• Paula de Sousa

É fato: trabalhar demais pode fundir a sua cabeça

Por Paula de Sousa | Fisioterapeuta (UESPI) e Mestre em Ciências da Reabilitação (UFMG) | Crefito 4–115922F | @pilatesemcasabh


O brasileiro está vivendo e trabalhando mais. Segundo a Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia, o número de pessoas com mais de 65 anos com carteira assinada aumentou 43% entre 2013 e 2017. Apesar de saber que muitos aposentados continuam trabalhando por necessidade financeira, hoje eu gostaria de me concentrar nas pessoas que o fazem por opção, que para mim são aquelas que já entenderam que trabalho não é tortura, mas sim um instrumento perene de desafio à mente e ao corpo e uma fonte de saúde mental e emocional.


Quando eu paro para me imaginar aos 60, me vejo ainda trabalhando como fisioterapeuta, morando na praia com alguns gatos pela casa, estudando online ou presencialmente fisioterapia, sociologia, filosofia, psicologia, idiomas, canto e empreendendo, inovando e me renovando.


Só que os meus hábitos até 2020 estavam construindo uma mulher diferente. Eu poluía minha cabeça com excesso de informações e não distribuía meu tempo para que sobrasse espaço para aproveitar “o hoje” e desenvolver meus outros talentos. Ou seja, eu estava construindo uma “doninha” ansiosa, que não tem tempo para aprender coisas novas e que pode precisar se aposentar por doença.


Eu estava indo na direção das pessoas que sofrem da síndrome de Burnout: doença causada pelo excesso de trabalho que leva ao esgotamento mental. Essas pessoas buscaram o máximo da produtividade no trabalho, mas encontraram um bloqueio total da sua capacidade mental. Em um mundo competitivo e governado por dados atualizados, é compreensível que o cérebro não desligue e fique até viciado em “produzir”. Eu tinha dificuldade em entender o significado do “ter tempo para tudo” e da importância disso para a minha saúde, tanto que geralmente todos os anos entrava em estafa mental lá por outubro. Nessa pressão externa e principalmente interna para estar sempre lendo, aprendendo, inovando, atenta às constantes e rápidas mudanças, atualizando, “na crista da onda” e em pé de igualdade com os melhores do mundo, etc … era proibido não estar trabalhando.


Engraçado é que esse comportamento é o contrário do indicado pelos principais estudiosos sobre produtividade pessoal e corporativa: Charles Duhigg (O poder do hábito); Gary W. Keller e Jay Papasan (A única coisa), Greg McKeown (Essencialismo), Daniel Levitin e Roberto Grey (A mente organizada), Shawn Achor (O jeito Harvard de ser feliz), Hal Elrod (O milagre da manhã), dentre outros. Segundo esse conjunto de pesquisadores, para aumentar a produtividade pessoal e corporativa, é preciso:


1) Focar em fazer uma única coisa por vez (desafio “hard level” para as mulheres e “mamão com açúcar” para os homens);


2) Ter lista diária de prioridades a fazer: alguns até sugerem que antes de dormir você escreva de três a cinco metas, dentre pessoais e profissionais, e se concentre em fazer apenas elas no dia seguinte;


3) Deixar espaço no dia-a-dia para imprevistos;


4) Praticar atividade física regularmente: estimula o funcionamento celular, inclusive do cérebro, além de fornecer a saúde necessária para que você não “perca tempo” em tratamentos ou sofrimentos que poderiam ser evitados. Nesse ponto, o que se vê? Pessoas sacrificando seus momentos de exercício para trabalhar um pouquinho mais — “Hoje não deu, mas amanhã eu malho”. E o amanhã chega com mais 1000 tarefas para fazer com as mesmas cobranças e prazos apertados de sempre;


5) Ter um momento de lazer ou hobbie diário, que seja tomar vinho à noite assistir uma série, ler antes de dormir, brincar com os filhos ou com o gato, enfim …. qualquer coisa que você GOSTE e possa fazer todos os dias simplesmente pelo PURO PRAZER de fazer, sem a intenção de que isso te traga retornos imediatos.


