua vez, data de cerca de 3,5 bilhões de anos, quando assembleias de organismos procariotos (células sem núcleo definido) semelhantes às cianobactérias marcam os primeiros registros fósseis da vida (Schopf, 1993). Porém, foi apenas há cerca de 540 milhões de anos, no período Cambriano, que a vida se diversificou, passando a ocorrer registros de organismos representativos dos grupos biológicos ancestrais que deram origem à vida como a conhecemos. Desde então, eventos de extinção e especiação marcaram a história da vida na Terra, tornando a paleontologia importante aliada da estratigrafia e da geologia na datação geocronológica da história da Terra.


O documentário fóssil das taxas de extinção mostra que em cinco ocasiões elas se tornaram mais frequentes e expressivas nesses últimos 540 milhões de anos (Barnosky et al., 2011).Extinções em massa são caracterizadas como momentos em que a Terra perdeu entre 70% a 95% de suas espécies, em todos os ecossistemas do planeta e durante um intervalo de tempo geologicamente curto. Estas fases de extinções em massa transformaram o curso macroevolutivo da vida no planeta (Jablonski, 1986; Ridley, 2006, cap. 23).


A primeira grande extinção em massa aconteceu no final do Ordoviciano, há cerca de 444 milhões de anos atrás, quando a maioria das criaturas eram restritas ao ambiente marinho e oceânico. A última e quinta extinção em massa foi há cerca de 65 milhões de anos, marcando o fim dos dinossauros (os que não se tornaram aves) e do período Cretáceo e o início do Paleógeno. A maior de todas as extinções aconteceu entre esse percurso, há cerca de 252 milhões de anos, e eliminou até 96% das formas de vidas existentes, marcando a passagem do Permiano para o Triássico e a fronteira entre as eras Paleozoica e Mesozoica (Ridley, 2006).


As outras duas extinções em massa, a segunda e a quarta em ordem cronológica, aconteceram no final do período Devoniano e do Triássico, respectivamente, há cerca de 360 e 205 milhões de anos. Todas as cinco extinções em massa têm suas causas relacionadas a eventos naturais, como erupções vulcânicas, movimentos das placas tectônicas, mudanças do nível do mar e colisão com asteroides (Ridley, 2006, p. 658).

Estes eventos de extinção em massa, apesar de representarem breves momentos do tempo geológico, aconteceram durante o intervalo de alguns milhares ou até milhões de anos. A última extinção em massa – sem dúvidas a mais conhecida de todas devido ao carisma colossal dos dinossauros – foi a mais súbita e inesperada segundo os registros paleontológicos. Assim como os humanos, os dinossauros já reinaram absolutos e dominaram a Terra durante mais de 150 milhões de anos, até que a maioria deles se extinguiu por não terem conseguido lidar com uma crise súbita desencadeada pela colisão de um meteoro com a Terra. Steve Brusatte (2019), em seu livro ‘ascensão e queda dos dinossauros’, especula sobre as lições que esse evento marcante da história da Terra pode nos dar.


Homo sapiens está em cena no palco evolutivo que é a vida na Terra há meros 300 mil anos (Hublin et al., 2017; Richter et al., 2017), nossos ancestrais hominídeos há cerca de apenas 6 milhões de anos. A sexta extinção em massa e as crises sistêmicas do Antropoceno não nos deixam muito otimistas quanto às perspectivas de que possamos permanecer por muito mais tempo. Somos uma espécie jovem e com uma passagem que provavelmente será breve nessa contínua e dinâmica peça evolutiva da vida no grande teatro ecológico de possibilidades que é a Terra (Hutchinson, 1965). A não ser que haja profundas e complexas mudanças na forma de H. sapiens existir, consumir recursos e se relacionar com as demais espécies com as quais coabita e coexiste.


O diferencial dessa sexta extinção é que ela é a primeira desencadeada por uma única espécie em particular, o Homo sapiens. Ironicamente, esse processo poderá levar à extinção da própria espécie humana. Esta armadilha evolutiva é o que há de mais curioso nesta sexta extinção em massa, o seu agente causador pode vir a ser vítima do seu próprio estrago. Seremos capazes de evitar essa enroscada, freando e revertendo a sexta grande extinção?


