• Ciência em Ação

Saúde mental na academia: precisamos falar sobre isso

Por: Carolina de Lima Jorge

Editora científica na empresa Ockham BioScience



Fui convidada para escrever sobre a minha experiência durante a pós-graduação após Rogério, editor deste blog, ler um comentário que publiquei no Linkedin sobre uma matéria do jornal no El País que relatava, de acordo com um estudo recentemente publicado pela Nature Biotechnology, que os alunos de pós-graduação têm seis vezes mais propensão a desenvolver ansiedade e depressão quando comparados à população geral. Nessa matéria foi informado que “41% dos doutorandos se sentiam sob pressão constante, 30% deprimidos ou infelizes, e 16% se sentiam inúteis”.


Normalmente minhas postagens têm pouco retorno dos leitores do Linkedin, por isso fiquei surpresa não só com o número de curtidas, mas também com o número de comentários. Dentre os que retornaram, muitos alunos da pós graduação começaram a corresponder comigo e a principal reclamação que fizeram foi sobre o ambiente “tóxico” presente nas universidades brasileiras.


Quando o Rogério me pediu para escrever sobre a minha experiência na pós-graduação, comecei a pensar sobre tudo o que ocorreu após concluir a graduação em biologia e durante o período que cursei a pós-graduação: mudança da casa do pai, casamento, primeira viagem ao exterior, viver 6 meses em Copenhagen, congressos, experimentos, divórcio e finalização do doutorado.


Após concluir a faculdade de Biologia, tudo aconteceu muito rápido. A minha bolsa de mestrado da Fapesp foi aprovada antes de eu ter o meu diploma em mãos. Casei-me logo depois e em seguida iniciei a jornada da pós-graduação. Errei bastante na configuração do projeto, confesso. Deveria ser algo mais simples, mas mesmo assim eu sempre me diverti fazendo ciência.


Alguns meses depois de entrar no mestrado, um professor alemão formado em Biofísica convidou-me para viajar a Copenhagen para aprender alguns experimentos sobre transporte de lipídeos. Além disso, pediu-me para que mudasse do mestrado para o doutorado. Por meio do Programa Ciência Sem Fronteiras engajei-me naquela jornada. Esse foi o início do declínio de minha saúde mental.


Em retrospectiva, ressalto que conclui o ensino médio com 16 anos, mas só consegui entrar na faculdade com 22 anos, isso porque a minha família na época estava com dificuldades financeiras. O meu diploma do Bacharel é da era Lula, o meu diploma de Doutorado é da era Dilma.


Agora retorno à estória sobre a saúde da saúde mental: Ao chegar em Copenhagen, eu senti que meus conceitos sobre machismo, socialismo, equidade, desigualdade social, entre outros foram esquecidos. Isso porque foi inevitável para mim estabelecer comparação da Dinamarca com o Brasil. Por exemplo, um lixeiro lá tem um salário semelhante ao de um professor. Pelo que entendi, a filosofia trabalhista na Dinamarca se baseia no fato de que se alguém quer desenvolver certa profissão, você não deve receber um salário muito diferente do que aquele que escolheu outra profissão. Para eles todas as profissões são importantes e ninguém deve ser considerado melhor do que ninguém (claro que há exceções, mas em geral há essa expectativa). Caso você desejar tornar-se rico, que seja um empresário.


Os alunos lá ganham seguro desemprego, e veja, eu estava na época que era considerada o pico do estímulo à ciência no Brasil. Recebia uma bolsa de R$ 6.000,00 para viver em Copenhagen. Vivia em um lugar lindamente localizado; ia de bicicleta para o trabalho; alimentava-me muito bem e me deslocava para qualquer lugar que quisesse. Até fiz uma viagem de curta duração para Amsterdã rs.


E mesmo com essa situação em que me sentia privilegiada, os alunos de lá recebiam muito mais do que eu, além de não precisarem se preocupar muito com o desemprego, já que 50% dos alunos de pós-graduação continuam na academia e 50% vão para o setor privado, ou seja, o mercado absorve todos esses profissionais.