Eu lido com saúde e dados de saúde todos os dias e não estou imune a “maus comportamentos”. Antes da pandemia, eu trabalhava de 6h às 21h de segunda a sexta, nas manhãs de sábado, em feriados e alguns domingos também, correndo sempre de um lugar para outro, levando uma mala gigante cheia de materiais de ginástica, NUNCA saía à noite durante a semana, mesmo para aniversários de amigos queridos e, quando muito raramente saía, ficava de olho no relógio para ir embora o mais rápido possível e descansar porque no outro dia ia ter muito trabalho pela frente. Chegado o fim de semana, eu estava “morta” demais para ter ânimo para me arrumar e sair de casa e tudo que eu queria mesmo era ficar deitada. Nessa agenda 100% ocupada com trabalho, até os exercícios e a leitura eram obrigação: o exercício me mantinha de pé e funcionando, e a leitura mantinha meu cérebro de pé e atualizado.

Aí veio a pandemia e precipitou uma reflexão que já tinha começado na tradicional estafa de outubro de 2019: “o que é trabalho e o que ele representa na minha vida?”


Depois de ganhar um tempo livre obrigatório por causa do isolamento social, descobri que trabalho para mim é desafio e desenvolvimento pessoal.


Cada dificuldade que um cliente apresenta me estimula a estudar, a buscar soluções, a ser criativa e a aprimorar meu atendimento. Eu me desenvolvo como pessoa não só exercendo o ofício de fisioterapeuta, mas interagindo com as pessoas que atendo. Todos os meus clientes, sem exceção, são pessoas selecionadas pelo universo para me oferecer conversas inteligentes, perspicazes, evoluídas e de alto nível intelectual regadas a muito bom humor.


Porém, ao fazer as contas, descobri que eu trabalhava em média 65h semanais, cerca de 20h a mais que a legislação brasileira regulamenta. E, apesar da evolução pessoal que o meu trabalho me proporciona, ele exige de mim um alto nível de atenção, estudo e cuidado com o próximo. Se por um lado me energiza, ele também me exaure, e eu acabei negligenciando outras fontes de energia fora do trabalho.


Na passagem do famigerado 2020 para 2021, eu decidi: vou trabalhar como fisioterapeuta 42h semanais e, assim, vai sobrar tempo para eu começar a construir a “Paula versão 6.0”, me dedicar a estudar e trabalhar em outras áreas, voltar a fazer exercícios e a ler por puro prazer e sem correria, fazer as aulas de canto que eu venho adiando desde 2018 e, depois de vacinar contra o “coronga”, serão quatro viagens anuais para refrescar as ideias, mesmo que apenas em fins de semana ou feriadões.


Para minha surpresa, há duas semanas li um texto no linkedin sobre excesso de trabalho e risco maior de ter acidente vascular encefálico, o popular “derrame”. Fui pesquisar mais no pubmed, uma plataforma mundial de artigos científicos, e encontrei 298 estudos científicos publicados nos últimos cinco anos relacionando o excesso de trabalho (“long working hours”) a alguma doença/condição: hipertensão, obesidade, suicídio, enxaqueca, diabetes, depressão, câncer, etc …


Mas o que esses estudos estão dizendo sobre o excesso de trabalho e o risco de “derrame”?


O que é considerado trabalhar em excesso?


No Brasil, são regulamentadas 44h de trabalho semanais ou 8,8h por dia de segunda a sexta-feira, sendo possível fazer 2h extras remuneradas por dia. Eu trabalhava 13h/dia (tenso!). Os estudos não são unânimes entre categorizar o que é normal, alguns falam entre 35–40h e outros entre 40 a 44h semanais. Existem também diferenças quanto ao que é considerado excesso, tendo a maioria considerado dois níveis de excesso: entre 44 e 55h semanais e acima de 55 h por semana, o pior de todos para a saúde.


Qual o risco real de desenvolver “derrame” com excesso de trabalho?


Três estudos diferentes relataram resultados muito parecidos e com forte evidência científica de que pessoas que trabalham 55h semanais ou mais têm 13% (Fadel et al., 2020), 17% (Li et al., 2020) e uma a três vezes (Kivimäki, 2015) mais chances de terem um “derrame” em comparação com quem trabalha de 35 a 40h semanais (Figura 1).