Esta noção do ‘tempo profundo’ geológico e evolutivo e dos cursos e percalços da história biótica evidenciam a vida como imperativo da Terra. Ela sempre se reinventa e sua árvore se regenera em novos galhos e troncos evolutivos. Esta perspectiva deixa claro que não haveria muita diferença entre a extinção dos tiranossauros, dos mamutes, das preguiças gigantes ou das ararinhas azuis e a extinção da espécie humana. Certamente, não faríamos falta à Terra.



O espécie-centrismo humano e seu domínio ilusório sobre a Terra


O espécie-centrismo humano não se fundamenta. Nosso controle e domínio sobre o planeta e a natureza é pura ilusão. As extinções em massa e a história da vida deixam claro que a Terra não é frágil, mas nossa posição nela é. A natureza não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. Como qualquer outra espécie que habita ou já tenha habitado esse planeta, somos frutos de um acidente evolutivo, produtos da mutação randômica e da série de acasos da seleção natural. Também, como quaisquer outras espécies, influenciamos e somos influenciados pelo ambiente em que estamos e pelas espécies com as quais interagimos e interdependemos.


A pandemia de COVID-19 é didática em expor a interdependência e fragilidade de nossa espécie. Frente ao choque de realidade biológica dado pela pandemia do coronavírus a humanidade tem a oportunidade de rever a sua trajetória civilizatória e sua influência massivamente deletéria e desestabilizadora na teia da vida que é a biosfera terrestre (Santos, 2020). O caráter pedagógico da pandemia também tem demonstrado que, como espécie, partilhamos de um mesmo destino comum (Safatle, 2020; Santos, 2020).


Edward Wilson, um dos mais consagrados e importantes biólogos dos nossos tempos, refere-se ao Antropoceno como uma “era de e para apenas uma espécie, à qual todo o restante da vida está subordinada”, e o chama de Eremoceno – a era da solidão (Wilson, 2018, p. 96). Entretanto, a subordinação que Homo sapiens impõe às demais espécies negligencia que as forças da natureza e a interdependência biológica estão além da nossa capacidade de controle e domínio (Wallace-Wells, 2019, p. 189).


As bases biológicas desse espécie-centrismo cultural estariam no aprimoramento da inteligência social e no favorecimento da sobrevivência dos indivíduos e seus grupos (Damásio, 2018; Wilson, 2018). Esse comportamento espécie centrado é herança evolutiva que em Homo sapiens resultou no interesse intraespecífico narcísico e na curiosidade insaciável, que parecem ser a chave de nossa genialidade e sucesso demográfico (Harari, 2015; Mlodinow, 2015; Wilson, 2018) – 96% do peso dos mamíferos mundiais são constituídos por humanos e seus animais de estimação e criação (Bar-On et al., 2018). A curiosidade e a criatividade humana, propulsoras do nosso sucesso como espécie, estão alicerçadas na vida e em sua determinação e comando preciso de resistir e auto projetar-se no futuro a qualquer custo (Damásio, 2018, p. 42).

Somos viciados em interações e conflitos tribais, o que se reflete nas religiões, ideologias, política, times esportivos e conflitos étnicos. Temos uma disfunção, intrínseca à nossa espécie, que confere miopia e incômodo em cooperar e integrar com os que são alheios à nossa tribo (Darwin, 1871; Damásio, 2018). Isso se agrava e a miopia vira cegueira necro-utilitarista quando consideramos nossas relações com as outras espécies coexistentes conosco – especialmente após a revolução agrícola há cerca de 12 mil anos atrás, quando deixamos de ser caçadores coletores e rompemos os limites de capacidade suporte do ambiente, passando a dominá-lo (Harari, 2015). Pelo acúmulo de poder e riqueza de nossos núcleos sociais e identitários, nós simplesmente ignoramos o legado evolutivo da vida e seus princípios de interdependência, complexidade, dinamismo e limiares de resiliência.