Quando retornei ao Brasil (morrendo de saudades do clima, da cultura, da comida e dos meus chegados), os protestos contra o governo Dilma estavam em seu início. Quem gostava de política já estava vendo que a coisa iria “azedar”. Ao impedirem que Dilma usasse os royalties do pré-sal para a educação e saúde, comecei a notar que os que mandavam no país estavam muito insatisfeitos com tanta gente de famílias de média e baixa renda viajando para o exterior para estudar. A respeito desse comentário lembro-me que postei ontem no LinkedIn um comentário político e uma pessoa reclamou que lá não era local para falar sobre política. Apenas respondi que “tudo é política”.


Voltando ao assunto, as pessoas comentavam no meu post sobre os prejuízos da pós-graduação sobre a saúde mental e sobre como o ambiente de laboratório no Brasil é “tóxico”, mas refleti: "já pensou que maravilha se eu fizesse meu doutorado em um país que não mata uma mulher a cada 7 horas, então eu me sinto segura em voltar pra casa de bicicleta às 23h; ou se eu conseguisse ir pro trabalho sem gastar 2 horas pra ir e 2 horas pra voltar; ou se eu conseguisse me alimentar super bem, viajar, tomar uma cerveja com os meus amigos sempre que eu quisesse e me vestir bem?".


Tendo em vista minha reflexão, chego à conclusão que o ambiente acadêmico é tóxico! As pessoas que convivem nesse ambiente são em geral arrogantes, tem puxada de tapete, tem indireta, tem abuso psicológico, tem muita coisa. Mas em seguida refleti: “ Em um nicho de estudo e trabalho onde há tão pouco dinheiro disponível e você só obtém o dinheiro para desenvolver projetos de acordo com o número de publicações que consegue em boas revistas internacionais, qual tipo de pessoa deverá prevalecer? A agressiva ou a tranquila? Conheci tanta gente "tóxica" que tinha depressão na academia, que nem consigo contar nos dedos da mão. Mas o comportamento dessas pessoas era "bom, se a farinha é pouca, meu pirão primeiro".


O que você ouve muito na pós-graduação é "seleção natural", sabe por quê? Porque quando você está sob pressão, quando você quer evoluir na sua carreira, quando o fomento é quase inexistente as pessoas deixam de ser civilizadas. Você vira bicho, você quer sobreviver, e se para isso você precisa ser "tóxico", que seja. Pelo menos você está ganhando o seu salário, a sua carreira está evoluindo e você está publicando.


A publicação do El Pais, à qual me referi anteriormente, fala sobre países da Europa e sobre os Estados Unidos, então a reclamação dos alunos é sobre stress, síndrome do impostor, ansiedade, etc. Porém, no Brasil a história é mais complexa. Além de todos esses elementos, existe o principal: sobrevivência. Você precisa receber para pagar contas. E quem consegue sobreviver com tranquilidade em um ambiente onde é preciso esperar até um ano para obter resposta sobre o financiamento de seu pós-doc? A elite financeira consegue, porque só ela é capaz de ficar um ano sem receber salário.


Essa realidade mexe com a cabeça de qualquer um. O meu relato é sobre as minhas experiências acadêmicas de um aluno de família de baixa renda. Certamente outro aluno de uma família de renda suficiente vai reivindicar outras demandas. Não estou de forma alguma apontando dedos para outros como se fossem culpados de algo. Acho que no Brasil é o mais forte que sobrevive mesmo. Cada pessoa faz a escolha que deseja sobre o tipo de vida que quer viver; não quero julgar o mérito e os motivos dessa escolhas.


Fiz e continuo fazendo muita terapia; já tomei e tomo remédios. Agora eu compreendo que o ambiente acadêmico não é fácil para ninguém nesse país, e isso me entristece.


Referências:

https://oglobo.globo.com/brasil/dilma-sanciona-lei-que-garante-75-dos-royalties-para-educacao-25-para-saude-9880317

https://catracalivre.com.br/cidadania/brasil-registra-um-caso-de-feminicidio-a-cada-7-horas/

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/ciencia/1521113964_993420.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR1cwUB51zCul3JZxAXIEqB0LR80PY8oWVqmI6wQ-XRBwQfCVniql7R0FHw#Echobox=1610768451

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