• Ciência em Ação

Urbana biodiversidade: sobre vivendo na selva de pedra


Por: Yasmine Antonini & Tulaci Bhakti



“Quem me compra um jardim com flores?

Borboletas de muitas cores?

Lavadeiras e passarinhos?

Ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera?

Uma estátua de primavera?

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo que é jardineiro?

E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

Este é o meu leilão....

Cecília Meireles, "Leilão de Jardim"


Durante a pandemia, com a diminuição do trânsito de pessoas e veículos nas cidades, vimos imagens e assistimos vídeos de animais tomando conta dos espaços urbanos em diferentes países. Gansos passeando livremente nas ruas, bandos de tucanos pousados em arvores, dentre outros. O ruído causado pelo tráfego foi substituído por manhãs mais “barulhentas” devido ao canto cantos de aves: basta chegarmos à janela ou ao jardim, mesmo para audições menos habituadas ou treinadas para escutar e distinguir diferentes cantos de aves. O biólogo Marcelo Vasconcelos, por exemplo, vem fotografando aves raramente vistas na cidade de Belo Horizonte, tais como saíras, pássaros frugívoros multicoloridos (veja mais).


De fato, há uma maior “ocupação” de espécies no espaço urbano e o efeito ecológico que isso pode acarretar ainda é desconhecido. Serão necessárias avaliações futuras para determinar se a retomada das cidades pelos humanos causará mais conflitos ou se as áreas urbanas voltarão ao seu “normal”.


Mas de onde esses pássaros vieram? Eles sempre estiveram aí e nunca nos demos conta ou realmente resolveram “se mudar” para as grandes cidades? Essa pergunta nos faz pensar inclusive que em algum lugar, não muito distante das cidades, estes animais estão morando, se alimentando e se reproduzindo. Estudos em regiões urbanas costumam apontar uma maior biodiversidade nas áreas marginais aos centros, chamadas de zonas periurbanas, e isso se explica por uma maior concentração de áreas verdes e menor grau de urbanização. Estas então seriam possíveis “fontes” para algumas espécies que agora conseguimos encontrar nas áreas mais centrais das cidades. Em alguns casos, algumas espécies deslocam destas margens da cidade para o interior dela e podem ser encontradas em áreas verdes menores como parques, praças ou menos em vias mais arborizadas. Isso é possível devido a presença de habitats favoráveis para a fauna no ambiente urbano, que funcionariam como pontes que conectam as áreas verdes menores, deixando a cidade mais “permeável” para as espécies. Sendo assim, estes fragmentos de habitats naturais (e até mesmo os planejados com espécies exóticas) no ambiente urbano são importantes para a manutenção de parte da biodiversidade.


Por outro lado, o processo de urbanização das grandes cidades acarreta em maior verticalização com consequente substituição das casas que abrigavam quintais com espécies nativas e árvores frutíferas, que são trocados por prédios gigantes. A construção desses prédios acarreta a diminuição de áreas verdes atrativas para a fauna, como abelhas e aves, ou mesmo a retirada de árvores antigas usadas na arborização urbana, como o que estamos assistindo em Belo Horizonte com o Programa de supressão em Belo Horizonte, também contribui para a diminuição da presença de abelhas e aves.


Ainda usando como exemplo a cidade de Belo Horizonte, cuja elaboração do plano de urbanização foi claramente influenciada pelas ideias de modernidade, de progresso, de avanço tecnológico, nota-se que foi idealizada uma cidade rigidamente geométrica, funcional, limpa e saudável, constituída de parques e áreas verdes, ventilada e iluminada. Assim, Belo Horizonte foi planejada para ser uma cidade de vias retas, reticuladas como um tabuleiro de xadrez, com largas avenidas arborizadas e amplos espaços abertos, formando eixos monumentais, praças ajardinadas e arborizadas e um grande parque urbano central. Nada se preservou do Curral D’El Rey, sítio no qual se edificou a cidade, um centro urbano com 8,5 Km quadrados de área, inaugurado em 12 de dezembro de 1897. A partir daí, Belo Horizonte adquire o seu caráter eminentemente urbano e expulsa todos os sinais de paisagem rural para a periferia.


Apesar dessa perda, Belo Horizonte ainda é uma das capitais mais arborizadas do país. A Organização Mundial de Saúde aconselha uma área mínima de 12 m2 de área verde por habitante; a média calculada em 1997 era de 32m2 por habitante na capital mineira. Para exemplificar a importância dessas áreas verdes, um estudo realizado nas manchas de habitats florestais remanescentes mostrou que manchas maiores abrigam um maior número de espécies de abelhas sem ferrão (Meliponineos). Essas espécies de abelha necessitam de árvores grandes para abrigar seus ninhos, que eram somente encontradas em manchas de habitats que sofreram pouca ou nenhuma intervenção. Caminhando pelas ruas arborizadas de Belo Horizonte podemos encontrar muitos ninhos de abelhas sem ferrão abrigadas em Ipês, Quaresmeiras, Sibipirunas e outras.


Falando em abelhas não podemos deixar de comentar uma iniciativa super importante, liderada inicialmente por pesquisadores estrangeiros que sugeriram a instalação de um complexo de cavidades para que as abelhas solitárias pudessem construir seus ninhos, nos jardins e quintais, ou Hotel de abelhas. A iniciativa prevê ainda que as pessoas cultivem flores diferentes nos jardins, transformando-os em jardins urbanos “amigos das abelhas” (Para saber mais).