Apesar das religiões e do egocentrismo humano irem na direção contrária, a ciência não nos dá nenhuma explicação sobrenatural para o sentido da existência da espécie humana. Reconhecermos definitivamente nossa modesta origem evolutiva e nosso alto grau de parentesco com todas as formas de vida, fruto presente ou histórico desse processo, é um passo importante e decisivo, que já poderia ter sido melhor incorporado à sociedade nos últimos 160 anos – considerando-se a publicação conjunta dos artigos de Darwin e Wallace na Sociedade Linneana de Londres em 1858 e o lançamento de ‘a origem das espécies’ em 1859. O Antropocentrismo precisa urgentemente dar lugar ao biocentrismo.


Genes e memes são, respectivamente, as unidades de seleção biológica e cultural (Dawkins, 1977). A seleção multinível – difundida pelos biólogos evolucionistas Edward Wilson e David Wilson – entende que DNAs, indivíduos e grupos são veículos para os genes, sendo afetados pela seleção individual (egoísta e competitiva) e pela seleção de grupo (altruísta e cooperativa). Um místico ou religioso diria, incorrendo em uma simplificação extrema e reducionista, que a primeira favorece o pecado e a vaidade e a segunda a virtude e a empatia.


O conflito entre esses instintos é identitário de muitas espécies, mas sua consciência psíquica e compreensão parecem característicos à condição humana. Em espécies eussociais, como formigas, abelhas, vespas e cupins, ainda que totalmente moldadas pela seleção de grupo (Wilson e Hölldobler, 2005), essa consciência inexiste. Parece que fomos, evolutivamente, perdendo a capacidade de comunicação bioquímica e por feromônios inata a tantas espécies, inclusive de microrganismos e fungos, às custas de uma comunicação mais auto centrada, promotora de complexidade cultural e social (Wilson, 2018).


Somos frutos desse misto de evolução biológica e cultural que resultou na fascinação ilimitada que temos por nós mesmos, fazendo do antropocentrismo a força motriz do Antropoceno (Wilson, 2018). A questão posta é: o horizonte de crises, catástrofes e colapsos, característicos dessa nova época, seriam capazes de fazer do antropocentrismo um antídoto endógeno que nos pressionaria ao biocentrismo e à sustentabilidade?



O paradigma humano


Até aqui, a evolução cultural humana fixou padrões que boicotaram o fato biológico de sermos uma espécie como qualquer outra, frutos dos mesmos processos evolutivos, igualmente por eles regidos. O Antropoceno, mais que uma nova época geológica – que apesar de ainda estar em vias de ser oficialmente reconhecida pela sociedade internacional de geologia já é amplamente difundida na comunidade acadêmica e científica – representa um marco epistêmico transdisciplinar no século 21, que pressiona por mudanças complexas e profundas no modus operandis da humanidade existir. A crise sistêmica do Antropoceno expõe a vulnerabilidade da espécie humana à extinção, como qualquer outra espécie.


Se a extinção de espécies é parte da dinâmica ecológica-evolutiva da vida, por que com Homo sapiens seria diferente? É possível manter nosso estilo de vida espécie-centrada e regido pela religião do crescimento econômico infinito? A crise climática, o colapso dos ecossistemas em multiescalas, pandemias, dentre outros reflexos da crise civilizatória contemporânea, são pressões evolutivas capazes de gerar mudanças efetivas no padrão de seleção cultural de H. sapiens? As possibilidades de integração entre algoritmos de inteligência artificial com os algoritmos bioquímicos e com a biotecnologia nos levarão a espécies pós humanas de um pós Antropoceno? A busca por respostas a perguntas como estas têm norteado muito do debate acerca do Antropoceno e do pensamento científico contemporâneo.


Avanços científicos, tecnológicos e da biologia sintética sempre causam otimismo e podem ser importantes aliados, porém, há de se ter cuidado para não cairmos na recorrente armadilha do autoengano e do negacionismo. Não cabe mais a ilusão de que nossa tecnologia e inventividade sempre nos garantirão qualidade de vida e prosperidade. Nenhum aliado tecnológico terá valia se Homo sapiens não mudar sua forma de ser, existir e consumir.


