• Rodrigo Lima Massara

Reis sem coroa


Rodrigo Lima Massara

Residente pós-doutoral

Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre (ECMVS)

Instituto de Ciências Biológicas (ICB) - UFMG



A maior extinção em massa da história evolutiva do nosso planeta ocorreu há aproximadamente 252 milhões de anos, entre os períodos Permiano e Triássico. Mais de 90% das espécies existentes nesse intervalo de tempo foram extintas, mas essa extinção em massa foi crucial para que os primeiros dinossauros evoluíssem. Ainda pequenos, é verdade. Além disso, naquela época, os dinossauros ainda tinham fortes concorrentes: outras espécies reinavam com suas imponentes coroas, como os mais diversos anfíbios, primos dos mamíferos e parentes de crocodilos. As espécies que ocupavam o topo da cadeia alimentar eram do gênero Saurosuchus, cujos indivíduos atingiam 7,5 m de comprimento e dominavam em absoluto.

No entanto, há aproximadamente 200 milhões de anos, houve outra extinção em massa que marcou a transição entre os períodos Triássico e Jurássico. Um dos fatores considerado responsável pela ocorrência dessa extinção, foi o início da separação da Pangea (aquele bloco continental único flutuante sobre um único oceano). Sim, os continentes eram todos agregados em um único bloco. A porção norte deste imenso e único continente começou a se separar da porção sul. Essa separação resultou em algumas crateras que se abriram, pelas quais lava do manto terrestre foi expelida durante 600.000 anos. Esse evento geológico foi fundamental para a diversificação dos dinossauros, já que grande parte daquelas espécies que reinavam com suas imponentes coroas sobre a Pangea foram extintas.

Durante o período Jurássico, os dinossauros se diversificaram muito e havia os répteis saurópodes imensos (aqueles de pescoço comprido). Todavia, nesse período geológico, outras alterações ocorreram no planeta que marcaram a transição entre o Jurássico e o Cretáceo (há cerca de 145 milhões de anos). Nesse período, algumas espécies de dinossauros desapareceram e outras surgiram, dentre elas o famoso Tyrannosaurus rex. Este dinossauro foi o maior predador terrestre que já habitou nosso planeta: tinha o comprimento de um ônibus e mandíbulas tão potentes que eram capazes de quebrar ossos como nós quebramos palitos de dente. O Tyrannosaurus rex, assim como outras espécies de dinossauros, reinou durante todo o período Cretáceo. Contudo, há 66 milhoes de anos, aquele famoso asteróide (ou cometa, não se sabe ainda ao certo) colidiu com a terra (é verdade, pode procurar aí por Cratera de Chicxulub, na Península de Iucatã no México, que resultou dessa colisão).

Esta colisão foi responsável por outra grande extinção em massa, talvez considerada a mais famosa por ter sido responsável pela eliminação dos dinossauros. Bem, não posso dizer eliminação porque as aves estão aí até hoje. Inclusive, estou observando uma delas enquanto escrevo este texto. Sim, as aves são primas dos dinossauros. Sabe aquela dúvida popularizada acerca de quem veio primeiro, se foi o ovo ou a galinha? Então, não há dúvidas de que foi o ovo. Enfim, a queda desse asteróide fez com que a coroa fosse destinada aos mamíferos.

Estávamos lá (como grupo) desde o início do Triássico e sobrevivemos à estas extinções. Bem, é verdade que não éramos nós humanos, mas nossos primos. E também é bem verdade que eu não estaria escrevendo este texto se não fosse a queda do asteróide há 66 milhões de anos. Demos sorte, não é mesmo? Hoje somos todos imponentes com coroas de todos os tipos e gostos sobre nossas cabeças. Somos os dominantes no planeta.

Sobrevivemos a tudo aquilo que o gigante T. rex não conseguiu, mas talvez não consigamos escapar da próxima grande extinção em massa do nosso planeta. Ela já está acontecendo e, diferentemente das outras, os causadores somos nós mesmos. Irônico, não é? Sobrevivemos a tudo isso e, agora, seremos extirpados do planeta por nós mesmos. Seremos lembrados na história evolutiva do planeta como a espécie que teve o reinado mais breve, já que comparativamente com as outras espécies que tiveram suas coroas, a Homo sapiens tem apenas 200.000 anos.

Para quem iremos passar a coroa? Sim, pois a coroa pertencerá a outra espécie ou grupo. Espero somente que o coroado trate o planeta melhor do que os atuais reis “sem coroa” foram incapazes de fazê-lo.

Desculpe, T. rex. Não somos merecedores de sua coroa.

Texto inspirado no livro de Steve Brusatte intitulado "Ascensão e queda dos Dinossauros". Editora Record, 2019

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