Para as aves, alguns estudos mostraram que além da preservação de parques, outras áreas verdes como praças e mesmo cemitérios tem um efeito de auxiliar na conservação destas espécies em áreas urbanas, assim como a melhoria e manutenção de árvores nas calçadas. Com o uso de espécies de plantas, o aumento desta prática torna estas áreas atrativas para as aves devido à disponibilidade de flores, frutos, locais de repouso e mesmo nidificação.


No entanto, a pressão de urbanização exercida sobre as áreas verdes remanescentes permanece intensa, principalmente sobre as áreas verdes internas às cidades, que normalmente não se situam em zonas protegidas. Por isso, devido ao interesse mobiliário, essas áreas entram na mira de planejadores urbanos e políticos para que sejam substituídas por edificações. Esse foi o caso da área conhecida como Mata do Planalto, em Belo Horizonte, que foi felizmente preservada devido a uma intensa mobilização da população local.


Podemos ainda mencionar a pressão exercida sobre as áreas marginais aos grandes centros urbanos, que por possuírem uma menor densidade populacional e serem menos verticalizadas, tendem a serem escolhidas como alvos para crescimento da cidade. Por exemplo, esse é o caso do “Vetor Norte” na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As ocupações sem planejamento podem gerar grandes alterações no uso do solo com consequente intenso impacto sobre a biodiversidade.


Os exemplos acima ilustram como as cidades são ambientes em constante transformação e que o impacto dessas transformações sobre a biodiversidade pode ser atenuado com um planejamento que considere a manutenção das áreas verdes. Esse impacto pode ser efetivamente reduzido se uma análise da configuração da paisagem for incluída no planejamento urbano. Por exemplo, uma maneira de avaliar local e regionalmente como a configuração de uma paisagem pode influenciar a ocorrência de espécies de aves sensíveis a fragmentação foi indicada por um estudo realizado na região de Ouro Preto, MG. Neste estudo os pesquisadores avaliaram os fatores que determinavam a presença de algumas espécies de aves insetívoras de sub-bosque em manchas florestais urbanas e periurbanas. Os resultados mostraram que para algumas espécies dessas aves a presença de arvores de grande porte, a quantidade de cobertura de floresta e o tamanho da área são fatores importantes para sua manutenção. Na figura abaixo mostramos essa relação. O tamanho da ave indica o quanto cada variável da paisagem é importante para que a espécie ocorra no fragmento de habitat. Quanto maior a ave, mais ela necessitará de habitats que tenham as características correspondentes. Dando um exemplo: para a espécie Pyriglena leucoptera, a quantidade de mata e o tamanho do fragmento são fundamentais para sua sobrevivência. Assim, em um planejamento de expansão urbana, por exemplo, seria importante manter fragmentos de habitat que tenha florestas em estágios mais avançados de sucessão ecológica.


Figura 1 Multiescalas da paisagem e a influência sobre a ocorrência de espécies de aves. A variação do tamanho das figuras indica o peso que cada variável apresentou para cada espécies nos modelos construídos entre a ocorrência das espécies a cada variável do micro-habitat, local e da paisagem.

Extraído de: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0198732.g002



Atualmente há uma maior preocupação de pesquisadores e gestores públicos com a maior adequação ou “readequação” dos espaços urbanos com a finalidade de proteger a biodiversidade nestes ambientes. Isso tem acontecido devido a uma maior difusão de informações sobre a importância dos serviços ecossistêmicos e também sobre o impacto das mudanças climáticas ao redor do planeta. Assim áreas que eram consideradas “vazios urbanos” estão ganhando novas funções que vão deste a criação de hortas comunitárias, jardins até miniparques. Para tanto, tem se substituído áreas abandonadas como lotes vagos ou repensado a forma de manter praças, rotatórias e outros espaços, antes ocupados majoritariamente por grandes gramados por jardins complexos. Um dessa iniciativa é o High Line Park, em Nova York, onde uma antiga linha férrea abandonada foi transformada em um parque linear, com jardins formados por ervas e arbustos. Esse parque atrai, não somente turistas como também aves, insetos e outros animais. Essa iniciativa ilustra que é possível conciliar, dentro dos espaços urbanos, a convivência da população humana e de certos animais e plantas.


Outra inciativa, em Singapura, mostrou que a população prefere áreas verdes menos “organizadas” e, portanto, mais “selvagens”. O estudo apontou ainda que quanto mais conscientes sobre o papel dessas áreas para a conservação da biodiversidade, mais contentes os visitantes ficavam depois da visita.


A integração entre urbanização e proteção da biodiversidade ainda está longe de ser uma realidade na maior parte das cidades brasileiras. Para isso novos estudos são necessários, como os citados acima para abelhas em Belo Horizonte e para aves em Ouro Preto. Não basta ter áreas “verdes” na área urbana se esse verde não resulta em diversidade. Além disso, é necessária maior investigação sobre os impactos dos zoneamentos urbanos, que determinam, por exemplo. o índice construtivo em cada lote de acordo com a sua zona. É assim que os governos municipais decidem quais serão zonas com menor ou maior adensamento urbano e a consequente maior proteção ambiental, assim como novas áreas para expansão urbana. Em Ouro Preto identificou-se, por exemplo, que uma das expansões previstas no plano diretor, vai ocorrer dentro da Zona de Amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi, uma Unidade de Conservação de Proteção Integral.


Há, portanto, urgência de se construir uma ponte entre o conhecimento cientifico e o poder público, para que os gestores urbanos (prefeitos principalmente) possam utilizar os resultados dos estudos científicos no planejamento urbano. Desse modo, é possível reduzir o impacto da urbanização sobre a biodiversidade e, para isso, a participação de pesquisadores na elaboração do plano diretor de um município é fundamental para o sucesso do planejamento.

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