Se o que nos diferencia das outras espécies é nossa cognição, humanidade, cultura, intelecto, ciência e conhecimento das mais diversas áreas e saberes, tão recentemente construídas na história humana, pode-se dizer então que o que nos diferencia é nosso cérebro e toda evolução cultural que nele é processada (Wilson, 2018).


A forma como nosso cérebro, esse intricando regente da complexidade humana, processará a crise do Antropoceno urge por fixar padrões culturais compatíveis com o biocentrismo, com a sustentabilidade e com o conhecimento científico. O Antropoceno é também um chamado para que a humanidade respeite a ciência e o tempo dos cientistas. A máxima de Raymond Willians (1958) de que todas as crises humanas são crises de compreensão cai bem à crise civilizatória do Antropoceno. Enquanto não compreendermos que evidências e fatos científicos – como o aquecimento global, a crise climática, a extinção em massa e a interdependência biológica –independem da nossa opinião, ignorância ou negligência, a humanidade continuará postergando o problema e as formas de mitigá-lo.


Se a ciência fosse considerada da forma como deveria, não teríamos chegado ao ponto em que chegamos. Há pelo menos 50 anos há consenso de que o CO² agrava o efeito estufa e modelos climáticos que anunciam, preveem e acertam o aquecimento global e a crise climática. Ainda assim, o século 20 ergueu-se sobre a indústria petroquímica, termelétrica e a queima de combustíveis fósseis, dando espaço à soberania de grandes corporações e fazendo com que os interesses privados e de mercado, frequentemente, se sobreponham aos interesses públicos e do bem-comum.


Assim, o sistema democrático tem sido muito comumente cooptado pelas grandes corporações e pelos interesses privados, boicotando a ciência em benefício de muito poucos e às custas de toda sorte de impactos ambientais, desigualdade social e concentração de renda. Temos ciência robusta que poderia subsidiar políticas e governança muito mais afins à sustentabilidade. Porém, há obscurantismo e negacionismo crescentes, não só dos cidadãos, mas também de muitos governos.


Ciência e democracia devem nos guiar. Ambas têm valores afins ao debate livre, encorajam opiniões não convencionais e a diversidade, visando o intercâmbio de ideias e o avanço do conhecimento. Ambas não têm verdades absolutas, mas precisam reconhecer os erros do caminho e guiarem-se por padrões rigorosos de evidências, coerência e honestidade (Sagan, 1995, p. 59). Política, democracia e ciência são as principais armas que temos contra a barbárie, a desconstrução e a crise imposta e crescente do Antropoceno. A conexão entre ciência e democracia deve valer-se das tecnologias de comunicação digital, do big data, da internet das coisas e da inteligência artificial em favor do fortalecimento de sua transparência, representatividade, inclusão e envolvimento da população.


A tríade ciência-democracia-sustentabilidade precisa alçar voo logo. Há indícios de que esta terceira década do século 21, entre os anos 2020 e 2030, será decisiva para que a humanidade acerte seu passo evolutivo e reverta seus impactos massivos e caminho evolutivo sobre a Terra. Caso contrário, limiares de resiliência ecológica do Sistema Terra poderão ser rompidos, nos levando em direção a extremos climáticos de temperatura e imprevisibilidade jamais vivenciados em nossa jornada evolutiva ou dos nossos ancestrais hominídeos (Steffen et al., 2018; Bertolami e Francisco, 2019; Veiga, 2019).


Para que alcemos voo nesse século e no Antropoceno é preciso desconstruir a lógica de progresso desenvolvimentista do lucro a qualquer custo e contra a diversidade da vida, que favorece desigualdades e crises ecológicas. Tratados e pactos globais – como o Acordo de Paris, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e sua Agenda 2030 – só farão cumprir-se à medida que a governança do desenvolvimento e a governança do meio ambiente e da sustentabilidade se alinharem em uma mesma e única direção (Veiga, 2017), orientada pelo bem viver, pelo decrescimento do norte global e pelo pós-extrativismo do hemisfério sul, buscando romper vícios geopolíticos e econômicos que têm acelerado o vórtex da sexta extinção em massa e das crises que dela decorrem (Acosta, 2016; Acosta e Brand, 2018; Solón, 2019).