Figura 1: Segundo o Ministério da Saúde, o acidente vascular encefálico é segunda causa de morte e a principal causa de incapacidade no Brasil (2019).


Quem são as pessoas que estão trabalhando demais


Em estudo realizado com profissionais da saúde de Belo Horizonte, foi observado que a maioria daqueles que trabalham mais que 44h semanais são homens de alto nível educacional, com filhos e que oferecem atendimento de saúde diretamente ao público (Andrade et al. 2017). Algo de muito errado não está certo, não é mesmo? Profissionais de saúde com alto nível educacional, ou seja, que deveriam saber se cuidar e dar o exemplo (“aí eu tô inclusa”), ignoram os estudos, não se cuidam e ainda querem oferecer atendimento de saúde aos outros … é incoerência, negacionismo da ciência ou os dois?


Um estudo coreano com 1120 adultos encontrou relação entre as pessoas que trabalham mais que 45h e o fato de ser mulher, com mais de 50 anos e ter sobrepeso ou obesidade. Algumas das hipóteses é que, além do peso aumentar naturalmente com a idade e a influência hormonal, a longa permanência no trabalho e o papel feminino ainda desigual na sociedade asiática nas tarefas domésticas favorecem o estresse, o sedentarismo e a má alimentação, fatores ligados ao ganho de peso. Hipóteses bem plausíveis, e uma realidade feminina bem parecida com a brasileira, não é mesmo?


Então, não é só trabalhar demais que causa “derrame”?


De fato, esses estudos mostraram que pessoas que trabalham demais têm na bagagem outros hábitos negativos que aumentam as suas chances de sofrer um “derrame”: sedentarismo, passam muito tempo sentados durante o dia, consomem mais bebidas alcóolicas e, para piorar tudo, eles têm uma tendência maior a ignorar os sinais do corpo, o que atrasa a busca por especialistas de saúde que poderiam ajudar a prevenir dores, disfunções, incapacidade e até a morte pelo “derrame” (Kivimäki, 2015).


“Intonce” …


Trabalhar demais pode realmente fundir a sua cabeça, e eu acredito que pesquisas como essas vão ficar cada vez mais frequentes e com um poder estatístico ainda maior a ponto dos seus resultados embasarem políticas públicas e privadas mundiais para evitar doenças precipitadas pelo excesso de carga horária de trabalho. Como mulher e profissional de saúde, me encaixo aí em alguns perfis que estão sob análise de risco de desenvolver “derrame” por trabalhar demais e fico feliz por ter acordado a tempo de me redesenhar como pessoa e profissional e assim encarar o meu trabalho como ele é, uma atividade perene em que ofereço e recebo saúde.


E você …? Faça a sua escolha: você está trabalhando para …


( ) Ter desenvolvimento pessoal e social

( ) Adoecer e morrer



REFERÊNCIAS

Li et al. The effect of exposure to long working hours on ischaemic heart disease: a systematic review and meta-analysis from the WHO/ILO Joint Estimates of the Work-related Burden of Disease and Injury. Environment International 142 (2020).


Andrade et al. Long working hours in the healthcare system of the Belo Horizonte municipality, Brazil: a population-based cross-sectional survey. Human Resources for Health (2017).

Kim et al. Long working hours and overweight and obesity in working adults. Annals of Occupational and Environmental Medicine (2016).


Fadel et al. Cumulative Exposure to Long Working Hours and Occurrence of Ischemic Heart Disease: Evidence From the CONSTANCES Cohort at Inception. Journal of the American Heart Association (2020).


Kivimäki et al. Long working hours and risk of coronary heart disease and stroke: a systematic review and meta-analysis of published and unpublished data for 603 838 individuals. The Lancet (2015).


Total de idosos no mercado de trabalho cresce; precariedade aumenta. Portal Agência Brasil, 2019. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-05/total-de-idosos-no-mercado-de-trabalho-cresce-precariedade-aumenta Acessado em fevereiro 2021.

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