Princípios como sustentabilidade, interdependência, coexistência, complexidade e resiliência precisam ser assimilados como valores culturais e sociais dominantes no Antropoceno. Assim como diversidade genética é a matéria prima para a seleção natural e evolução biológica, a diversidade cultural deve ser reconhecida como vital para a sustentabilidade e viabilidade da espécie humana no Antropoceno, fazendo-se necessário romper a hegemonia da cultura ocidental e valorar os etnosaberes dos povos originários. Essas utopias são horizontes necessários frente às tantas distopias desses tempos.


Esses paradigmas da humanidade dependem, como já foi dito, de uma integração necessária, ainda que tardia, entre ciência e democracia. Esse desafio faz-se ainda maior em países tropicais e megabiodiversos, como o Brasil, que além da extrema desigualdade socioeconômica, precisa livrar-se da lógica neoliberal e neoextrativista para que possa se valer de sua vocação de biodiversidade e desenvolver seu potencial em bioeconomia e sustentabilidade.


A transformação precisa ser do micro ao macro, do individual ao coletivo, do privado ao público, do local ao global, passando pela geopolítica e por um senso de cidadania e bioética, de pessoas físicas e jurídicas, que precisam agir com muito mais responsabilidade e proatividade. Alternativas não podem ficar vinculadas às crises pandêmicas e aos desastres ambientais depois destes já terem acontecido. A ciência tem dado seu recado há décadas, e avisa com ênfase cada vez maior: Não temos muito tempo! A mudança é pra ontem! É pra já! (Kolbert, 2015; Marques-Filho, 2016; Steffen et al., 2018; Wallace-Wells, 2019; Amigo, 2020).


É preciso ação, inovação, integração e adaptação. As velhas máximas ambientalistas de reciclar, reutilizar e reduzir já não são suficientes e faz-se necessário nos valermos de muitos outros erres: repensar, recusar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, reconfigurar, restaurar e revolucionar.


A tribo humana do Antropoceno é única, global, interconectada e interdependente, como ficou escancarado nesse histórico ano de 2020 com a pandemia de COVID-19. Devemos nos sustentar mutuamente em um corpo social e político regido pelo bem viver e pela sustentabilidade (Safatle, 2020). Este senso de coletividade e ética global deve se estender a todas as espécies que conosco existem nesse “pálido ponto azul” a pairar na imensidão cósmica.


Esse recado da ciência à sociedade não tem nada de novo. Há 25 anos atrás, por exemplo, o célebre cientista e pioneiro na divulgação científica, Carl Sagan, já nos dizia em seu livro ‘o mundo assombrado pelos demônios’ que “quando as fraquezas que sempre tivemos se unem a uma capacidade de causar dano numa escala planetária sem precedentes, algo mais é exigido de nós – uma ética emergente que também deve ser estabelecida numa escala planetária sem precedentes” (Sagan, 1995, p. 323).


A ecologia e a evolução nos trazem algum otimismo ao mostrar que pressões seletivas podem levar a mudanças impressionantes na história evolutiva das interações ecológicas entre os organismos que nela estão envolvidos. A coevolução é como um bailado evolutivo de um pra lá e muitos pra cá ou como uma corrida armamentista adaptativa e reativa das espécies, e o resultado dessa dinâmica pode ser muitas vezes surpreendente. A jornada humana na Terra nos desafia a uma dessas grandes mudanças – de parasitas a simbiontes da biosfera terrestre, pressionados por seleção cultural, decorrente das crises sistêmicas, pandemias, catástrofes, aquecimento global e crise climática. A ecologia e a evolução também ensinam com muita clareza: quem não se adapta às pressões do ambiente e às mudanças é extinto, às vezes em um piscar de olhos do tempo evolutivo ou geológico.

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